a conta não fecha

Preços de aluguéis no Rio assustam donos de bares

A cidade da Copa e da Olimpíada coleciona desentendimentos entre donos de imóveis vazios e empresários dispostos a investir em novos pontos

Por: Rafael Cavalieri e Pedro Moraes

Tato Giovannoni
Tato Giovannoni: mixólogo argentino busca casa no Rio (Foto: Felipe Fittipaldi)

Casa concorrida em Buenos Aires, a Florería Atlántico foi alçada, no ano passado, ao 39º lugar da lista organizada pelo site inglês The World’s 50 Best Bars. Também em 2014, o mixologista argentino Tato Giovannoni, dono desse que é considerado um dos “cinquenta melhores bares do mundo”, mudou-se para o Rio disposto a abrir por aqui uma filial de sua premiada empreitada. A boa-nova anunciada deu em nada até agora: Tato visitou mais de quinze imóveis e não encontrou o que queria. Valores inflados de aluguel e de luvas — a taxa cobrada para fechar contrato — foram as principais razões do desacerto. “Não desisti, mas estou meio sem saber para onde ir. Não se pode cobrar o que estão pedindo, às vezes por lojas sem nada dentro”, conta. No seu périplo, o empresário passou por endereços como os que já abrigaram o bar DoiZ, em Botafogo, e o Café Dois4Sete, no Leblon. Ambos estão fechados há tempos (veja o quadro), o que complica ainda mais a situação. Alvo das atenções do mundo, entre a Copa e a Olimpíada, o Rio tem imóveis vazios e investidores em busca de novos espaços para seus negócios. O que falta para unir os dois lados?

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Na Zona Sul, a vacância de propriedades chega a 13% e o tempo médio de portas fechadas é de oito meses. Diretor comercial da imobiliária Sérgio Castro Imóveis, Cláudio Castro acredita que certo amadorismo prejudica as negociações. “Há muita gente, entre proprietários e corretores, sem o conhecimento técnico necessário”, diz. O pecado da usura, no entanto, é um obstáculo mais evidente. “Donos de restaurantes, bares e lanchonetes são os que mais sofrem com o aumento dos valores de luvas e o exagero na cobrança do aluguel. Em Ipanema e no Leblon, não raro vemos imóveis de 50 metros quadrados com pedido de aluguel que beira 20 000 reais. É impossível para um negócio desses se viabilizar pagando mais do que 250 reais por metro quadrado”, diz Castro. Feitas as contas sugeridas pelo especialista, o valor realista de aluguel para um ponto de 50 metros quadrados nesses dois bairros nobres giraria em torno dos 12 500 reais.

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(Foto: Veja Rio)

Em sua busca, o argentino Tato se assustou com quantias como os 22 000 reais mensais pedidos pela ocupação do sobrado de Botafogo do antigo DoiZ ou os 18 000 reais de aluguel, mais 700 000  reais de luvas, cobrados pelo pequenino Dois4Sete (cerca de 70 metros quadrados). A elevação dos preços, acentuada nos últimos anos, começa a perder fôlego, mas ainda não há sinais evidentes de queda. Um estudo do Sindicato de Habitação do Rio (SecoviRio) mostra que, de fevereiro de 2014 ao mês passado, o preço por metro quadrado no Leblon subiu 12,6% e, no bairro vizinho, Ipanema, cresceu 12,2%. Nesse cenário, quem perde é o freguês. To­me­-se o exemplo de Leonardo Botto. Dono do Botto Bar — eleito o endereço do melhor chope da cidade nas últimas duas edições do especial COMER & BEBER, publicado por VEJA RIO —, o conceituado mestre-cervejeiro tem bem-vindos planos expansionistas. Já rodou por Botafogo, Leblon e Barra sem encontrar proposta inferior a 18 000 reais mensais. “No Flamengo vi um terreno quase baldio, teria de demolir o que sobrou e começar as obras do zero, e me pediram 25 000 reais”, lembra. Na Praça da Bandeira, onde faz bonito com suas vinte torneiras de chope, Botto paga módicos 6 000 reais pela casa de esquina com 120 metros quadrados.

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Há mais mistérios nas relações entre proprietários e inquilinos do que supõe o dia a dia do mercado imobiliário. Não são raros episódios folclóricos nesse meio, como o do confronto entre as duas partes envolvidas na renovação do contrato de aluguel de um imóvel em Botafogo. A proposta de dobrar o valor pago inspirou troca de acusações mútuas e uma derradeira reunião quase terminou em pancadaria. O proprietário, que não quis se identificar para evitar complicações em futuras negociações, ficou traumatizado. “Prefiro não alugar a entregar o imóvel nas mãos de qualquer um.” Bom­-senso é sempre recomendável. Assim como há os maus inquilinos, há senhorios tresloucados, a exemplo daqueles que confundem luvas com prêmio de loteria. Entre uns e outros, quem gosta de comer e beber bem fica na torcida para que Tato Giovannoni, Leonardo Botto e quem mais chegar possam encontrar um cantinho para chamar de seu. Ou melhor, nosso

Fonte: VEJA RIO