COTIDIANO

Uma dinastia em crise

A intervenção federal no Banco Cruzeiro do Sul pode causar um prejuízo de 55 milhões de reais a um dos mais tradicionais clãs cariocas, que já enfrentava dificuldades nos negócios e disputas entre seus membros

Por: Bruno Chateaubriand e Felipe Carneiro - Atualizado em

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(Foto: Redação Veja rio)

Frequentadores contumazes do Country, do Jockey Club e dos leilões de cavalos mais concorridos do Rio, os membros da família Peixoto de Castro Palhares - na foto maior, reunida em 1958 - andavam meio sumidos. A última vez que o nome de quatro costados circulou pela alta-roda foi há três anos, quando um dos membros da quarta geração, Kim, protagonizou um ribombante processo de separação da socialite e estilista Lu Peres. Agora, os holofotes estão de volta. A recente intervenção federal no Banco Cruzeiro do Sul pode provocar um rombo de aproximadamente 55 milhões de reais no patrimônio do clã. Em dezembro do ano passado, eles venderam sua instituição financeira, o Prosper, que já não ia lá muito bem, para o encrencado banco pertencente a Octavio Indio da Costa. Agora, o Banco Central pode cancelar toda a transação. Se isso acontecer, a família terá de devolver o dinheiro envolvido na operação. "Eles acharam que haviam se livrado de um problema, mas acabaram arranjando outro", diz um técnico do BC que acompanha o caso.

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Dona de uma fortuna estimada em 700 milhões de reais (e de dívidas na casa de 250 milhões), a linhagem Peixoto de Castro Palhares floresceu na Tijuca a partir de meados do século passado. Foi na Zona Norte, em um suntuoso palacete adornado de tapeçarias raras, obras de arte e muita madeira entalhada que Antonio Joaquim Peixoto de Castro Júnior, um advogado com notável talento para fazer negócios e cultivar amigos poderosos, iniciou seu império. Da mansão na Rua Santa Amélia, os herdeiros se espalharam por bairros mais nobres como o Alto Gávea e o Leblon. Ali, raízes foram firmemente plantadas no Jardim Pernambuco, onde dois netos do patriarca, Antonio Joaquim, de 72 anos, e Paulo Cesar, de 66, mantêm seus casarões na Avenida Visconde de Albuquerque, e na orla, onde sua única filha, Maria Cândida, vivia em um amplo apartamento na Avenida Delfim Moreira até morrer, aos 97 anos, em 2010. A família é dona ainda do espetacular Haras Mondesir (uma corruptela de "meu desejo", em francês) com fazendas na região serrana, no interior de São Paulo e em Bagé, no Rio Grande do Sul. Todo esse patrimônio é irrigado pelo Grupo Peixoto de Castro (GPC), com ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo e participações em cinco empresas, de fábricas de aço a produtos químicos. No entanto, apesar da opulência, a estirpe perdeu o viço de outrora, quando rivalizava com potentados da aristocracia carioca como os Monteiro de Carvalho e os Moreira Salles. "Eles não recebem mais e também não aparecem nas festas", informa Lourdes Catão, organizadora do livro Sociedade Brasileira, no qual constam os contatos de dez Peixoto de Castro Palhares.

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(Foto: Redação Veja rio)

Não é preciso estar muito familiarizado com conceitos de contabilidade ou finanças para entender as razões da apatia para a vida social. Nos últimos doze meses, o valor das ações da GPC Participações, empresa que controla todo o grupo, caiu de 1,16 real para 30 centavos, uma desvalorização de 78%. Tal solavanco é um reflexo direto do processo de desmanche que vem sendo conduzido nas companhias deixadas pelo patriarca. Há quatro anos, os Peixoto de Castro Palhares se desfizeram definitivamente da joia mais vistosa de seu antigo tesouro, a Refinaria de Manguinhos, uma das únicas processadoras privadas de petróleo do país. Na ocasião, eles venderam a metade que ainda tinham na empresa (a outra parte já havia sido negociada em 1997) pela quantia de 76,5 milhões de reais. Desse valor, apenas um décimo entrou no bolso dos vários herdeiros. Todo o resto foi usado para pagar dívidas. O banco repassado ao Cruzeiro do Sul entre os feriados de Natal e de Ano-Novo foi outro exemplo de anel sacrificado. Ele acumulava perdas e amea­çava abrir nova sangria nos cofres do conglomerado (o que ainda pode acontecer). O prejuízo total batia em 200 milhões de reais e a instituição financeira já não conseguia operar por falta de dinheiro. "Era um caso típico de má administração", afirma o especialista do Banco Central. Na transação com Indio da Costa, a família ficou com 10 milhões de reais e repassou os outros 45 milhões para cobrir débitos. Como a venda ainda não tinha sido homologada até a intervenção, há o risco de ser cancelada. Nesse caso, os Peixoto de Castro Palhares terão de devolver o valor integral aos cofres do Cruzeiro do Sul.

