COTIDIANO

Mazelas à mostra

Sede de duas concorridas exposições de arte, o MAM convive com os mendigos, flanelinhas e assaltantes que se instalaram nas redondezas

Por: Rafael Teixeira - Atualizado em

Felipe Fittipaldi
(Foto: Redação Veja rio)

Desde a sua abertura, em 20 de março, a exposição do australiano Ron Mueck no Museu de Arte Moderna (MAM) tem atraído milhares de visitantes dispostos a admirar as impressionantes esculturas hiper-realistas do artista. Tal interesse foi reforçado com a inauguração, cinco dias depois, de uma mostra dedicada ao acervo de Sylvio Perlstein, brasileiro de origem belga considerado um dos mais importantes colecionadores do mundo. Para se ter uma ideia, só no último fim de semana foram mais de 13?000 visitantes dispostos a enfrentar filas que, nos horários mais concorridos, ultrapassavam uma hora de espera. Tamanho sucesso de público, entretanto, não esconde um problema antigo: a degradação do entorno do museu, tomado por moradores de rua, flanelinhas e, ocasionalmente, até assaltantes, que se aproveitam do policiamento deficiente para atacar aqueles que se aventuram em um passeio pelos jardins do Parque do Flamengo. "Infelizmente, são questões sérias, cuja solução não passa pela administração do museu. Trata-se de uma área pública", explica Carlos Alberto Gouvêa Chateaubriand, presidente do MAM. "Tentamos interceder da maneira que podemos, através dos nossos seguranças, e estamos em permanente contato com os órgãos encarregados. Mas, às vezes, bate aquela sensação de que estamos resolvendo agora um problema que vai voltar daqui a meia hora."

Felipe Fittipaldi
(Foto: Redação Veja rio)

Uma visita da equipe de VEJA RIO à instituição na sexta-feira da semana passada confirmou a deterioração de uma paisagem que, pelo notável projeto arquitetônico de Affonso Reidy (1909-1964) e pelo exuberante paisagismo de Roberto Burle Marx (1909-1994), aliados à notória beleza natural da baía, deveria ser uma das mais valorizadas da cidade. Sem serem perturbados, flanelinhas achacavam visitantes, exigindo 10 reais de quem quisesse parar o carro ? muitas vezes, orientando o estacionamento em local proibido. Em número ainda maior, mendigos praticamente acampavam nos arredores da sede. Alguns dormiam em camas improvisadas com papelão embaixo de árvores, aproveitando a sombra. Outros usavam baldes para lavar roupas, colocadas para secar em cima das grades do estacionamento do museu, como se fossem varais. Responsável pelo recolhimento de moradores de rua na cidade, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDS) confirma a presença de alcoólatras e usuários de drogas entre eles, o que dificulta tremendamente a abordagem. O órgão também informou que suas equipes monitoram diariamente o local e realizam operações em que tentam convencer os mendigos a sair dali, pois o encaminhamento para abrigos mantidos pela prefeitura não é compulsório. No entanto, a administração do MAM afirma que tal trabalho dificilmente acontece de forma espontânea e só ocorre quando a intervenção é solicitada. "É uma imagem que não se espera de um lugar tão visitado. Não dá para negar que a gente sente uma certa insegurança ao chegar", avalia a administradora de empresas Anita Venturini, 40 anos, que veio de Vitória, no Espírito Santo, com os filhos Laíse e João Vitor para conhecer a cidade.

Felipe Fittipaldi
(Foto: Redação Veja rio)

A experiência torna-se particularmente preocupante se o visitante chega ao museu de ônibus ou metrô. Devido à localização muito peculiar do MAM, entre uma via expressa e a Baía de Guanabara, quem utiliza o transporte público é obrigado a descer do lado oposto das pistas e cruzá-las por uma passarela invariavelmente erma. A passagem é um notório ponto de assaltos, embora haja, na descida da rampa, já próximo ao prédio, um trailer da Polícia Militar. Não há uma estatística específica para as ocorrências no entorno do museu, porém, de acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP), a 9ª DP, que atendia aquela região até o mês passado, registrou 121 roubos a transeuntes em sua área de atuação em janeiro ? no mesmo mês do ano anterior, foram setenta casos, o que significa um aumento de mais de 70% de lá para cá. De acordo com Carlos Alberto Chateaubriand, já houve uma solicitação à prefeitura para que uma linha de ônibus tivesse seu trajeto redefinido de modo a passar em frente ao prédio, mas o pedido nunca foi atendido. Atualmente, estuda-se a instalação de um ponto de táxi diante da sede ? experiência já testada no passado, mas abandonada em decorrência do péssimo atendimento prestado pelos motoristas. Enquanto nenhuma providência é tomada, resta aos visitantes que buscam o hiper-realismo de Ron Mueck o duro choque de realidade que se escancara nos jardins de um dos museus mais importantes da cidade.

Fonte: VEJA RIO