COTIDIANO

Delícias da favela

Bar do Tino, Bar do Omar, Bar do Alto e Glimário são os campeões do Comer & Beber da Paz 2014

Por: Fabio Codeço e Rafael Cavalieri

Desde a primeira edição, realizada em 2013, o Comer & Beber da Paz se propõe a ser, mais do que um concurso, uma vitrine para a boa notícia que vem das favelas: a multiplicação de atraentes negócios gastronômicos nessas regiões, parte vistosa do processo de implantação de Unidades de Polícia Pacificadora. Iniciado em 2008, o programa não é perfeito, claro, mas tem efeito positivo sobre a segurança e a autoestima de quem vive no Rio, além de revelar novas opções de lazer para cariocas e turistas. De volta às ruas, nosso júri de especialistas e chefs (confira os nomes na pág. 42) escolheu, para exibir na vitrine das páginas de VEJA RIO, quatro endereços imperdíveis. O Bar do Tino, no Morro dos Prazeres, foi consagrado no ano passado como a casa do melhor prato, da melhor vista e o primeiro grande campeão, o que o tornou hors-concours nessa última categoria. Agora, faturou o troféu de melhor ambiente, confirmando sua posição de destaque nos redutos de boa comida dos morros da cidade. Novo grande campeão, o Bar do Omar, no Morro do Pinto, ganhou ainda nas categorias melhor quitute (por um sensacional hambúrguer de picanha) e simpatia é quase amor (homenagem merecida ao sempre sorridente e atencioso proprietário Omar Monteiro). Os dois outros vencedores de 2014 são o Bar do Alto (melhor drinque), com sua vista incomparável no topo do Morro da Babilônia, no Leme, e o Glimário (alta gastronomia), ponto de ambiente simples e cardápio impecável na Rocinha. Vá se programando.

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(Foto: Redação Veja rio)
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Felipe Fittipaldi
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"Meu preto!" É assim, com o ponto de exclamação no tom de voz sempre festivo, que Omar Monteiro se dirige aos fregueses de seu bar no Morro do Pinto. Desde 2008, o ex-bancário cuida do espaço simples, com bela vista para a Zona Portuária, ao lado da mulher, Ana Helena, e dos filhos Omar Júnior e Mariana Machado. Por lá, o hambúrguer, cotado a peso de ouro nas melhores casas do ramo, custa módicos R$ 10,00 (uma porção de fritas custa mais R$ 5,00). Feito de picanha moída na casa, chega à mesa suculento, o interior rosado, com cebola, shoyu, mussarela e pão de casquinha torrada na chapa. Merece, portanto, o prêmio de melhor quitute nesta segunda edição do Comer & Beber da Paz. Omar reina entre a cozinha e a laje por onde se espalham as mesas: recebe os clientes ("Meu preto!") e puxa conversa de um jeito tão à vontade que o levou a abiscoitar também o autoexplicativo prêmio simpatia é quase amor. Dois troféus garantidos, o terceiro veio quase naturalmente: o Bar do Omar sagrou-se o grande campeão de 2014. "O pessoal sente o carinho, sabe que é uma casa de família. E é conversando que a gente consegue se aprimorar", resume o proprietário. Muitos papos descontraídos inspiraram novidades no cardápio, a exemplo do omarumaki de camarão (R$ 18,00, seis unidades), rolinho de recheio saboroso que faz o maior sucesso. A picanha suína aparece em duas apetitosas sugestões. No omaravilha (R$ 29,00), integra generosa porção, ao lado de linguiça de porco e queijo de coalho, além da guarnição de pão de alho. Depois de passar a noite marinando em temperos, é moída e vira hambúrguer, coberto de queijo brie, molho chimichurri e cebola caramelada. O preço? Apenas R$ 20,00, com batatas fritas. Podem completar o programa a cerveja Original estupidamente gelada (R$ 8,00, 600 mililitros) e o omaracujá, batida de fórmula secreta feita por lá (R$ 4,00). Quem já passou por lá costuma abrir um sorriso tão largo quanto o do simpático Omar Monteiro. Rua Sara, 114, Morro do Pinto, Santo Cristo, ☎ 2518-3881 (60 lugares). 10h/22h. C.d: todos.

