Perigo na areia

Praias cariocas são reprovadas em teste da Prefeitura

Programa responsável por monitorar os níveis de poluição nas praias revela quais são os piores trechos da orla

Por: Pedro Moraes

Lingua Negra
Em Copacabana a poluição chega à faixa de areia pelas línguas negras (Foto: Ana Carolina Fernandes/Folhapress)

O sol pode estar a pino ou encoberto entre nuvens. Não importa. A praia é o programa de lazer favorito dos cariocas durante as quatro estações do ano. O que pouca gente percebe é que não é apenas o mar que exige atenção quando se trata de risco de contaminação por esgoto e outros poluentes. Uma análise da própria prefeitura mostrou que neste verão a sujeira também imperou nas areias. O problema é que esse é justamente o local onde os banhistas passam a maior parte do tempo, seja embaixo da barraca, bronzeando-se na canga ou praticando esportes. Durante boa parte da estação, alguns dos principais cartões-postais do Rio estiveram impróprios para uso, graças à alta concentração de coliformes fecais presente na faixa entre o calçadão e a arrebentação das ondas. A campeã de imundície foi a Praia de Copacabana, no trecho da Rua Souza Lima, reprovada nas últimas cinco aferições, realizadas a cada quinze dias através do projeto Areia Carioca, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. A seguir vieram São Conrado, Barra da Tijuca e Barra de Guaratiba (veja o quadro abaixo). “A quantidade de bactérias é potencializada pelo aumento da temperatura. Somada a isso, a sujeira trazida pelos banhistas para as praias forma um ambiente propício para a proliferação desses organismos”, explica David Zee, professor da Faculdade de Oceanografia da Uerj.

À primeira vista, é praticamente impossível detectar a sujeira. Mesmo que a areia esteja branquinha e fofa, parecendo inofensiva, ela esconde sérios riscos à saúde. “O caso mais comum de doenças provocadas pelo contato com a areia suja é a diarreia, mas também são frequentes as dermatites e até a hepatite A”, avalia o médico Alberto Chebabo, infectologista do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ. As vítimas mais suscetíveis são as crianças e os idosos, que têm menos resistência e mais riscos de desenvolver formas severas dessas doenças. Para ser considerada ideal para o uso, uma amostra de 100 gramas de areia coletada pode ter no máximo 10 000 coliformes fecais. A escala vai até níveis acima de 30 000, quando a areia passa a ser considerada imprópria. Mas essa análise não é muito detalhada. A presença de fungos, parasitas e vermes, por exemplo, responsáveis por uma série de outras enfermidades, não é detectada no teste realizado pela prefeitura. “Deveria ser desenvolvido um modelo mais amplo de teste. Afinal, o Rio é uma cidade de vocação turística e nessas areias serão disputadas algumas modalidades dos Jogos Olímpicos no ano que vem”, pondera Zee.

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(Foto: )

A presença das indesejadas línguas negras, mistura de esgoto com águas pluviais que surge depois das chuvas, especialmente em áreas próximas a favelas, onde se concentram ligações clandestinas dos dejetos à rede de escoamento das ruas, é uma das causas óbvias para a poluição nas areias. Mas, segundo a prefeitura, os banhistas também têm grande parcela de culpa nessa história. A presença de cachorros e os restos de comida deixados no local contribuem para elevar os índices de coliformes fecais na areia. “As pessoas deveriam cuidar da praia como cuidam da casa delas. Não adianta enterrar o lixo, é preciso usar as lixeiras”, afirma Vera Oliveira, coordenadora de monitoramento ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. No entanto, qualquer banhista que já tenha ficado na praia até mais tarde em um domingo já se deu conta de que as lixeiras disponíveis não são suficientes para receber todo o lixo. Em geral, elas já estão lotadas, e os banhistas vão acumulando os detritos ao redor, contribuindo para poluir ainda mais a areia. De acordo com a assessoria da Comlurb, responsável pela limpeza das praias do Rio, 2 178 lixeiras são utilizadas em toda a orla, distribuídas pela areia, em quiosques e no calçadão. Não precisa ser nenhum especialista para ver que esse número não é suficiente. 

Fonte: VEJA RIO