Cidade

Porto e Olimpíada impulsionam revitalização de prédios no Centro

Beneficiados pelas obras viárias do Centro e pela reurbanização da Zona Portuária, prédios históricos são restaurados e recuperam o prestígio do passado

Por: Ernesto Neves

Colaborou Saulo Guimarães

Mosteiro de São Bento
Restauradores no Mosteiro de São Bento: 30 000 folhas de ouro aplicadas nos ornamentos (Foto: Felipe Fittipaldi)

Ponto de referência para cariocas e viajantes que chegavam à cidade de navio, a Igreja de Nossa Senhora de Montserrat, no topo do Morro de São Bento, na Praça Mauá, era símbolo da capital colonial. Desde que foi inaugurada, em 1671, com fachada austera e interior em rebuscado estilo barroco, ela tornou-se um marco na paisagem do Rio, simbolizando o poderio da Igreja Católica. O esplendor atravessou incólume os 200 anos seguintes e manteve sua imponência, mesmo após a multiplicação de arranha-céus que hoje dominam o horizonte do Centro. Só não resistiu à construção do Elevado da Perimetral, a via expressa de concreto que contribuiu para a degradação urbana de toda a região portuária. Escondida pelo viaduto, a pérola arquitetônica não apenas sumiu de vista como começou a acumular entre seus ornamentos dourados toda a fuligem despejada pelos 60 000 veículos que trafegavam diariamente por ali. Agora, com o monstrengo demolido, o mosteiro ressurgiu na paisagem e passa pela maior restauração de sua história, uma obra de 10 milhões de reais financiada pelo BNDES. Noventa por cento dos trabalhos estão concluídos, com a recuperação do antigo interior do prédio, assim como de obras de arte e imagens. A previsão é que o conjunto seja entregue aos fiéis em 11 de julho, data em que se comemora o Dia de São Bento. “Por seu valor arquitetônico, o mosteiro é uma das construções mais importantes não só do Rio, como do Brasil”, diz Claudia Nunes, restauradora da Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Rio. “A intervenção devolve à igreja suas características originais.”

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O esforço para reverter os efeitos da decadência na igreja do mosteiro não foi pequeno. Dentro da nave principal, com impressionantes 14 metros de pé-direito, foi necessário construir uma estrutura com seis andares de andaimes. Pendurados na gigantesca armação, cerca de cinquenta restauradores passavam horas em posições nem um pouco anatômicas para remover a grossa camada de poluição oleosa que impregnava teto e paredes. Nessa etapa inicial, um químico acompanhou de perto o trabalho para garantir que o detergente não danificasse os revestimentos, de madeira de cedro maciço. Oito lampadários do século XVIII, dois deles feitos por Mestre Valentim (1745-1813), o maior artista do barroco carioca, passaram uma semana sob baforadas de vapor d’água até que a sujeira se soltasse. O telhado também foi refeito para sanar, definitivamente, as infiltrações. Quem olhar para cima, aliás, se surpreenderá. O antigo teto escurecido teve a cobertura de verniz amarelado retirada e revelou a pintura que simula janelas abertas para o céu. A fase mais complexa, no entanto, foi refazer o douramento original. Para isso, primeiro se realizou a descupinização de painéis, talhas e imagens. Em seguida, um tratamento químico preparou a madeira para receber 30 000 folhas de ouro. O trabalho era tão delicado que o restaurador nem sequer podia respirar enquanto fazia a aplicação, pois o menor deslocamento de ar desmancharia as finíssimas — e caras — películas do metal laminado. Uma vez aplicada às peças, a nova cobertura recebeu verniz protetor. “Se forem mantidas as condições ideais de conservação, o trabalho feito aqui deverá durar, no mínimo, cinquenta anos”, diz Ubirajara Mello, gerente de restauro da Concrejato, empresa que está à frente da empreitada. 