COMO CHEGAR: da Avenida Francisco Bicalho, vire à direita antes da Rodoviária, siga pela Rua Santo Cristo e dobre na Rua Sara, a terceira à direita

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Selmy Yassuda
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No ano passado foram três vitórias: melhor prato, melhor vista e grande campeão, categoria na qual a casa tornou-se hors-concours. A família Alves Santana voltou a brilhar na segunda edição do Comer & Beber da Paz, desta vez premiada como o endereço de melhor ambiente. Muito da nova conquista deve-se à vista incrível, pontuada por cartões-postais como a Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor, e valorizada pela recente inauguração de um novo espaço na laje. Outro tanto vem da simpatia e da eficiência do paraibano Severino (o Tino) e de sua mulher Eleni, além dos filhos Leandro, Bruno e Adriano. Lá no alto do Morro dos Prazeres, duas churrasqueiras espalham um cheiro inebriante. Estrela local, o frango no bafo, completo, com arroz, feijão-tropeiro e batatas fritas, serve até três pessoas e custa R$ 40,00. Entre os chefs convidados por VEJA RIO para conhecer o lugar, Rafa Costa e Silva, do Lasai, não resistiu à pele da ave, crocante, tostada, temperada com ervas e cebola ? passou o almoço roubando pedacinhos do prato. Outros pedidos infalíveis são a costela completa (R$ 85,00, com a mesma guarnição, para quatro pessoas) e o mistão (R$ 120,00), proposta para grupos grandes, reunindo frango, costela suína, queijo de coalho, linguiça, carne de sol e nacos de aipim. Batidas de produção própria, em sabores como gengibre e jenipapo (R$ 3,00 cada uma), podem abrir os trabalhos. Para acompanhar, a dica é a cerveja Original (R$ 8,50). Rua Almirante Alexandrino, 3780, casa 7, ☎ 2225-5780 e 99211-5862 (30 lugares). 11h/18h (apenas sáb. e dom.). Cd: todos.

COMO CHEGAR: Siga de carro até o Condomínio Equitativa, em Santa Teresa (acesso pela Rua Almirante Alexandrino, pouco antes do quartel do Corpo de Bombeiros). De lá, pegue a trilha asfaltada à direita da quadra até o Campão da Colina. O primeiro beco à esquerda dá na porta do bar

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Nascido e criado no Morro da Babilônia, no Leme, Rubens Zerbinato, 29 anos, vem trilhando promissora carreira. Aos 19, desceu a Ladeira Ary Barroso e conseguiu emprego no Galeria 1618, bistrô no bairro. Depois, passou por mais de uma dezena de casas prestigiadas na Zona Sul, a exemplo do Le Pré Catelan, estrelado reduto de comida francesa no Hotel Sofitel, do Bazzar Café e do Bar do Lado. No último endereço, onde trabalhou por dois anos, aprendeu com o barman Santiago Silva os segredos do preparo de drinques saborosos. Em seu próprio negócio desde dezembro do ano passado, Pituca, como é chamado pelos mais chegados, passou a por em prática as lições assimiladas. Um clássico do asfalto, o chop do alto mistura vodca com tangerina, sob espuma de mel e gengibre (R$ 19,00). Inquieto, Zerbinato também se dedica a inventar. Entre suas criações autorais figura o caipichop, caipirinha acrescida de essência de maçã-verde (R$ 19,00). Sugestão mais recente, a união de espumante com açaí e morango batidos (R$ 19,00) ganhou elogios de Alex Mesquita, mixologista do requintado Paris Bar, e contribuiu de forma definitiva para a conquista do prêmio de melhor drinque. Ele também se esmera na cozinha. À vista dos clientes, prepara receitas originais, como o harumaki de feijoada (R$ 19,00, quatro unidades), recém-chegado ao cardápio, e o já consagrado risoto de bobó de camarão (R$ 24,50). Drinques e petiscos deliciosos compensam a subida. No final da via íngreme que atravessa a favela ? aberta para carros, mas vagas por lá são uma raridade ?, 280 degraus de escada ainda aguardam o visitante. O fôlego restante da caminhada se perde diante da vista, estonteante, que enquadra as praias do Leme e de Copacabana, com as Ilhas Cagarras ao fundo. No lugar, antes conhecido como Laje do César, seu tio, Pituca preparava uma concorrida feijoada, para grupos fechados, embalada por rodas de samba. O sucesso da empreitada levou à abertura do Bar do Alto, que, em recente sábado chuvoso, atraiu cerca de 100 comensais. Rua São Jorge, casa 4, Leme, ☎ 98684-5517 e 2530-2506 (80 lugares). 12h/20h (fecha seg. e ter.). Cc: D, M e V. Cd: todos.

