Morte no cartão-postal

Ataque a ciclista na Lagoa faz cariocas mudarem de hábitos

Violência dos ladrões choca e chama atenção a inépcia da polícia para combater os roubos na região

Por: Cibele Rechke, Daniela Pessoa e Luna Vale

Protesto pela morte do ciclista na Lagoa
Homenagem no local onde Jaime foi morto (Foto: Felippe Fittipaldi)

O médico Roberto Oberg costuma correr diariamente em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas, a meio caminho entre sua casa, em São Conrado, e o trabalho, no Cosme Velho. No início da noite de terça-­feira (19), ele se exercitava na ciclovia na Avenida Epitácio Pessoa, indo do Humaitá para Ipanema, quando cruzou com dois jovens que vinham de bicicleta, muito rápido, na direção contrária. Achou estranho o comportamento dos rapazes. Pouco mais à frente viu um grupo de senhoras gritando por socorro. Ao lado, apoiado num arbusto, um homem com roupas e capacete de ciclista tentava manter-se em pé. Era o cardiologista Jaime Gold, 56 anos, muito machucado, com sangue em profusão escorrendo pelas pernas. “Cheguei perto e falei que era médico. Ele disse que também era e falou alguma coisa sobre os rapazes. Só então vi o ferimento na barriga.” Oberg notou que o corte era grande e profundo e, pior, já expunha parte das vísceras. Gold pediu ajuda para deitar-se. “Vi como estava a respiração e comecei os procedimentos de primeiros socorros. Um funcionário do posto de gasolina veio com umas flanelas, e fiz um curativo compressivo. Era o que dava para ser feito ali.” Pouco depois, o médico ferido começou a dar sinais de que estava em choque. “Fiquei ali conversando, tentando mantê-lo acordado. Mas ele perdia o norte, murmurava palavras desconexas”, recorda. “Quando os bombeiros chegaram, já estava engasgando e começando a perder a consciência. Mas ainda estava com pulso. No total, fiquei uns quarenta minutos com ele. Já vi muita coisa, mas é difícil atender alguém assim na rua, naquelas circunstâncias”, diz Oberg. No dia seguinte, pela manhã, ele soube da morte de Gold. “Fiquei arrasado.”

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Conduzido pela equipe de socorristas para o Hospital Miguel Couto, na Gávea, Gold passou oito horas na mesa de cirurgia e recebeu mais de dez bolsas de sangue. Levou facadas no braço e no abdômen, onde os ferimentos foram mais graves. Ali, o assassino deu uma estocada profunda e empurrou a lâmina de baixo para cima. O golpe atingiu o baço, o fígado, o intestino e o diafragma do médico. Segundo testemunhas, os dois assaltantes se aproximaram em uma bicicleta (um ao guidão e o outro na garupa). O que vinha de carona avançou com a arma, desferindo golpes. Por instinto, Gold segurou firme a bicicleta, o que fez com que o ladrão se atracasse com ele. Com a vítima gravemente ferida, os bandidos fugiram levando a carteira, o celular e a bicicleta. “Eu vi tudo de dentro do carro, foi muito rápido. O ciclista não teve nem tempo de esboçar uma reação. O rapaz que o atacou agiu com uma violência descomunal, golpeando-o com força, várias vezes”, diz um motorista que vinha pela Epitácio Pessoa em sentido contrário e pediu para não ser identificado. “O que fizeram foi uma atrocidade. Infelizmente, a partir de agora ele será mais um número nas estatísticas de violência do Rio”, desabafou Marcia Amil, ex-mulher de Gold e mãe de seus dois filhos, Daniel, de 22 anos, e Clara, 21.

Vítima após assalto
Jaime foi socorrido pelo médico Roberto Oberg, que passava pelo local (Foto: Reprodução)

A morte de Gold provocou uma onda de indignação entre os cariocas. Além da brutalidade dos assassinos, o crime tornou-se ainda mais revoltante por ser previsível. Ataques com armas brancas, antes uma modalidade pouco usual, têm se tornado recorrentes — em 2014, 225 pessoas foram mortas dessa maneira no estado do Rio. Nos arredores da Lagoa, local muito frequentado por ciclistas, é comum a ocorrência de abordagens violentas feitas por menores munidos de facas e estiletes. Em outubro do ano passado, o estudante de arquitetura Carlos Henrique Pereira, de 24 anos, passou três dias internado no Hospital Miguel Couto após ter o pulmão perfurado por uma facada desferida por um dos sete adolescentes que o cercaram e levaram sua bicicleta na Avenida Epitácio Pessoa. Em dezembro, uma ciclista foi ameaçada com um facão e teve sua mountain bike roubada por dois homens. No mesmo mês, o estudante de engenharia Daniel Vasconcellos, 25 anos, foi assaltado na altura do Corte do Cantagalo por dois rapazes armados com facas. Em 19 de abril deste ano, o francês Victor Didier, de 19 anos, teve ferimentos no pulmão após receber uma estocada no tórax quando saía de um jogo de basquete, próximo ao Clube dos Caiçaras. Seis dias depois, o estudante Felipe Schuch­mann, de 14 anos, foi atingido no ombro por uma lâmina de 30 centímetros ao ser roubado por quatro adolescentes. As vítimas não esboçaram nenhuma reação e ainda assim foram atacadas. “O Felipe se recuperou bem, graças a Deus, mas ficou com marcas profundas. Ele não anda mais de bicicleta, não consigo convencê-lo nem a passear comigo, no fim de semana, na orla de Copacabana lotada”, lamenta Loris Schuchmann, pai do garoto.

