COTIDIANO

Salve o novo Alemão

Dois anos depois de ser liberado pelas forças de segurança, o complexo de favelas dá uma virada, atrai turistas e vira cenário de novela

Por: Caio Barretto Briso - Atualizado em

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(Foto: Redação Veja rio)

O ônibus manobra com dificuldade antes de estacionar. Embora o asfalto esteja tinindo de novo, a rua é estreita, o que exige certa destreza do motorista. Assim que a porta do veículo se abre, um grupo de cinquenta crianças com idade entre 8 e 12 anos desce ruidosamente. Em poucos minutos, estão todas acomodadas em confortáveis poltronas, diante de uma tela côncava de 10 metros de comprimento. Elas se divertem com os óculos especiais para projeções 3D enquanto ouvem o troar do som Dolby Digital que ressoa pela sala. As luzes se apagam, a animação Hotel Transilvânia toma a tela e a plateia se esbalda em meio a latas de refrigerante e sacos de pipoca. A cena descrita acima, corriqueira em qualquer bairro da cidade, aconteceu na última terça-feira (23), às 10 horas da manhã, no coração do Complexo do Alemão. Ali, na favela de Nova Brasília funciona o Cine Carioca, um dos símbolos da transformação no conglomerado de 90?000 habitantes e que até dezembro de 2010 era considerado um dos piores enclaves do tráfico na cidade. No cinema são exibidos em três sessões diárias, sete dias por semana, os mesmos lançamentos da Zona Sul, com ingressos a 4 reais. Para sexta (26), por exemplo, estava prevista a estreia de 007 ? Operação Skyfall, produção que prometia lotar todas as exibições da sala durante o fim de semana. "Muita gente que vem aqui nunca havia entrado em um cinema antes. É emocionante ver a alegria das pessoas, principalmente as crianças", diz o gerente do local, Wellington Cardoso, também morador da região.

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(Foto: Redação Veja rio)
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(Foto: Redação Veja rio)
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(Foto: Redação Veja rio)

A animação dos frequentadores do Cine Carioca se contrapõe a uma outra imagem do Alemão, esta com projeção internacional e bem viva na memória dos moradores da cidade. No dia 27 de novembro de 2010 (há dois anos cravados), quando policiais do Bope e blindados da Marinha invadiram o complexo, uma câmera instalada em um helicóptero flagrou um grupo de bandidos fugindo por uma estradinha de terra na Serra da Misericórdia. A debandada patética dos traficantes foi comemorada por todos os que acompanhavam a invasão pela TV. Desde então, a vasta área mudou muito. É praticamente impossível para quem chega ou sai da cidade pela Avenida Brasil ou Linha Vermelha não notar o conjunto de 85 torres que sustentam o teleférico inaugurado em julho do ano passado. Conectando cinco morros à estação ferroviária de Bonsucesso, o sistema de 3,4 quilômetros de extensão tem nos pontos de embarque e desembarque instalações culturais e de apoio à cidadania. Consagrado como um novo ícone carioca, o antigo refúgio de traficantes armados de fuzis acaba de se tornar cenário de Salve Jorge, a novela que desde segunda-feira (22) substitui Avenida Brasil no horário das 9 da noite. Na trama, os protagonistas Morena (a atriz Nanda Costa) e Theo (Rodrigo Lombardi) se conhecem e se apaixonam em plena ocupação ? ela é uma moradora do lugar e ele um oficial do Exército. "Resolvi ambientar a história no Alemão porque achei que era uma forma de contribuir para elevar a auto-estima de uma população que vivia subjugada a facções criminosas. Claro que a retomada é apenas o ponto de partida para que se escreva uma página nova, mas o primeiro passo foi dado", diz Glória Perez, a autora da novela.

