COTIDIANO

Motim no cinco-estrelas

Guerra de liminares, reviravoltas e insultos em assembleia marcam a troca de bandeira no hotel Sheraton da Barra

Por: Felipe Carneiro - Atualizado em

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(Foto: Veja Rio)

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O hotel Sheraton da Barra teve na última segunda (23) uma noite de barraco nada condizente com seu status estelar. Uma assembleia convocada para destituir a síndica Patrícia Drumond do empreendimento, que abrange uma torre residencial com 316 apartamentos e outra hoteleira com 292 unidades, só pôde ter início depois da intervenção de quatro policiais e um delegado. As altercações deram o tom do encontro. Mais de dez advogados de algumas das bancas mais prestigiosas da cidade brandiam suas liminares, que suspendiam a reunião ou derrubavam essa decisão. Sobrou até para um cinegrafista contratado por uma das partes, que foi expulso do auditório por um grupo de condôminos exaltados, avesso a registros para a posteridade. Moradora do prédio, a atriz Luiza Tomé gritava contra a síndica um naipe de ofensas: "estelionatária", "bandida", "incompetente". No meio da barafunda, uma caixa com 180 procurações em nome de Patrícia desapareceu. Dessa forma, o começo da deliberação sofreu atraso de mais de duas horas. Acusações de fraude, falsidade ideológica e enriquecimento ilícito foram apresentadas em um telão, e Patrícia recebeu vaias e insultos ao argumentar em sua defesa. "Estão tentando dar um golpe com acusações falaciosas e sem provas, mas a Justiça vai se pronunciar e dizer quem tem razão", afirma Patrícia, que é ex-procuradora do Estado. "Ela fez o que quis por oito anos porque ninguém gosta de ir a reunião de condomínio, mas os dias de abuso acabaram", rebate Renato Beneduzi, advogado do grupo de oposição.

Toda a confusão tem origem em uma negociação delicada, que começou no primeiro semestre e envolve uma série de interesses. No dia 31 de dezembro expira o contrato de dez anos do complexo com o Sheraton, e o descontentamento com a administração do imóvel é generalizado. Os investidores do hotel reclamam da baixa rentabilidade do negócio, enquanto os moradores do residencial, por sua vez, desancam o serviço que recebem em troca de uma taxa de condomínio estratosférica, que chegar a custar 5?000 reais por unidade. Sete redes hoteleiras apresentaram propostas para assumir o privilegiado endereço no Posto 4 da Barra, e o grupo Radisson acabou escolhido pela maioria. Com base na decisão, Patrícia, na condição de síndica, assinou um acordo de dez anos com a rede americana. Insatisfeito com o que chama de perda de prestígio, já que o Radisson não ostenta cinco estrelas, um grupo de moradores decidiu iniciar uma campanha para anular o contrato. O primeiro passo foi recorrer à Justiça para tornar sem validade a assembleia decisiva, o que deu a partida a uma série de ações nos tribunais. Como o tempo está se esgotando, começou uma segunda frente para derrubar a síndica, tirando assim sua legitimidade. Acusada de gastar cerca de 50?000 reais com restaurantes e táxis, ela se defende mostrando que as notas das despesas não levam sua assinatura. Conta, inclusive, que já registrou três boletins de ocorrência por calúnia. Ante as acusações de sonegação de prestação de contas, Patrícia diz que a resposta cabe à Starwood, empresa que administra a bandeira Sheraton. Procurada, a companhia nega que tenha realizado qualquer ação imprópria e diz que informações sobre prestação de contas são assuntos internos. "O Radisson foi escolhido legitimamente, mas a síndica deveria ter apresentado o contrato pronto para avaliação geral antes de assiná-lo", afirma a economista Cristina Conti, integrante do conselho fiscal. "O problema é a forma autoritária como o acordo foi feito."

Como se vê, a história está longe de um desfecho. Ficam em suspenso o contrato com o Radisson e a situação de Patrícia, que acabou destituída na assembleia de segunda-feria passada, mas contesta a legalidade do processo. Há ainda mais de quinze ações correndo nos tribunais. Como se nada estivesse acontecendo, a nova bandeira já aceita reservas para o ano que vem e promete investir 10 milhões de reais em reformas nos dois prédios, que incluiriam a melhora dos terraços e do deque no térreo, hoje subaproveitados. Por seu lado, a Starwood trabalha com a previsão de deixar o prédio no último dia do ano. Em tempos de escassez de endereços, a cidade que vai receber uma leva de turistas em breve não pode abrir mão de um de seus hotéis mais grandiosos.

Fonte: VEJA RIO