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Construção de novo Elevado tem operários com treinamento de alpinismo

A atual fase das obras do novo Elevado do Joá e da ciclovia da Avenida Niemeyer recruta trabalhadores especializados em escaladas de estruturas industriais

Por: Ernesto Neves - Atualizado em

Felipe-Fittipaldi
Funcionários na encosta da Avenida Niemeyer, junto à futura ciclovia: medição da pressão arterial e checagem de equipamentos (Foto: Felipe Fittipaldi)

Traço inconfundível da paisagem carioca, os morros que cortam a cidade de ponta a ponta também impõem obstáculos à ocupação desde os tempos da colônia. Para expandir a cidade foi preciso perfurar maciços, pôr montanhas inteiras abaixo e construir prédios e casas à beira de encostas. A cada desafio imposto, sucessivas levas de operários passam a desenvolver habilidades muito específicas e até inusitadas. No atual pacote de obras em andamento para ampliar a infraestrutura viária até a Olimpíada, um contingente de quase 1 000 funcionários teve de se adaptar às duras condições do terreno para erguer o novo Elevado do Joá, assim como a ciclovia que vai contornar a Avenida Niemeyer, ligando o Leblon a São Conrado. Somente no Joá são 960 pessoas trabalhando espremidas entre o costão rochoso da Pedra da Gávea e o mar bravio.

Ali, qualquer descuido pode ter resultado fatal, já que 90% das intervenções acontecem a uma boa distância do chão firme. O projeto entra agora em sua etapa mais complexa, quando os operários preenchem com concreto a estrutura metálica que dá sustentação ao futuro pilar. Nessa fase, qualquer tarefa ganha ares de esporte radical. Amparados por ganchos e reclinados em ângulos capazes de provocar vertigem, os trabalhadores realizam serviços a uma altura equivalente à de um prédio de sete andares. “A utilização de técnicas como o rapel e o montanhismo permitiu a eliminação de andaimes, que representa um ganho não só no custo, como no tempo”, diz Márcio Machado, presidente da Geo-Rio, órgão municipal responsável por empreender e acompanhar construções em encostas.

A rotina de trabalho em solo de topografia tão irregular exige cuidados especiais. Antes de iniciar a jornada, é preciso medir a pressão arterial dos operários para saber se eles estão aptos a enfrentar a altura. Também são checados os sistemas de cordas e roldanas usados para mantê-los em movimento. Cada intervenção tem suas peculiaridades. No Joá, onde a obra em construção supera os 20 metros, a tarefa é feita com homens seguros por dois ganchos. Cada peça é capaz de suportar até 2 300 quilos. Já no Costão da Niemeyer eles ficam por baixo da avenida, valendo-se de técnicas de montanhismo para movimentar-se pelo costão rochoso. Nos dois locais é preciso erguer e fazer a manutenção de barreiras para conter deslizamentos e deslocamento de pedras.

Carlos Alberto da Silva
O técnico Carlos Alberto da Silva: escalada do Cristo no currículo (Foto: Felipe Fittipaldi)

Os homens são funcionários terceirizados de empresas voltadas para o chamado alpinismo industrial, contratadas por empreiteiras toda vez que uma construção exige esse tipo de solução. Para aprender tais técnicas, os operários das alturas têm ainda de realizar curso específico, com carga horária mínima de 40 horas. “Existe um perigo constante de quedas e contusões, que podem ser provocadas por uma simples fadiga”, diz Carlos Alberto da Silva, técnico de segurança e responsável pela supervisão do canteiro do Joá. Com prática de mais de 3 000 horas de rapel, ele faz parte de uma categoria mais experiente, chamada N3, capaz de realizar tarefas a mais de 400 metros de altura. Em seu currículo está, entre outras obras, a manutenção do Cristo Redentor. “O risco de que algo dê errado é tão alto que aprendemos, desde cedo, a supervisionar o equipamento um do outro”, conta.

Com cerca de 4 quilômetros de comprimento e 2,5 metros de largura, a ciclovia da Avenida Niemeyer deve ser concluída até dezembro deste ano. Calcula-se que sejam beneficiadas, pelo menos, 70 000 pessoas que vivem em seu entorno. Orçado em 457,9 milhões de reais, o novo Elevado do Joá, por sua vez, vai somar duas pistas paralelas ao antigo, com 5 quilômetros cada uma. A ampliação viária vai permitir ainda que seja implementada uma faixa para trânsito de bicicletas no viaduto já existente. Com 3,6 quilômetros de extensão, a via integrará as ciclovias da Barra e de São Conrado, e concluirá a sonhada conexão cicloviária entre o Centro e a Zona Oeste.

O novo elevado deverá estar pronto até a Olimpíada e incluirá dois novos túneis sob o maciço do Joá. Quando estiver em funcionamento, poderá aumentar a capacidade de tráfego em 35% e derrubar o tempo de travessia de vinte para cinco minutos. Por enquanto, o motorista que enfrenta o tormento diário entre a Barra e a Zona Sul tem pouco a comemorar, mas pode até se distrair vendo esses hábeis trabalhadores exercitando sua destreza pendurados nas estruturas, enquanto sonha com dias melhores.

Fonte: VEJA RIO