COTIDIANO

Bem imaterial

Por: Joaquim Ferreira dos Santos - Atualizado em

Quer dizer que as pessoas estão se pegando muito e namorando pouco?

Quer dizer que depois de terem passado o último inverno se esbaldando na base do "ficar com", a primavera na loucura do "se conhecendo melhor" e o verão no saracoteio do "dando uns amassos", estamos todos outonais, as folhas da existência caindo de cansadas desse jogo fugaz ? e sonhamos mesmo é com a concretude romântica de novamente ouvir alguém, sussurrante e tímido, fazer o pedido de "Quer namorar comigo?".

Ora, que bom!

Quer dizer que as mulheres, depois de terem os cabelos puxados nas boates, de beijarem dez bocas na mesma noite, dez paladares de vodcas diferentes, e ouvirem dez vozes dizendo "você é um t...", elas agora querem um texto melhor nos ouvidos?

Querem relações menos superficiais, sair de todos esses esquemas mal no­mea­dos ? ora é rolo, ora é equipe de manutenção, jogo rápido, lero-lero, chove não molha, roubada ? e assumir com todas as letras que estão namorando?

Ora, que alvissareiro!

Esta história poderia ser cariocamente ilustrada pela imagem daquele torcedor que comemora no estádio o campeonato do Flamengo com a placa singela, desenhada desde a véspera, do "Eu já sabia". Eu também. O biquíni retrô voltou, o dry martini idem. O drive-in pode ficar no museu onde está. Mas namorar é preciso, viver é consequência.

Uma das transformações mais impressionantes da geografia do Rio nos últimos tempos foi o desaparecimento dos motéis. Eles participaram de uma revolução na cidade. Tinham um canto exclusivo na Barra da Tijuca, mas espalhavam-se em neon e camas redondas por toda a cidade, eufóricos em se anunciar como a grande novidade do namorar modernamente.

Foram-se quase todos, desnecessários que se tornaram como bunkers de proteção aos que queriam, antes da bênção nupcial, precipitar os fatos. Sexo, o grande desejo de consumo de muitas gerações, virou o óbvio ululante em 2013. Mamãe agora deixa fazer em casa, numa definição doméstica de sexo seguro. A nova carência é andar de mãos dadas, chutar tampinha e pagar o delicioso mico público de que está comprometido.

Ser livre não é mais sair beijando a boca de toda a timbalada. É escolher uma.

Antes, no rádio da minha infância, uma música do Braguinha informava aos distintos ouvintes que o Rio amanheceu cantando, toda a cidade amanheceu em flor, os namorados saíam à rua em bando. Poderiam desenhar corações a canivete nas árvores, tomar um ChicaBon ou entrar no Metro Tijuca para ver a última comédia do Cyll Farney e da Eliana. Ou não. Quem namora sabe, o bom mesmo é não fazer nada, é dar umas risadas de bobeira a tal ponto boba que vai chegar um amigo, perguntar do que se está rindo e os namorados vão rir ainda mais, porque não saberão explicar.

Os namorados, como os da marchinha do Braguinha, ainda fazem a glória dos cartões-postais de Paris, e já foram personagens fundamentais na cena do Rio. Também costumavam ser tema de cronistas. Num desses textos de jornal, Drummond disse que "namorado é ser fora do tempo, fora das obrigações do INSS, do IPTU".

A cidade que hoje recupera seus cenários, cansada de guerra, coincidentemente parece que torce para ter de volta essa nostalgia amorosa. Eu, se prefeito fosse, faria o que está na moda da memória patrimonial. Depois do grito das torcidas e do desfile do Bola Preta, tombava o casal de namorados como bem imaterial e afetivo do Rio.

Fonte: VEJA RIO