SAÚDE

A última chance

Programas de exercícios que prometem enxugar até 7 quilos em oito semanas atraem os cariocas que pretendem fazer bonito no próximo verão. Seus seguidores garantem: ainda dá tempo

Por: Carla Knoplech - Atualizado em

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(Foto: Redação Veja rio)

Em projetos pessoais de maior envergadura, um prazo de oito semanas não é lá grande coisa. Seria pouco tempo para aprender uma língua estrangeira ou cursar um programa de especialização profissional, por exemplo. Mas, com altas doses de empenho e dedicação, dá para se livrar dos excessos adiposos indesejáveis que teimam em se acumular em torno da cintura. Essa terapia de choque, com vistas ao verão, é a proposta de alguns professores de ginástica das principais academias da cidade. Com seus métodos heterodoxos, eles atraem legiões de seguidores e prometem enxugar até 7 quilos em pouco mais de cinquenta dias, bem a tempo de encarar a estação mais quente do ano. Enfrentar tamanho desafio exige disponibilidade de tempo (uma hora, três vezes por semana) e disciplina férrea. "Mas são impressionantes os resultados alcançados", diz a médica Cíntia Rodrigues, adepta do spinning (exercícios de alto impacto em bicicletas ergométricas) como recurso para queimar as calorias extras.

Naturalmente, emagrecer tão rápido exige sacrifícios. Cada aula de Cíntia equivale a pedalar das Paineiras até a Vista Chinesa em 45 minutos. Tal intensidade pode pulverizar 600 calorias (o equivalente a um Big Mac) de uma só vez. O principal responsável por esse prodígio é o professor Renato Ramos, 36 anos, que mistura exercícios pesados de ciclismo a uma vibrante trilha sonora, recheada de tecno e hip-hop. Desenvolvido durante o período em que deu aulas na Europa, entre 1999 e 2009, o método atrai em média 500 pessoas por semana nas cinco unidades da rede de academias Body Tech, onde trabalha. "Enquanto os alunos estão nas bicicletas, simulo um clima de boate com sons de alguns dos melhores DJs do mundo", conta Ramos. Antenado, ele costuma incluir em suas baladas esportivas músicas que ainda nem chegaram às pistas de dança cariocas.

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(Foto: Redação Veja rio)

A aproximação do verão costuma aumentar em até 25% a procura pelas academias no Rio. Afinal, estamos em uma cidade à beira-mar, voltada para o culto à beleza. Essa preocupação em fazer bonito nas praias torna-se sensível principalmente entre as mulheres. Elas são maioria em aulas como as do professor de educação física César Parcias, 47 anos, da academia Proforma, no Leblon. Com foco estrito em resultados, ele criou um curso especial, que neste ano começa no dia 7 de novembro e se encerra em 24 de dezembro. Aos mais entusiasmados, um aviso: as onze turmas de cinquenta alunos não têm mais vagas disponíveis, e os interessados precisam se inscrever em uma lista de espera para o caso de desistências de última hora.

Para quem consegue entrar, a garantia é de muito suor recompensado por uma consistente redução nas medidas. Batizada oficialmente de CP Training em referência ao criador, mas conhecida entre os admiradores como Projeto Verão, a série de exercícios promete eliminar até 6 quilos com treinos de uma hora, cinco vezes por semana. Trata-se de uma vigorosa bateria de ginástica localizada, polichinelos, agachamentos e até tiros de corrida dentro da sala de aula. Popular entre as cariocas das mais variadas faixas etárias, o método criado em 2003 ganhou um poderoso aval no ano passado. Foi testado ? e aprovado ? por Charlotte Casiraghi, 25 anos, filha da princesa Caroline de Mônaco, que aproveitou para malhar enquanto passeava pela cidade, em dezembro. "O diferencial dos nossos alunos com relação aos demais é o grau de comprometimento. O programa vira uma espécie de causa, e nós nos vemos tantas vezes que, ao fim do projeto, estamos íntimos", comenta o professor.

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(Foto: Redação Veja rio)

Assim que coloca os pés pela primeira vez em uma academia, um candidato à perda de peso aprende que, para queimar gorduras indesejáveis em curto período de tempo, precisa combinar atividades aeróbicas de alta intensidade com musculação. O grande segredo para alcançar a boa forma é justamente transformar tal prática, quase sempre maçante e repetitiva, em algo divertido e agradável. Uma missão encarada com fervor pelo lutador Lincoln Cavalcante, 30 anos, professor de kickboxing na Companhia Athletica, na Barra da Tijuca. Tricampeão brasileiro na modalidade e duas vezes campeão carioca, ele esbanja bom humor em suas aulas, nas quais os alunos se fartam de distribuir socos e pontapés. Em média, uma sessão de 45 minutos chega a consumir até 700 calorias. Em seu treino pré-verão, Cavalcante combina os princípios básicos da prática de forma a garantir o máximo em condicionamento físico dos alunos. "Apresento a luta e os movimentos técnicos usando o que ela oferece de melhor, mas sem a pressão de uma competição de verdade", diz o atleta, que tem fama de durão entre os alunos. "Com isso, a aula se torna quase uma brincadeira."

Com cerca de metade da população brasileira enquadrada na categoria de sobrepeso e 15% efetivamente qualificada como obesa, torna-se louvável a preocupação dos cariocas em perseguir a boa forma. No entanto, os médicos e profissionais de saúde veem com cautela o uso dos esportes como um recurso de emergência. O motivo é simples: eles entendem que os exercícios devem ser parte da rotina das pessoas, e não uma solução de última hora. O mesmo se dá em relação à alimentação. Restrições muito radicais jamais substituirão a adoção de uma dieta balanceada, livre de doces, gorduras e outros excessos. "A atividade física, assim como as refeições equilibradas, não devem ser vistas apenas como uma preocupação sazonal, mas sim como uma prática regular a ser adotada para sempre", diz o médico Airton Golbert, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

De fato, os riscos para quem opta por projetos esportivos de alta intensidade são altos, principalmente entre os mais sedentários. "Quem corre para a academia só agora tem de tomar cuidado para não se lesionar nem ter sobrecargas cardiovasculares. O ideal seria procurar um médico antes de iniciar qualquer atividade", explica Golbert. É uma conduta comparável à dos atletas de fim de semana, que possuem maior propensão a sofrer fraturas, torções e problemas cardíacos do que as pessoas que fazem exercícios regularmente. Nesse sentido, as estratégias de choque desenvolvidas como parte dos preparativos para o verão devem ser vistas como um estímulo a mais, uma espécie de ponto de partida de um estilo de vida que combine preocupação estética com hábitos mais saudáveis. Detalhe: o ano inteiro.

Fonte: VEJA RIO