Com quatro Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e 1?230 policiais patrulhando um território de 300 hectares, o Alemão vive um processo semelhante ao de outras favelas pacificadas da cidade, como Santa Marta e Cantagalo. A reboque da polícia vieram os investimentos em infraestrutura e a regularização de serviços antes clandestinos. A Light, por exemplo, trocou 2?000 postes e instalou 70 quilômetros de fiação elétrica, enquanto operadoras de TV por assinatura passaram a atender a cerca de 21?000 domicílios, ou o equivalente a 70% do total. Antes os moradores pagavam aos traficantes para ter acesso à chamada "gatonet". Ruas que concentram a atividade comercial, como a Joaquim de Queiroz, na favela da Grota, receberam agências bancárias, filiais de grandes redes de eletrodomésticos e drogarias. Ali também florescem novos negócios, como a Ótica Cutrim, de Genilda Silva, 44 anos. Moradora de Nova Brasília, ela vende em média cinquenta unidades por mês, que custam entre 30 e 500 reais. "Tenho até óculos do Pierre Cardin", deslumbra-se. Em meio ao ciclo virtuoso desencadeado pela nova realidade, as pessoas que viviam de trabalhos ocasionais não só conseguiram o tão sonhado emprego com carteira assinada como avançaram na carreira profissional. Alan Pereira de Souza, 26 anos, começou a atuar como ajudante de pedreiro nas obras de urbanização e do teleférico. Em seguida, promovido, deixou o canteiro de obras e tornou-se funcionário da área de recrutamento de operários para a construção do BRT Transoeste. Hoje integra a equipe do departamento de recursos humanos da reforma do Maracanã. "Por mais incrível que pareça, fiquei até emocionado quando fiz minha primeira declaração de imposto de renda. Eu me senti um cidadão de verdade", diz o rapaz, que vive com a mulher, Luana, e o filho Miguel na favela Alvorada.

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(Foto: Redação Veja rio)
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(Foto: Redação Veja rio)

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Assim como os morros da Zona Sul, o Complexo do Alemão virou um polo de atração para visitantes. Mas ali o churrasco na laje, os bailes funk e as feijoadas na casa das matriarcas dão espaço a outro tipo de programa. Lá, o que chama atenção mesmo é o passeio em uma das 153 gôndolas que cruzam os céus do complexo. "Nunca havia visto nada parecido com isso. É fascinante", diz o engenheiro Edwin Peucker, 28 anos, alemão de Nuremberg, que visitou o complexo no início da noite da última quarta-feira ao lado da amiga Elif Soylu, 19 anos, nascida em Istambul, na Turquia. "É a terceira vez que venho ao Rio e nunca senti a cidade tão segura quanto agora", compara ela. De certa forma, a configuração do teleférico permite um passeio tranquilo, pois o visitante pode chegar de táxi à primeira estação, em Bonsucesso, e, a partir desse local, embarcar no bondinho para a viagem de quinze minutos até a última parada, na Fazendinha. Se quiser, pode fazer o trajeto de volta sem sequer descer às favelas. Foi o que fizeram Peucker e Elif, assim como o príncipe Harry, da Inglaterra, em sua visita em março, e o ex-primeiro-ministro da França François Fillon, em dezembro passado. No entanto, há quem busque experiências mais autênticas. Em julho, um grupo de sessenta aficionados do aplicativo de compartilhamento de fotos Instagram passou cinco horas embrenhado nos becos e vielas clicando cenas e personagens da região. Viram crianças tocando violino no meio da rua e se admiraram da paisagem inusitada. "Eu me senti privilegiada por estar num lugar daquele sem o risco de levar um tiro", conta Golda Simone Goldstein, 44 anos, produtora que mora na Lagoa e nunca tinha ido ao complexo. "Mas também vimos muita gente que vive em condições sub-humanas."

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(Foto: Redação Veja rio)
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(Foto: Redação Veja rio)
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(Foto: Redação Veja rio)

Apesar dos avanços, o Alemão continua a ser um conglomerado de favelas, com desafios gigantescos pela frente. Metade dos moradores ainda não recebe correio em casa e pelo menos 500 famílias vivem em condições críticas, em áreas com valas a céu aberto ou em barracos de madeira onde nem sequer existe banheiro. Mesmo com a pacificação, o gigantismo de algumas áreas ajuda a camuflar bocas de fumo, onde traficantes seguem com seu comércio ilícito. Esporadicamente eclodem episódios de violência como a morte recente de uma policial recém-formada na UPP de Nova Brasília e a perseguição policial a um suspeito que deixou uma garota de 12 anos ferida a bala. "Entrar com a polícia é a parte mais fácil. A mais difícil vem depois com a consolidação do projeto. As melhorias estão acontecendo, mas precisamos ter mais pressa", diz o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame. A vantagem é que o ponto de partida já é melhor do que aquele de dois anos atrás.

Fonte: VEJA RIO