COTIDIANO

Cobaia de uma dieta furada

Personal trainer que tinha barriga de tanque come produtos ditos saudáveis por dois meses e fica ?fora de forma?

Por: Lais Botelho

Arquivo pessoal (esq.) e Tomás Rangel (dir.)
(Foto: Redação Veja rio)

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(Foto: Redação Veja rio)
Em 2004, o cineasta americano Morgan Spurlock filmou o autodesafio de comer somente fa­s­t-food por trinta dias seguidos. Resultado: engordou 12 quilos, e deu no divertido (e ao mesmo tempo melancólico) documentário Super Size Me. De modo semelhante, a personal trainer Maíra Tavares, de 31 anos, moradora de Laranjeiras, também se doou a um experimento alimentar, no caso sendo bisbilhotada por 40?000 curiosos no Instagram. Entre os dias 18 de março e 19 do mês passado, ela consumiu apenas produtos que se apresentam como saudáveis, exibindo no rótulo as expressões "light", "diet", "fonte de fibras" e "enriquecido de minerais". Pois bem. Maíra, antes com shape de atleta de fisiculturismo, inchou e está com princípio de celulite no bumbum.

Ficou, digamos assim, molinha. Continua com um corpo escultural ? mas não para seus próprios padrões. "Estou com o abdômen dilatado e ganhei indesejáveis pneuzinhos", ela diz. O nutriendocrinologista Victor Sorrentino, que acompanhou Maíra ao longo do inusitado programa, revela dados menos subjetivos: "Houve um impressionante aumento de 100% no nível de triglicérides, e o colesterol também foi afetado". Por sua vez, Raíssa Fernandes, nutricionista da mulher-cobaia, revela outra suposta derrota: "O porcentual de gordura subiu de 13,9% para 20,5%". Nada tão grave, diga-se de passagem ? tabelas usadas pelos profissionais de saúde apontam que o nível ideal se encontra na faixa de 18% a 23%. Aliás, pormenores estéticos não eram mesmo o propósito final. Em questão estava a saúde. E, nesse quesito, quase a coisa desanda. "Em relação à glicose, a grande preocupação é que seu nível dobrou em apenas dois meses. Seguindo essa proporção, em mais dois meses Maíra estaria com níveis inadequados, fora da curva de normalidade", arremata Sorrentino.

Durante o período do projeto, ela deixou de lado a dieta balanceada que manteve no ano passado, com alimentos naturais, como frutas, quinoa e muito grão-de-bico. Por oito semanas ingeriu apenas produtos industrializados, a exemplo de gelatina diet, sucos à base de soja, pão integral e barras de cereais. E é aqui que esta incrível história, da personal trainer que expôs seu corpo diariamente na internet, resvala em outra discussão: a validade de comprar comidinhas que se gabam de ser limpas, saudáveis, não engordativas. "A publicidade costuma esconder o que esses alimentos de fato são", analisa Maíra. Saborosos, e alardeando poucas calorias e gorduras, eles passam a ideia do prazer sem culpa, mas acabam vendendo mais promessas do que resultados. "A lei brasileira tem brechas que podem induzir o consumidor a erro", diz o endocrinologista Fabiano Serfaty. Ele afirma que, para que não perca o sabor, um produto "light" contém até 20% mais açúcares que seus equivalentes, não evitando, portanto, o aumento de peso e constituindo um perigo para diabéticos desavisados.

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(Foto: Veja Rio)

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Diferentes nomenclaturas usadas para designar o mesmo ingrediente também confundem os fãs de lights, diets e afins. É o caso do próprio açúcar. Com variados disfarces, a exemplo de "xarope de glicose", "maltodextrina" e do misterioso "açúcar invertido", o componente vilão é figura fácil em versões magras de doces e biscoitos. Para Frederico Tavares, professor de marketing na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a falta de informação sobre o que é light, diet ou zero é uma "porta aberta para a criatividade, por vezes nociva, da indústria". Cores, formato atraente e até a tipologia da letra da embalagem formam o pacote-sedução, que transforma o produto em status social. "Você é o que compra", reforça Tavares, expandindo o conhecido "você é o que come". Já de volta à antiga rotina alimentar, Maíra, a esta altura com um baita conhecimento de causa, é quem reforça a tese: "Não podemos ser alienados. Não se deve julgar o livro pela capa nem o produto apenas pelo rótulo".

Saiba mais no blog do endocrinologista Fabiano Serfaty

Fonte: VEJA RIO