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(Foto: Redação Veja Rio)

Depois da tragédia na última terça (19), a orla da Lagoa amanheceu com quatro viaturas da Polícia Militar estacionadas em pontos estratégicos próximos aos locais onde havia meses já vinham acontecendo incidentes. O comandante do batalhão do Leblon, responsável pelo patrulhamento da área, foi destituído do cargo pelo secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame — que mora ali bem perto. Duplas de policiais passaram a percorrer a ciclovia e seis homens da cavalaria da PM agora ajudam na vigilância. Em um primeiro momento, o governador Luiz Fernando Pezão criticou a Justiça: “Não adianta a polícia prender bandidos e deter menores infratores, se no dia seguinte um desembargador, com uma liminar, liberta todo mundo”, atacou. No dia seguinte, já reconhecia os problemas de policiamento. “Não vou me furtar às minhas responsabilidades. Teve erro na Lagoa”, declarou. Os moradores e frequentadores não poupam críticas à maneira como as autoridades vinham conduzindo o problema. “O crime foi em frente à minha casa, é inacreditável. Mesmo depois dos outros casos, a Lagoa continuou sem policiamento, foi como se nada tivesse acontecido”, protesta a atriz e escritora Fernanda Torres, que teve uma crônica publicada na última edição de VEJA RIO exatamente sobre esse assunto. Na quinta-feira (21), a polícia prendeu um menor, de 16 anos, na favela de Manguinhos suspeito de cometer o crime. Reconhecido por testemunhas, ele tem quinze anotações por furto, roubo e uso de drogas. Quase todas as ocorrências foram registradas nas áreas de Ipanema e Leblon e em cinco delas o jovem ameaçou suas vítimas com faca. Detido pela última vez em fevereiro, passou quarenta dias internado em uma instituição e foi liberado em março.

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(Foto: Redação Veja Rio)

Delimitada por cinco bairros nobres da cidade (Leblon, Ipanema, Jardim Botânico, Gávea e Copacabana), a Lagoa Rodrigo de Freitas é uma importante área de lazer e prática de esportes. Ali, deverão acontecer as provas de remo e de canoagem dos Jogos Olímpicos no ano que vem. Nos últimos meses, entretanto, muitos frequentadores passaram a evitar o local, principalmente no início da manhã e depois do entardecer. Outros mudaram seus hábitos: só circulam em grupos e não se aventuram em recantos mais ermos do parque (confira no quadro ao lado onde ficam os piores pontos). A nadadora e ex-triatleta Luciana Toscano, que comanda uma equipe de prática esportiva há quinze anos na Lagoa, proibiu os filhos de 10 e 14 anos de andar de bicicleta por ali. E paga uma empresa de segurança privada para garantir a integridade de seus alunos nas aulas noturnas. “Desembolso 180 reais por semana porque a polícia é incapaz de vigiar a região”, reclama Luciana, que já teve o treino com os atletas interrompido por um assalto — o bandido invadiu a ciclovia de moto. O novo comandante do batalhão do Leblon, o coronel Joseli Cândido da Silva, promete que, a partir de agora, o patrulhamento da área será diferente. “Vamos reforçar as revistas entre pedestres, colocaremos homens próximo às paradas de ônibus e aumentaremos o contingente de policiais que atuará permanentemente por ali”, diz.Amante de maratonas e pedaladas ao ar livre, o cardiologista Jaime Gold formou-se em 1984 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e construiu uma carreira de 25 anos no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), na Ilha do Fundão. Especializou-se em medicina do esporte e não perdia a oportunidade de incentivar os amigos a abandonar o sedentarismo e praticar exercícios. Disciplinado, Gold costumava dormir e acordar cedo e se exercitava diariamente na orla da praia ou na Lagoa, antes ou depois do trabalho. Ele morava com os dois filhos em Ipanema. No dia da morte do pai, Clara, a caçula, publicou uma mensagem emocionada na internet: “Pai, ninguém merece sofrer o que você sofreu, tamanha violência. Onde você estiver, encontre a paz interna que você buscava.” Ciclistas, corredores, amigos do médico, moradores e frequentadores da área estão se mobilizando para realizar pelo menos três pas­sea­tas em sinal de luto e protesto neste fim de semana. A página da Comissão de Segurança no Ciclismo da Cidade do Rio de Janeiro no Facebook convoca para uma missa campal no Corte do Cantagalo, no sábado (23), às 10 horas, realizada pelo padre Cristóvão da Pastoral do Esporte, seguida de uma pedalada até o Palácio Guanabara, sede do governo. No mesmo dia, as equipes esportivas que treinam na região também organizam uma marcha em repúdio ao terror. Vestidos de preto, os integrantes se concentrarão próximo ao Caiçaras, às 7h30. No domingo (24), o Movimento Eu Quero Segurança na Ciclovia da Lagoa Rodrigo de Freitas Já promove a Grande Passeata contra a Violência para pedir paz. É o que todos nós queremos.

Mensagem de Clara Glod, filha da vítima
(Foto: Reprodução/Facebook)

 

Fonte: VEJA RIO