Crônica

Os Milagres do Cristo

Por: Nelson Motta - Atualizado em

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Cristo Redentor como "estátua placa" (Foto: Redação VEJA RIO)

No filme em preto e branco de 1941, o DC-3 da Pan Am se aproxima do Rio de Janeiro, trazendo Carmen Miranda e seus amigos de Hollywood para uma aventura nos trópicos. O avião sobrevoa a cidade, com a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar ao fundo, os dedos de uma imensa mão de concreto, depois um braço e o corpo inteiro do Cristo Redentor entram em quadro. É a mais clássica imagem do Rio de Janeiro, o postal mais banal, o maior clichê visual, o insuperável lugar-comum da beleza incomum da cidade. É a vista do Rio que se tem do céu.

No Brasil de 1931, construir uma estátua daquele tamanho, no alto de uma montanha de difícil acesso, era, no mínimo, um despropósito, uma insanidade, seria um Fitzcarraldo carioca que terminaria em mortes e tragédia. Autoabençoado, o Cristo resistiu a tudo com estoica concretude.

O cinema ficou colorido, a cidade mudou, mudaram os aviões e os passageiros, mas ao longo do tempo, em filmes, novelas, seriados e comerciais, quando alguém chega ao Rio de Janeiro, a cena continua a mesma. A cidade se espalhando à beira-mar, a baía cercada de montanhas, abençoada pelo Cristo entre as nuvens.

"Muita calma pra pensar / e ter tempo pra sonhar / da janela vê-se o Corcovado / o Redentor, que lindo? " ? cantava João Gilberto em 1959, lançando a bossa nova no histórico LP Chega de Saudade. Anos depois, consagrado nos Estados Unidos, o autor de Corcovado, Tom Jobim, voltava ao Brasil e compunha o clássico Samba do Avião: "Cristo Redentor / braços abertos sobre a Guanabara / estou morrendo de saudade..."

No Carnaval de 1989, um dos piores períodos da nossa história recente, nos estertores do desmoralizado governo Sarney, com inflação que chegou a passar de 80% em um mês, Collor eleito presidente e o Rio de Janeiro falido e entregue à bandidagem, o gênio de Joãosinho Trinta concebeu o enredo Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia para a Beija-Flor de Nilópolis, trazendo o Cristo Redentor para a passarela do samba. E para o centro de uma polêmica.

O enredo de Joãosinho era "não só sobre o lixo físico, mas o lixo moral, mental e espiritual, que cria uma multidão de marginalizados, que tiram do lixo as coisas de brilho". Proibido pela Arquidiocese e coberto por um plástico preto, com a faixa desafiadora "Mesmo proibido, olhai por nós", o carro alegórico do Cristo,abarrotado de mendigos foliões cantando e dançando à sua volta, levantou a Sapucaí.

O Cristo Redentor de 2011 é o da animação Rio, em 3-D. É de tirar o fôlego, visto de ângulos que não existem, criados pela imaginação de Carlos Saldanha e pela tecnologia de ponta. Agora vamos imaginar o inimaginável: que o Cristo não existisse. E aparecesse um carioca católico e empreendedor, meio Roberto Medina, meio Eike Batista, e propusesse a construção de um Cristo gigante no alto do Corcovado, sem custos para o estado. Claro, os logos dos patrocinadores estariam na base da estátua, afinal alguém teria de pagar a conta. O cara ia ser chamado de maluco, de picareta, de explorador da imagem divina, e não conseguiria construí-lo. Pior ainda se algum político o propusesse como um projeto público. Com concorrência fajuta, aditivos e superfaturamentos, custaria mais caro do que a reforma do Maracanã. E um desenho medonho seria o escolhido.

Ainda bem que o Cristo foi construído há oitenta anos, porque hoje certamente o Ibama e a Secretaria do Meio Ambiente não autorizariam a obra, pelos distúrbios que o gigantesco corpo estranho provocaria na fauna e na flora do Corcovado, pelas luzes e pelo movimento de pessoas que assustariam os animais silvestres, pelo abalo que provocaria no ecossistema, pela interferência na paisagem natural das montanhas emoldurando a Baía de Guanabara. Sob protestos das outras religiões e dos ateus, o Cristo Redentor teria de ser construído na Barra.

Fonte: VEJA RIO