Áreas revitalizadas
Áreas revitalizadas (Foto: Felipe Fittipaldi)

1- Moinho Fluminense (1887)

Moinho Fluminense
Moinho Fluminense (Foto: Felipe Fittipaldi)

Prazo de conclusão: 2018

Custo: 1 bilhão de reais

Vendido pela multinacional Bunge, vai transformar-se num gigantesco complexo multiúso, com shoppings, escritórios, hotel e apartamentos. No terreno, que se estende por quatro quadras do bairro da Saúde, serão restaurados três prédios tombados. O conjunto abrigará ainda uma torre comercial com vinte andares. 

2- Palácio da Ciência (1926)

Palácio da Ciência
Palácio da Ciência (Foto: Felipe Fittipaldi)

Prazo de conclusão: 2018

Custo: 27 milhões 

Foi um dos primeiros prédios da cidade a ser construído com concreto armado, técnica de engenharia que tornou as edificações mais leves. Erguido por um banco alemão que financiava a exportação de café para a Europa, teve sua arquitetura bastante descaracterizada. A reforma demoliu lajes no salão principal e devolveu a imponência das colunas de pedra-sabão, com 10 metros de altura. O piso original, de mosaico, estava escondido por uma camada de argamassa com 10 centímetros de espessura. 

3- Palácio Capanema (1945)

Palácio Capanema
Palácio Capanema (Foto: Felipe Fittipaldi)

Prazo de conclusão: 2018

Custo: 60 milhões

Projetado por seis arquitetos, entre eles Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Affonso Eduardo Reidy, o complexo modernista estava em estado precário de conservação, principalmente na parte interna, castigada por infiltrações generalizadas. Antes de reformar os salões, foi necessário impermeabilizar a fachada com uma dupla camada de manta asfáltica. Expostos à maresia,  os 400 brises que protegem do sol os escritórios foram removidos um a um para limpeza, trabalho feito a partir de estrutura metálica móvel (acima). 

4- Cine Palácio (1890)

Cine Palácio
Cine Palácio (Foto: Felipe Fittipaldi)

Prazo de conclusão: primeiro semestre de 2016

Custo: 30 milhões

Em estilo neomourisco, o prédio estava fechado havia sete anos e será transformado em um teatro de 1 000 lugares. O maior desafio foi dotar o velho cinema de instalações para atender às necessidades de uma moderna sala de espetáculos destinada à montagem de musicais, como o grande palco e áreas de apoio para equipamentos. De propriedade do banco Opportunity, o espaço será administrado pela Aventura Entretenimento.

5- Hotel Bragança (1906)

Hotel Bragança
Hotel Bragança (Foto: Felipe Fittipaldi)

Prazo de conclusão: dezembro de 2015

Custo: 40 milhões

Logo no início das obras foi constatada a necessidade de demolir por completo o interior da construção, preservando-se apenas a fachada de estilo eclético. O mesmo aconteceu com um edifício ao lado, anexado ao projeto. Já um terceiro prédio, nos fundos, foi posto abaixo para dar lugar a um novo. Devido ao espaço exíguo, vários componentes foram içados por guindaste, como a cúpula (abaixo) no teto e cada um dos banheiros pré-montados que equipam os quartos.

A intervenção no Mosteiro de São Bento insere-­se num amplo processo de revitalização que se estende da Rodoviária Novo Rio à Glória. Atraídas pelos incentivos fiscais decorrentes das obras de reurbanização do Porto, empresas de diversos setores sentiram-se estimuladas a investir na região. De 2010 para cá, os lançamentos anuais na área saltaram de 105 unidades para 756, em 2014, de acordo com dados da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi). Pelo menos dezesseis prédios históricos estão passando por um processo de renovação em um local em que guindastes e andaimes dividem espaço com os tapumes que demarcam o traçado do futuro veículo leve sob trilhos (VLT), que circulará a partir do ano que vem. Na Lapa, o antigo Hotel Bragança, erguido em 1906, foi resgatado depois de décadas de abandono e deverá reabrir já em dezembro. Com investimento estimado em 40 milhões de reais, o futuro três-estrelas terá por trás da vistosa fachada em estilo eclético um conjunto de 120 apartamentos com decoração moderna e equipamentos funcionais. Bem ao lado está a Sala Cecília Meirelles, estalando de nova desde que foi reinaugurada, no fim do ano passado. Em frente ao Passeio Público, outros 350 milhões de reais estão sendo empregados pelo banco Opportunity em um conjunto comercial com três torres comerciais de dezessete andares e que terá como âncora o prédio do Cine Palácio, de 1890. O antigo cinema, o primeiro a exibir um filme sonoro no Rio, deverá reabrir em 2016 como um teatro de 1 200 lugares e palco adaptado para receber grandes musicais. “Sem dúvida, vai ser um dos melhores teatros da cidade”, aposta Daniel Vilas-Boas, coordenador de projetos do banco. 

