COTIDIANO

O ataque da cavalaria

Empresário presta queixa de que foi agredido por dois jogadores de polo ao pousar seu helicóptero no refinado Itanhangá Golf Club

Por: Sofia Cerqueira

Renato Pizzutto
(Foto: Redação Veja rio)

A sequência é digna de um filme de ação. Um helicóptero pousa em um impecável gramado ao lado de um campo de polo onde oito atletas disputam uma partida. Enquanto o passageiro entra em sua Mercedes C63, dois jogadores abandonam o treino e partem em sua direção, a cavalo e com tacos em punho. Inicia-se uma discussão, o motorista acelera o veículo, que tem o vidro traseiro e a lataria atingidos por tacadas. Esse episódio, na verdade, teve como cenário um dos redutos mais exclusivos da cidade, o Itanhangá Golf Club. Ocorrido no dia 14 de março, ele virou caso de polícia. O empresário Eduardo Colombo, 50 anos, um dos donos da fabricante de biscoitos Piraquê, que usava o green como heliponto, deu queixa contra os outros dois sócios na 16ª DP (Barra da Tijuca). Bruno Camara Fuser, 35 anos, médico e herdeiro de uma clínica oncológica no Humaitá, e Luiz Mauro Villela Pedras Filho, 42 anos, empresário do setor elétrico, são acusados de causar "dano com violência e grave ameaça à pessoa", crimes com pena de até quatro anos de reclusão. "Meu cliente podia ter se ferido gravemente. Os golpes estilhaçaram o vidro blindado, o que a perícia confirma", diz o advogado criminalista Marcus Donnici Sion, contratado por Colombo.

Fotos reprodução da internet, Antonio Kämpffe (Eduardo), Arquivo pessoal (carro)
(Foto: Redação Veja rio)

Frequentado por jovens bem-nascidos, socialites e representantes da elite carioca, o Itanhangá Golf Club é um oásis junto à Barra da Tijuca, com 1 milhão de metros quadrados de área verde. Desde o imbróglio, a habitual tranquilidade de suas dependências deu lugar a um intenso ti-ti-ti. Os três sócios tiveram de apresentar sua defesa, por escrito, à direção. No dia 26 de março, seis membros do conselho deliberativo se reuniram para analisar o caso e, embora tenha alegado que estava em rota de fuga, Colombo recebeu uma advertência por dirigir em velocidade acima da permitida dentro do clube. Villela Pedras e Fuser, atletas amadores, estão proibidos de frequentar o local por três e seis meses, respectivamente. Villela argumenta que ele e o amigo se assustaram com a aeronave e que foram na direção de Colombo para ver quem era. "Não sabíamos de quem se tratava, se tinha autorização, se era da polícia ou até um bandido", alega. As versões dos envolvidos são conflitantes. Villela diz que o helicóptero pousou atrás do gol e que um bandeirinha da partida chegou a correr assustado. Colombo, por meio de seu advogado, afirma que a aeronave desceu a 300 metros de onde estavam os jogadores. "Nada disso teria acontecido se ele tivesse se identificado quando chegamos perto, mas não dei tacada em ninguém. O Bruno acertou o carro numa atitude de defesa quando ele acelerou", acrescenta Villela. Procurado, Fuser se recusou a comentar. O presidente do clube, Sérgio Carpi, também não se pronunciou.

Ingressar no seleto quadro de associados do clube, que dispõe de apenas 600 títulos ? 250 a menos que o fechadíssimo Country Club de Ipanema ?, não é fácil. Além de desembolsar 100?000 reais (título mais taxa de transferência), é preciso ser indicado por três sócios e ainda se submeter a um crivo. Um grupo de 24 conselheiros tem direito a voto, e a apresentação de três bolas pretas é suficiente para minar a pretensão. Fundado há 81 anos, o Itanhangá ganhou impulso logo no início, graças à adesão de um sócio ilustre, o presidente Getúlio Vargas. Emoldurado pela Pedra da Gávea, possui dois campos de golfe, dois de polo, cocheira para 150 cavalos, além de uma ala social com piscina, playground e três restaurantes. Devido a sua extensa área gramada e à carência de helipontos na região, é usado eventualmente pelo prefeito e pelo governador fluminense em voos oficiais. Colombo já utilizava o lugar para pouso e decolagem há pelo menos três meses, com autorização da diretoria. Embora frequente o clube desde garoto, ele e os outros dois envolvidos no incidente não se conheciam. Agora, periga ficarem frente a frente no tribunal. Além da ocorrência policial, que pode virar um processo criminal, o advogado de Colombo informou que entrará com uma ação cível por danos morais e materiais contra a dupla. O jogo está apenas começando.

Fonte: VEJA RIO