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Excesso de salas comerciais vazias provoca queda nos aluguéis

Com a expansão imobiliária dos últimos cinco anos seguida por uma retração do mercado, o número de salas comerciais vazias bate recorde

Por: Ernesto Neves - Atualizado em

Eduardo Machado
O investidor Eduardo Machado: seis lojas vazias na Avenida Abelardo Bueno (Foto: Gianne Carvalho)

Símbolos da retomada econômica que alavancou o Rio após décadas de estagnação, as torres comerciais multiplicaram-se pela cidade nos últimos cinco anos. Do Centro ao Recreio, foram lançadas no mercado 25 000 unidades, um salto impressionante de 350% se comparado ao período entre 2005 e 2009. No entanto, com a economia do país estagnada e à beira da recessão, o número de salas comerciais vazias alcançou um patamar recorde no Rio no fim do ano passado. Tanto que nos últimos doze meses a falta de interessados provocou um recuo de até 15% no valor médio dos aluguéis. A retração afetou de forma mais drástica aquelas regiões onde a expansão foi maior, como as avenidas Abelardo Bueno e Salvador Allende, na Barra.

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Após o esgotamento de terrenos disponíveis na Avenida das Américas, essas duas vias foram alçadas a estrelas do mercado, transformando-se em novos eixos de crescimento da cidade. Uma rápida caminhada na futura região olímpica, porém, mostra a quantidade de imóveis disponíveis. “Há um descompasso causado pela crescente oferta”, explica Leonardo Schneider, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Habitação (Secovi-Rio). “Não existe demanda para absorver tantas salas, o que é agravado pelo quadro de retração econômica”, conclui.Se há cinco anos comprar uma sala comercial se mostrava um negócio seguro, com lucro garantido pelo eufórico mercado imobiliário carioca, agora a farra começa a mostrar seu preço.

Salas comerciais
Para alugar: com a oferta abundante na Barra, valores caíram 10% (Foto: Gianne Carvalho)

Exemplos de compradores que estão sofrendo com a nova realidade não faltam. Dono de seis lojas na Avenida Abelardo Bueno, o empresário Eduardo Machado espera pela chegada de inquilinos há cerca de um ano. Para ele, a quebradeira provocada pela duplicação da via e a construção do Parque Olímpico também contribuíram para afastar os locatários dali. Outro problema é o receio de que a mobilidade urbana piore naquela área. “Há um medo muito grande de que o Rio trave em meio a tantos congestionamentos”, acredita Bueno, para quem o cenário só deve melhorar após a conclusão das obras olímpicas, principalmente o BRT. Os dois pontos que o médico Luiz Bandeira comprou na mesma região, um espaço de 70 metros quadrados com aluguel estipulado de 12 000 reais mensais, também estão vazios desde 2013. “No mesmo prédio há 200 salas, e grande parte delas continua sem nenhum interessado”, diz o investidor, que está arcando com os custos do condomínio sem muita expectativa de recuperar esse dinheiro a curto prazo. 

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O investidor Eduardo Machado: seis lojas vazias na Avenida Abelardo Bueno (Foto: Gianne Carvalho)

Como não se via fazia tempo, enfrentamos uma nova realidade no mercado imobiliário carioca. De acordo com os especialistas, a crise que teve início em 2014 deve perdurar até a Olimpíada. Na melhor das hipóteses, os valores dos aluguéis vão permanecer estagnados até lá. Mas, devido ao excesso de salas, o ambiente é propício para que os locatários negociem descontos agressivos. Também é necessário criar estratégias que atraiam a atenção de potenciais interessados diante de tantas ofertas. Se antes estavam disponíveis imóveis apenas com a estrutura básica, agora é comum que se faça o acabamento de itens como o piso e a iluminação, um custo adicional para os proprietários. “Quem possui imóvel vai ter de investir na estrutura ou flexibilizar a negociação”, decreta João Paulo Rio Tinto, presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobi­liário do Rio (Ademi).

Retraído, o mercado também deverá cortar investimentos em localidades pouco acessíveis e concentrar-se em bairros tradicionais da Zona Sul, onde o retorno do investimento é mais garantido. Já regiões como Vargem Grande e Itaboraí, que vinham sendo apontadas como as novas apostas, devem ver os lançamentos escassear, ao menos até a Olimpíada. 

Fonte: VEJA RIO