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(Foto: Redação Veja rio)

Como toda dinastia detentora de uma grande fortuna, os Peixoto de Castro Palhares habitam um universo bastante peculiar, onde o dinheiro farto convive com pitadas de extravagâncias. Por décadas, eles viveram reunidos na mansão tijucana, uma propriedade que pertenceu ao bisavô materno, João Antonio de Almeida Gonzaga, barão de São Francisco de Paula. Ali o patriarca não permitia que a filha ou as quatro netas fumassem, tampouco dirigissem automóveis. A maior "transgressão" feminina era o uso de calças compridas para ir à missa aos domingos. Na época, o programa favorito consistia em ir ao Jockey para acompanhar as corridas de cavalos. O clã acomodava-se no Rolls-Royce preto, ano 1953, e rumava para as pistas na Gávea. Outra diversão era a viagem até o haras localizado na cidade de Lorena, no lado paulista do Vale do Paraíba. Mesmo depois da migração em massa dos herdeiros para a Zona Sul, a família continuou a viver sob as rédeas curtas do patriarca até sua morte, em 1979. Como nota dissonante em um ambiente tão austero, os Peixoto de Castro Palhares sempre demonstraram um curioso senso de humor na hora de distribuir apelidos entre a ala masculina. Antônio Joaquim, casado com a socialite Solange e antigo comandante dos negócios, é conhecido como Totão. Heitor, que foi campeão carioca de automobilismo em 1969, é o Urubu. Paulo César, vizinho do irmão no Jardim Pernambuco, é o Poleca. E João Carlos, o caçula, o Capeta.

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(Foto: Redação Veja rio)

Raros são os casos em que o crescimento do poder econômico de uma família consegue sustentar o aumento no número de herdeiros por sucessivas gerações. A menos que haja salvaguardas especiais a esse desequilíbrio, é inevitável que a fortuna amealhada acabe pulverizada com o passar do tempo. Nem mesmo impérios colossais como o erguido pelo conde Francisco Matarazzo em São Paulo na primeira metade do século XX e que, hoje, equivaleria a cerca de 20 bilhões de dólares resistiram ao processo de multiplicação de descendentes - e consequente divisão do bolo amealhado -, somado a más gestões. O início dos problemas costuma coincidir com a morte do patriarca ou da figura que ainda dá um sentido de unidade aos membros da dinastia. Enquanto Nina Peixoto de Castro Palhares viveu, eles se mantiveram relativamente coesos. Com sua morte, o desmanche do patrimônio começou. O apartamento da orla e propriedades em Petrópolis foram vendidos e os herdeiros articulam agora a realização de um grande leilão de obras de arte, que será conduzido pela marchande Soraia Cals, a mesma que coordenou os pregões que envolviam peças pertencentes a Lily Marinho, Astridinha Monteiro de Carvalho e Carmen Mayrink Veiga. "Depois que dona Nina se foi, os herdeiros não veem mais razão para manter os objetos e propriedades", conta Soraia. Mais de 1?000 itens já foram fotografados e passam por avaliação. A extensa lista inclui desde o Rolls-Royce (um modelo idêntico ao usado na posse do presidente da República e avaliado em, no mínimo, 200?000 reais) até uma reluzente medalha que pertenceu a dom Pedro II, cravejada de brilhantes e um rubi. "É uma peça histórica de valor incalculável", diz a marchande.

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(Foto: Redação Veja rio)

Apesar de estar sendo preparado há mais de um ano, o pregão de luxo não tem data para acontecer. Isso porque a neta Ana Beatriz Peixoto Chagastelles, incluída como legatária no testamento pela própria avó, questiona a lisura dos procedimentos adotados na partilha pelos tios e até pela própria mãe, Gilda Maria Palhares. Ana Beatriz morou com dona Nina durante a infância e insiste em dizer que os parentes querem vender alguns legados prometidos a ela. "Fui voto vencido em relação ao leilão, mas vou brigar até o fim. Até concordo em vender o Rolls-Royce. Só não abro mão de três peças que ganhei de presente da minha avó", afirma. O inventariante, e também herdeiro, Luiz Fernando Pinto Palhares garante que a família já chegou a um denominador comum. "Todos concordamos em separar o que é de interesse sentimental dos familiares. Agora só precisamos aguardar a Secretaria da Fazenda determinar o valor dos impostos para realizar o leilão e seguir com nossa vida", explica. Mas, pelo visto, com cada um para seu lado e, de preferência, sem chamar muita atenção.

Fonte: VEJA RIO