COMO CHEGAR: Suba a Ladeira Ary Barroso, de preferência de táxi ou mototáxi, a partir da Rua General Ribeiro da Costa. No final da via, pegue a última escadaria à esquerda, antes do Bar do Edmilson, e siga a marcação "BA" pintada nos degraus

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(Foto: Redação Veja rio)
Felipe Fittipaldi
(Foto: Redação Veja rio)

Seu currículo inclui passagens por prestigiadas casas de cozinha mediterrânea da cidade, como o extinto Grottamare, em Ipanema, e o Don Camillo, ainda na ativa na orla de Copacabana. Glimário José dos Santos é o mais experiente dos mestres-cucas reunidos nesta disputa. Não à toa, o pernambucano de 46 anos conquistou clientela, além dos jurados da segunda edição do "Comer & Beber da Paz", investindo apenas em seu talento diante do fogão. O estabelecimento onde trabalha tem ambiente espartano, desprovido de charme, maiores confortos e letreiro na porta. Como é comum nas favelas, o negócio é conhecido pelo nome do dono. Na casa em um beco, Glimário prepara pratos vistosos, e saborosos, de lagosta, polvo e carnes exóticas como javali. Seu cardápio impressionou os chefs convidados por VEJA RIO a visitá-lo, entre eles o italiano Paolo Lavezzini, comandante do Fasano Al Mare, reduto sofisticado de frente para a praia de Ipanema, e Ronaldo Canha, do Quadrucci, contemporâneo na badalada Rua Dias Ferreira, no Leblon. Os dois tiveram a oportunidade de provar o carro-chefe local: as costeletas de cordeiro grelhadas (R$ 30,00, para um; R$ 60,00, para dois) chegam no ponto exato, rosadas por dentro, na companhia de arroz de açafrão, além da batata corada repetida, entre elogios, por Lavezzini. "A carne é a mesma que eu uso", afirmou Canha. O prato foi o mais votado na categoria alta gastronomia, uma brincadeira com a expressão usada em restaurantes finos, criada para premiar receitas que não fariam feio em endereços cheios de pompa no asfalto. Desprovido de modéstia, o cozinheiro não hesita ao falar de suas qualidades e enumerar os lugares onde trabalhou. "Minha especialidade é tudo", diz. Em breve, ele avisa, abrirá um novo restaurante, mais confortável e arrumado, na parte mais movimentada da favela. Depois disso, quem vai segurar o Glimário? Travessa Gregório, 5,

☎ 7806-7075 (30 lugares). 10h/0h (fecha seg.).

COMO CHEGAR: Na Via Ápia, a principal da Rocinha, pergunte pela Praça da Roupa Suja, um pequeno largo. O restaurante fica à direita da pracinha, em um pequeno beco, e não há nenhuma indicação na fachada

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(Foto: Redação Veja rio)

Fonte: VEJA RIO