COTIDIANO

Um bairro sitiado

Ruas interditadas, muita poeira e barulho infernizam a vida dos moradores do Leme, alvo de obras que se arrastam há dois anos

Por: Thaís Meinicke - Atualizado em

Fotos Felipe fittipaldi
(Foto: Redação Veja rio)

Por ser um pequeno apêndice de Copacabana, concentrado em cerca de 1 quilômetro quadrado e com menos de 15?000 moradores, o Leme tinha todas as prerrogativas para se tornar um exemplo de como é possível usufruir boa qualidade de vida em plena metrópole. Livre das esquinas ruidosas, do trânsito medonho e do formigueiro humano característicos da região vizinha, o bairro exibe aspectos de cidade do interior, com um comércio de pequeno porte e a convivência estreita entre seus residentes. Infelizmente, não tem sido mais assim. Seus moradores reclamam que a área vem sofrendo de diversas mazelas que atingem uma grande capital em crescimento desordenado. Entre elas estão a má conservação do espaço público e a realização de obras que se arrastam por um longo período, bloqueando ruas e comprometendo a mobilidade do cidadão. Diante de tantos obstáculos, essa antiga ilha de tranquilidade parece estar sitiada, uma sensação que se agrava nos fins de semana, quando é constante a interdição de vias para a realização de provas de rua ou alguma outra atração a céu aberto. O ápice do caos ocorreu durante a Jornada Mundial da Juventude, quando foi preciso ter muita fé e paciência para transpor os limites da Avenida Princesa Isabel. "É necessário estipular regras gerais para frear o processo de degradação dessas redondezas", propõe o economista Sebastian Archer, coordenador do movimento SOS Leme.

Encabeça a lista de reclamações a Rua Aurelino Leal, uma minúscula via que descamba na Avenida Atlântica. Há mais de dois anos ? precisamente desde 1º de junho de 2011 ?, seu quarteirão próximo à orla está bloqueado ao tráfego. Devidamente cercado de tapumes, ele é usado como canteiro do programa Morar Carioca, que faz obras estruturais de saneamento e habitação nos morros da Babilônia e do Chapéu Mangueira e na parte baixa do Leme. Além do corredor polonês em que se transformou a calçada, com riscos para a segurança dos pedestres, os moradores são obrigados a conviver com o vaivém de veículos pesados, que espalham muita poeira. "Temos de ficar com a janela fechada o dia inteiro, pois, além do barulho e da sujeira, existe uma quantidade enorme de mosquitos", lamenta a aposentada Cristina Hoffman, de 55 anos, residente ali desde que nasceu. Se não bastasse, tudo isso trouxe ainda outro transtorno: a infestação de roedores. "No início tivemos um problema sério com ratos, mas conseguimos controlar", conta o empresário Luiz Otávio Angelis, sócio dos restaurantes La Fiorentina e Sindicato do Chopp, que ficam bem ao lado da obra. De acordo com a Secretaria Municipal de Habitação, o alívio só virá no fim do ano, prazo previsto para acabar as intervenções. "A questão foi estudada para que impactasse o mínimo possível a rotina dos moradores, mas é inevitável que um trabalho desse porte cause algum transtorno", afirma o secretário Pierre Batista.

Apesar de por ora desconfigurado, o Leme mantém intacto seu encanto de território resguardado. Loteado a partir do fim do século XIX, ele foi endereço de diversas personalidades. Uma delas, o paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994) morou com a família numa chácara no sopé do morro. Outra foi o compositor Ary Barroso (1903-1962), que, por sinal, dá nome à ladeira onde fica a casa em que residiu e é homenageado com uma estátua na entrada do restaurante La Fiorentina. O escritor Nelson Rodrigues (1912-1980) era outro apaixonado pelo bairro, delimitado por quatro pontos: mar, morro, o Forte do Leme e a Avenida Princesa Isabel. Seu apartamento, de frente para a praia e onde hoje mora sua viúva, Elza, é fácil de identificar: numa das janelas está sempre exposta a bandeira tricolor. Mais direta é a placa colocada no prédio 88 da Rua Gustavo Sampaio, informando que naquele imóvel viveu a escritora Clarice Lispector (1920-1977). Quase em frente a esse ponto, há pouco foi demolido um prédio para dar lugar a um novo hotel: será o nono empreendimento do gênero no bairro, cujo preço do metro quadrado residencial, em torno de 12?000 reais, supera o de Copacabana. A julgar pela valorização, não são poucos os que fazem coro com os versos da marchinha Paris, de Alberto Ribeiro e Alcyr Pires Vermelho: "Paris, je t?aime, mas eu gosto muito mais do Leme".

Fonte: VEJA RIO