Ao longo dos seus 450 anos de história, o Centro do Rio tem sido varrido, de tempos em tempos, por ondas de reurbanização. A mais drástica e ambiciosa aconteceu durante a gestão do prefeito Pereira Passos (1902-1906). O período foi marcado por uma transformação tão radical que ganhou a alcunha de bota-abaixo, tal a quantidade de prédios dos períodos colonial e imperial arrasados pelo afã modernizador. Nos anos 70, o Palácio Monroe, sede do Senado nos tempos em que o Rio era a capital federal, também teve sua destruição acompanhada de perto por cariocas incrédulos com tamanho desrespeito pela história. Desta vez, porém, o processo de reurbanização acerta ao estimular o aproveitamento de prédios históricos. Assim, edifícios icônicos deixam de desaparecer do mapa para ganhar novas utilidades, adaptados às necessidades atuais. Responsável por produzir boa parte da farinha consumida na cidade, o Moinho Fluminense está prestes a se tornar um gigantesco canteiro de obras. As duas empresas que compraram a propriedade prometem recuperar até 2018, ao custo de 1 bilhão de reais, três prédios históricos tombados, que ganharão a companhia de uma torre de vinte andares. Na Praça da República, um casarão em ruínas, onde outrora funcionou a Escola de Eletrotécnica da UFRJ, deverá ser revitalizado para abrigar o Centro Nacional de Arqueologia, do Iphan. “Acho o momento positivo. Mas o poder público precisa assegurar que a mudança de uso e o restauro não alterem as características arquitetônicas da edificação quando ela é tombada”, diz o historiador Nireu Cavalcanti.  

Theatro Municipal
O Theatro Municipal ainda cercado de tapumes, em 2010: reforma como ponto de partida para o atual processo de recuperação de prédios antigos no Centro (Foto: Fernando Lemos)

Preservar regiões históricas é um desafio encarado como prioridade em metrópoles desenvolvidas. Também renovada ao sediar a Olimpíada de 1992, Barcelona tirou do limbo seu Bairro Gótico, o mais antigo da capital catalã mas que enfrentava uma acentuada decadência. Em Lisboa, iniciou-se em 2009 um ambicioso programa de resgate de áreas emblemáticas, como a Praça do Comércio. Ainda que seu casario não esteja degradado como o daqui, um estudo demonstrou que, só na capital portuguesa, 9 000 edifícios necessitam de reparos. Após décadas de esquecimento, o Rio agora corre atrás do prejuízo. Pode-se dizer que o pontapé foi dado com a restauração do Theatro Municipal, em 2010. E deve prosseguir com o extenso calendário de obras entregues até agosto de 2016, quando começam os Jogos Olímpicos. Até lá, os VLTs prometem mudar o transporte coletivo na região. Entre o Aeroporto Santos Dumont e a Saúde, a enorme quebradeira da Perimetral dará lugar a um calçadão à beira-mar. Ali, a prefeitura conduz um processo de restauro de oito sobrados antigos que serão utilizados como centros culturais, albergues e galerias de arte, ao custo de 400 000 reais cada um. Para firmar o processo de recuperação, o Centro ainda precisa ver resolvidos problemas crônicos, como a violência. Mas, castigado por décadas de descaso, consolida-­se, novamente, como protagonista da cidade. 

Fonte: VEJA RIO