COTIDIANO

Marieta Severo

Protagonista do sucesso de crítica Incêndios, no palco do Poeira, com ingressos esgotados até o fim do ano, ela mostra talento no drama, para além da popular dona Nenê da telinha

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Tomás Rangel
(Foto: Redação Veja rio)

Aos 67 anos, quase cinquenta de carreira, com uma série de personagens marcantes e tendo no currículo alguns dos prêmios mais importantes do teatro brasileiro, a atriz Marieta Severo não fazia ideia do que estava por vir quando, no início de 2013, aceitou o convite para estrelar o drama Incêndios. Na montagem, dirigida por Aderbal Freire-Filho, que estreou em setembro passado, ela interpreta Nawal Marwan, mulher de origem árabe que migra para o Ocidente com o casal de filhos gêmeos. Ao morrer, deixa em testamento uma missão para ambos: encontrar o pai, que eles julgavam estar morto, e um irmão que nunca se soube que existia. Escrito pelo libanês radicado no Canadá Wajdi Mouawad e montado pela primeira vez em 2003, o texto ficou conhecido por aqui na adaptação para o cinema do diretor Denis Villeneuve, indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro. É no teatro, porém, que a força da trama, com seus ecos de tragédia grega, reverbera com mais intensidade no público. Ancorada pela sublime atuação de Marieta, sensível sem apelar ao melodrama choroso, a encenação em cartaz no Teatro Poeira, em Botafogo, tem, invariavelmente, levado os espectadores às lágrimas. ?É uma comunicação em um nível que eu nunca testemunhei na minha carreira?, ela diz.

Nascida e criada entre o Leblon e Ipanema, a atriz começou a se insinuar nas artes por meio do balé, ainda criança. Mas a carreira de dançarina foi interrompida quando, aos 16 anos, ela conheceu o Tablado, tradicional escola carioca de artes cênicas. Em 1965, estreou no teatro profissional, logo em um clássico: As Feiticeiras de Salém, de Arthur Miller. Dividindo-se ao longo de décadas ainda entre cinema e TV (em A Grande Família, por exemplo), encenou outros gigantes: Brecht, Shakespeare, Sófocles, Albee. Montagens de autores nacionais também figuram entre seus orgulhos: os clássicos Roda Viva e Ópera do Malandro, de Chico Buarque ? com quem foi casada e teve três filhas; No Natal a Gente Vem Te Buscar, de Naum Alves de Souza, que lhe rendeu os prêmios Molière e Mambembe; As Desgraças de uma Criança, de Martins Pena, quando descobriu o dom para a comédia; e A Estrela do Lar, de Mauro Rasi, o primeiro trabalho ao lado da parceira Andréa Beltrão, de quem virou sócia em 2005, quando, juntas, abriram o Teatro Poeira. Curiosamente, a própria Marieta tinha dúvidas no início da carreira. ?Estava segura de minha vocação, mas não do meu talento?, conta. Com ingressos esgotados até o fim do ano, Incêndios confirma, uma vez mais, que ela estava certa em trocar o balé pelo teatro.

Fonte: VEJA RIO