CIDADE

Em águas paradas

Com as obras paralisadas há três meses e sem todas as cotas de patrocínio vendidas, o aquário do Rio pode demorar a sair do papel

Por: Caio Barretto Briso - Atualizado em

O local onde o empreendimento será construído: atraso de pelo menos dois anos em relação ao cronograma inicial
(Foto: Redação Veja rio)
Projeto
(Foto: Redação Veja rio)

Embora tímidos, os primeiros sinais de revitalização da Zona Portuária já começaram a aparecer. A fachada do Museu de Arte do Rio (MAR), por exemplo, está pronta. E o Museu do Amanhã, desenhado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, teve sua pedra fundamental lançada na última terça-feira (1º). Infelizmente, o mesmo não pode ser dito sobre o terceiro projeto previsto para transformar o cenário daquela região. Com uma área de 27?000 metros quadrados, o AquaRio ainda é um canteiro de obras ? daqueles bem bagunçados e sem movimentação alguma nos últimos três meses. Uma simples visita ao local, ou uma olhadela na imagem acima, comprova o atual estado da intervenção. Detalhe: inicialmente, a estrutura deveria ser inaugurada em dezembro de 2010. Mas, do jeito que as coisas estão, é difícil acreditar que o novo prazo, daqui a um ano, seja cumprido. "Não vemos muito sentido em abrir o aquário enquanto a reurbanização da área não estiver concluí­da", explica o engenheiro Roberto Kreimer, presidente da Kreimer Engenharia, empresa responsável pela construção.

É uma pena, pois se trata de um projeto grandioso para a cidade. Com 42 tanques e 5,4 milhões de litros de água, o espaço abrigará 12?000 animais marinhos de 400 espécies. Com esses predicados, deve se tornar naturalmente uma das mais importantes opções de lazer para cariocas e turistas. Uma pesquisa conduzida pela Toledo & Associados estima que o aquário possa receber cerca de 1,7 milhão de pessoas por ano. Entre as atrações prometidas está um túnel de acrílico com 33 metros de extensão, inteiramente cercado de água, que dará ao visitante a sensação de passear no fundo do oceano. "Temos todo o interesse em que o equipamento fique pronto quanto antes. Confesso minha tristeza com a possibilidade de ele não se viabilizar no tempo prometido", lamenta o secretário municipal de Patrimônio Cultural, Washington Fajardo.

Oceanário de Lisboa: atração turística visitada por cerca  de 1 milhão de pessoas por ano
(Foto: Redação Veja rio)

Além da própria estratégia da empresa que ganhou a concessão, uma das razões que vêm contribuindo para o atraso são as sucessivas mudanças no projeto original. Orçado inicialmente em 65 milhões de reais, o aquário deve consumir mais que o dobro disso. Não estava prevista, por exemplo, a construção da área de pesquisa, uma parceria com a UFRJ para que os alunos da carreira de biologia marinha possam realizar estudos no local. Outro aditivo importante, de 10 milhões, foi consequência de uma adaptação para deixar a obra mais sustentável. Pelo novo desenho, o telhado da edificação será capaz de captar a luz solar e transformá-la em energia. Em paralelo, o fechamento de acordos com patrocinadores tem se revelado mais um obstáculo para a conclusão do cronograma. Ao contrário do que ocorre com o Museu do Amanhã e com o MAR, o espaço será totalmente bancado pela iniciativa privada. Trata-se de uma excepcional notícia. A questão é que até agora só a Coca-Cola se comprometeu a liberar recursos. Algumas companhias estão em negociação, mas não há nada oficializado. "Posso antecipar que são todas empresas de grande porte, interessadas em ter sua marca associada a um empreendimento cuja essência reúna valores como sustentabilidade e revitalização urbana", tergiversa Kreimer.

A ideia de construir um aquário naquela região nasceu há três anos e meio, quando o então prefeito Cesar Maia assinou um termo de cessão de uso de um terreno da Avenida Rodrigues Alves, emprestando-o por um período de cinquenta anos. De lá para cá, pouca coisa evoluiu. Dessa forma, o Rio deixa de seguir o exemplo de cidades que se aproveitam muito bem de empreendimentos semelhantes. Ninguém vai a Lisboa, para citar apenas uma delas, e sai de lá sem visitar o oceanário da capital portuguesa, um dos maiores e mais conhecidos do mundo, que recebe 1 milhão de pessoas por ano. Em 2010, esses visitantes movimentaram um volume de 11 milhões de euros. "Nunca deixei de entregar uma obra na minha vida. Não será desta vez que isso vai acontecer", diz Kreimer. Os cariocas ficam na torcida para que a promessa se cumpra.

As razões do atraso

Recursos

Todo o projeto exigirá um investimento de 140 milhões de reais. Mas até aqui existe um único patrocinador confirmado, a Coca-Cola. Há empresas em negociação, que podem ser anunciadas nos próximos meses.

Prazo

O aquário deveria ter sido inaugurado em 2010. Com a obra parada, a nova meta, daqui a um ano, dificilmente será cumprida. O gestor do projeto já começa a falar em 2015.

Projeto

Desde 2008, ocorreram diversas mudanças no desenho original, como a criação da área de pesquisa e o uso de tecnologias sustentáveis, a exemplo dos equipamentos de captação solar para gerar energia.

Fonte: VEJA RIO