COPA NO RIO

A farra da bola

Um roteiro com os lugares onde os cariocas e turistas que não irão ao Maracanã poderão assistir aos jogos e comemorar os resultados das partidas em meio a festas, shows e bailes

Por: Felipe Carneiro - Atualizado em

Felipe Fittipaldi
(Foto: Redação Veja rio)

Quem já experimentou sabe. Ir ao estádio assistir a um jogo de Copa do Mundo é uma emoção indescritível. Ainda mais se isso acontecer na nossa cidade. O problema é que, mesmo com a melhor parte da festa ocorrendo no próprio quintal, a maioria dos cariocas não terá a menor chance de ver uma partida no Maracanã. Isso não significa que a solução é torcer no sofá, longe da farra e do povaréu vibrando a cada lance. Na Praia de Copacabana, na semana passada, um grupo de operários montava uma gigantesca estrutura metálica cercada por uma parafernália de equipamentos, tendas e instalações provisórias em plena areia. Uma vez concluído, o cercadão terá uma área equivalente a seis campos de futebol e sediará a Fan Fest, o fervo dos sem-ingresso, organizada pela Fifa e pela prefeitura. A proposta é juntar pelo menos 20?000 pessoas à frente do poderoso telão de 133 metros quadrados colocado no local e complementar o programa futebolístico com shows de Anitta, Suvaco de Cristo, Arlindo Cruz e Fogo e Paixão. "Já toquei durante a Copa do Mundo em vários países. Mas é claro que cantar no Rio de Janeiro, minha casa, com a possibilidade de o Brasil ser campeão aqui, tem uma energia completamente diferente. Vai ser demais", vibra o sambista Dudu Nobre, que se apresentará na praia e em outras festas, como a do Parque da Bola, no Jockey, para os que ficaram de fora do Maracanã.

As transmissões de jogos para multidões são encaradas como uma novidade extremamente promissora pela Fifa ? seja em popularidade, seja em capacidade de arrecadação com venda de comida, bebida, produtos licenciados e cotas para patrocinadores. As primeiras Fan Fests foram planejadas durante a Copa da Alemanha, em 2006, com o objetivo de entreter as hordas de torcedores que chegavam às sedes sem entradas para os jogos. Foi um sucesso. O modelo acabou repetido na África do Sul, em 2010, e envolveu outras sete cidades, entre elas o Rio. Para os cariocas, tirando a grife internacional e o ambiente de show de rock, a muvuca pré e pós-jogos nem é tão original assim. Desde 1982, por exemplo, uma multidão se reúne religiosamente a cada partida do Brasil na Rua Alzira Brandão, na Tijuca, e se esbalda em batucadas e shows de sambistas. No último Mundial, o Alzirão, como o lugar é chamado, recebeu 30?000 torcedores por dia ? Romário e Neymar entre eles. Neste ano, o funkeiro Naldo e a Bateria da Unidos da Tijuca estarão entre as atrações. Para quem se aventurar por lá, um aviso: o evento é concorridíssimo e já atingiu o limite de participantes, simplesmente porque não há mais espaço. Recentemente, a festa ganhou notoriedade extra ao virar alvo da Fifa, que queria cobrar taxa de 28?000 reais dos organizadores por promoverem uma atividade associada à marca do Mundial. A grita foi imensa. Acuados, os cartolas estrangeiros cederam. "Nossa festa é popular, não tem nada de comercial. E aqui a gente sabe comemorar como ninguém", resume sem nenhuma modéstia Ricardo Ferreira, fundador e presidente do Alzirão.

A megafesta na Tijuca é o símbolo máximo de uma tradição carioca: transformar a cidade em um bastião de brasilidade a cada Campeonato Mundial. As ruas são pintadas de verde e amarelo (o.k., neste ano não com a mesma empolgação, mas espere a bola rolar). Redutos boêmios, como o Baixo Gávea, o bar Clipper, o Buxixo e Baixo Meier, ganham vida ainda com o sol a pino, e o clima de feriado fora de época acaba por atrair mais gente para esses pontos do que as noites de verão mais bombadas. O hábito é antigo, vem desde o tempo em que a maior parte dos telespectadores era de "televizinhos", pois apenas uma minoria tinha televisor em casa. A atual superpopulação de telões domésticos, no entanto, não diminuiu o entusiasmo com que o carioca vai para a rua torcer. "O paulistano, por exemplo, prefere ver os jogos em casa e só em caso de vitória ir para a rua comemorar. Para o carioca, assistir à partida já é uma festa, dos bairros mais abastados aos mais pobres, mesmo que no meio de um monte de desconhecidos", diz Bernardo Conde, professor de antropologia da PUC-Rio.

