SUSTENTABILIDADE

Um choque necessário

Os cariocas desperdiçam um terço da eletricidade que consomem - hábito que, além de ruim, é caro

Por: Ernesto Neves - Atualizado em

Fio remendado, geladeira encostada na parede, ar-condicionado com filtro sujo. O panorama traçado pode ser encontrado com facilidade nos lares cariocas e, além de aumentar o risco de curto circuito e incêndios, contribui para um imenso desperdício na conta de luz. Segundo levantamento feito pela Light, os moradores do Rio poderiam reduzir sua despesa em pelo menos 35% se adotassem medidas simples no dia a dia. Com gasto per capita de eletricidade estimado em 180 quilowatts ao mês, cada morador da cidade desembolsa, em média, 90 reais com o fornecimento de energia, valor que cairia para 58 reais caso o desperdício fosse cortado. Se o excedente de todas residências fosse poupado durante um ano, o equivalente a 5?300 gigawatts/hora, seria possível abastecer todo o estado do Espírito Santo por doze meses. "Felizmente quase não usamos combustíveis fósseis, mas não existe nenhuma maneira de produzir eletricidade em grande escala sem impacto ambiental", diz Emerson Salvador, gerente da Divisão de Eficiência Energética da Eletrobrás.

Quente e abafado, o clima do Rio contribui diretamente para o alto consumo, causado pelo uso do ar-condicionado, hábito (e necessidade) de muitos cariocas e um grande vilão do gasto doméstico. O aparelho consome a mesma eletricidade que dez ventiladores de teto e, se ligado oito horas por dia durante um mês, o modelo de 7?500 BTUs eleva a conta em 120 reais. O gasto aumenta nos casos em que o aparelho é instalado em aberturas próximas do chão, expediente comum nos apartamentos da cidade. Como o ar frio é mais pesado que o quente, ele acaba se concentrando embaixo e mantém a sensação de calor. "As pessoas acham que basta abrir um buraco na parede e colocá-lo ali", explica o superintendente da Light Mario Romano. "Não é assim que funciona."

Entre as medidas mais eficazes para reduzir o consumo de energia, poucas têm tanto efeito quanto a escolha correta dos eletrodomésticos. Criado em 1993 pelo governo federal, o selo Procel instalado na parte de trás do aparelho mostra, com base em testes em laboratório, os mais econômicos. O produto tem sua performance avaliada através de letras que vão de A a G, sendo a última a dos que esbanjam mais (conforme mostra o quadro da página 24). "Uma máquina com o selo A consome, em média, 15% menos que as que apresentam qualificação inferior", atesta Emerson Salvador, da Eletrobrás. "Optar por um modelo certificado é ótimo para o bolso e para o meio ambiente, porque com isso a indústria é incentivada a fazer produtos cada vez mais eficientes", diz o engenheiro. A evolução na linha de geladeiras mostra como os fabricantes se adaptaram aos novos tempos. Versões lançadas há dez anos gastavam 35 reais por mês, enquanto as novas consomem um terço desse valor. Outro inimigo das finanças é o chuveiro elétrico. Quem permanece vinte minutos diariamente debaixo d?água gasta, mensalmente, 18 reais. Se fossem apenas dez minutos, o valor cairia para 8,75 reais. Atitudes simples poupam recursos preciosos e ainda aliviam o bolso.

INFORMAÇÃO PRECIOSA

Veja o que significa a etiqueta que vem presa ao fio dos eletrodomésticos

Perfil de consumo Identificado por letras de A a G, e com cores do verde ao vermelho, serve como padrão para comparar diferentes aparelhos. A é mais econômico e G, menos. Há ainda classificações complementares, como A+ e A++

Gasto de energia O número indica o consumo de quilowatts por hora. Multiplique-o por 52 centavos, e você verá quanto gastará no período em que ele ficar ligado

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Luz do sol e também do lixo

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(Foto: Redação Veja rio)

Uma casa totalmente sustentável e autossuficiente do ponto de vista energético. Essa é a promessa da construção que será exposta na Pontifícia Universidade Católica entre os dias 26 e 28. Com 70 metros quadrados, sua área equivale a um apartamento de dois quartos. A eletricidade desse pequeno prodígio tecnológico ficará a cargo de uma bateria de painéis solares e de biodigestores, câmaras que armazenam o lixo orgânico e transformam o gás metano resultante da decomposição dos rejeitos em energia. "No futuro, boa parte da geração ocorrerá na própria residência. Isso já acontece em países como a Alemanha", conta o professor Roosevelt Fideles, coordenador dos projetos de educação ambiental na PUC.

Item básico de conforto em uma cidade onde o termômetro chega aos 40 graus no verão, o ar-condicionado será substituído por uma rede de dutos sob as paredes, com saídas próximas ao teto, que renova e faz circular o ar de maneira uniforme por todos os cômodos. A temperatura agradável também será mantida através de um telhado coberto por vegetação, importante para isolar a casa dos raios solares. Debaixo da grama, recipientes recolherão a água da chuva, que será reaproveitada. Feita de madeira de reflorestamento, a casa verde da PUC é simples de construir e será alternativa a projetos de moradias de baixa renda. "Todas as tecnologias usadas estão no mercado. O problema é que custam muito caro para o consumidor", afirma Fideles. Confiante, ele sonha ver o dia em que milhares de chalés como o que ergueu no terreno da universidade na Gávea substituam os horrendos casebres das favelas.

Fonte: VEJA RIO