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Torcedores que buscam um estilo de celebração diferente e se dispõem a desembolsar até 440 reais para festejar contarão com opções capazes de satisfazer todos os gostos e faixas etárias nas próximas quatro semanas. A mais eclética e grandiosa é o Parque da Bola, um espaço de 20?000 metros quadrados instalado no Jockey Club. Ali, as crianças poderão se divertir em brinquedos e atrações como uma roda-gigante com vista para a Lagoa e o Cristo. No palco, o mestre de bateria Negão da Serrinha receberá convidados todos os dias durante o período da Copa ? o polivalente Dudu Nobre cantará ali, assim como Mart?nália e outros sambistas. A estrutura terá ainda uma área de alimentação, com destaque para o Bar da Bud e filiais dos restaurantes Venga!, Vezpa, Benassi, Besi, Let?s Sushi e Gonzalo. À noite, abrem-se as portas do Village, espaço que junta pista a céu aberto e uma tenda inflável trazida da Inglaterra, onde quatro projetores preparam a ambientação das festas Esbórnia, Baile do Zeh Pretim e Tempos Modernos. Localizados em cenários paradisíacos, os concorrentes Lagoon e Morro da Urca prometem usar o trunfo da geografia para seduzir torcedores com festas ao pôr do sol. "Vai ser uma maratona, mas estou confiante em que o Brasil vai jogar um bolão e facilitar meu trabalho de agitar a galera e de mostrar para o turista como nossa alegria é contagiante", prevê o ator e cantor Sergio Loroza, escalado para animar os palcos do Jockey e da Urca.

Se não pode contar com a vista deslumbrante a seu favor, o bairro mais pulsante da noite carioca, a Lapa, usará de outros artifícios para atrair o público: a tradição na farra futebolística. Em 1986, o Circo Voador foi parar em Guadalajara como parte da caravana de artistas que exibiu uma amostra da cultura brasileira durante a Copa no México. Agora, com a bola rolando aqui, a lona se abrirá para as transmissões dos jogos da seleção e as atividades pré-partida, como um campeonato de altinho para esquentar a torcida. Se tudo der certo nas quatro linhas, as bandas Hamilton de Holanda e Orquestra, Orquestra Voadora e Abayomy Afrobeat Orquestra tomam o palco para dar a trilha sonora da caminhada brasileira rumo ao hexa. Paralelamente, o espaço exibirá uma exposição dos artistas Vagner Donasc, Vinicius Malvão e Pedro Brêtas com o tema mulheres no esporte. "O futebol é parte importantíssima da nossa cultura, e é com cultura que vamos dar nossa contribuição para o Rio nesses trinta dias", conta Gaby Juçá, idealizadora do evento.

ANTONIO TEIXEIRA
(Foto: Redação Veja rio)

Por toda a cidade, bares, restaurantes e churrascarias que tradicionalmente se enfeitam e preparam cardápios para a Copa já estão a postos para o torneio. Da mesma forma, ruas começam a ganhar adereços especiais para a festa. E, em meio à onda verde e amarela, até mesmo os enclaves inimigos exibem de forma desinibida suas próprias cores nacionais, apostando no clima de confraternização e na alegria do futebol. No Cantinho das Concertinas, no Cadeg, os lus­o-cariocas já têm quase tudo pronto para a adoração de Cristiano Ronaldo. Da mesma forma, na Casa de España, hispan­o-fluminenses que ousam torcer por Xavi e Iniesta poderão celebrar seus ídolos sem se constranger. Na Lagoa, o bar Palaphita Kitch fez uma aposta inusitada. Ali, instalou-se uma representação da Suíça para o caso de aparecer algum fanático pelo meia Xherdan Shaqiri, estrela da seleção helvética que joga no Bayern de Munique. Quem se arriscar encontrará queijo, chocolate e até nevasca artificial em uma cápsula instalada no jardim. A Rússia, anfitriã da Copa de 2018, quer provar que também é craque em festas e montará a sua no Espaço MAM, com chefs, DJs, drinques e até modelos da terra de Putin. "Nosso objetivo é mostrar que nosso país é um ótimo lugar para se divertir. Queremos gente do mundo inteiro aqui", diz Euan Kay, diretor de marketing do evento. Seja com vodca, cerveja ou caipirinha, o que vale é a animação.

Fonte: VEJA RIO