BEBIDA

Do boteco ao salão

Com o aumento da procura pelas cervejas especiais, elas passaram a ser vendidas (e consumidas) em locais improváveis

Por: Rafael Teixeira - Atualizado em

Felipe Fittipaldi
(Foto: Redação Veja rio)

A cena aconteceu há duas semanas em um posto de gasolina da Lagoa. Ao entrar na loja de conveniência, um rapaz vasculhou todos os freezers do local e retornou com a seguinte pergunta ao atendente do caixa: "Vocês não vendem cerveja?". Na esquina da Avenida Epitácio Pessoa com a Rua Tabatinguera, o posto em questão realmente não oferece nenhuma das marcas mais baratas e populares. Há, no entanto, uma profusão de rótulos especiais, com aromas e sabores complexos, fabricados em quantidades menores, a partir de matérias-primas de qualidade superior. São, ao todo, mais de 100 tipos, com preços que variam de 13 a 199 reais. Mais sofisticado, esse estilo da bebida vem ganhando mercado a cada dia, e, com isso, passou a ser comercializado em estabelecimentos bem improváveis, o que, como se vê, ainda causa estranheza em alguns clientes. De acordo com um levantamento feito, a pedido de VEJA Rio, por Hélio Vieira Junior, sócio da importadora Buena Beer e do bar Delirium Café, atualmente a cidade conta com aproximadamente 400 pontos de venda. Além dos bares especializados, essas cervejas já podem ser encontradas em cafés, livrarias, locadoras, quiosques de shoppings e até salões de beleza. "Entre os motivos para esse fenômeno estão o aumento da renda média do brasileiro e a famosa ascensão da classe C, que elevaram o consumo desses rótulos, naturalmente mais caros", diz ele.

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(Foto: Redação Veja rio)

Como efeito dessa proliferação, muitos estabelecimentos estão vendo mudar ? ou, pelo menos, se ampliar ? o perfil dos seus frequentadores. Botequim de vasta tradição boêmia na cidade, a Adega Pérola, por exemplo, passou a investir no segmento há apenas dois anos, com uma seleção que inclui exemplares brasileiros e estrangeiros. Entre eles, as belgas Hoegaarden e Leffe. "Se o seu Antônio estivesse vivo, certamente não gostaria nada disso", brinca Ricardo Martins, um dos atuais sócios, referindo-se ao antigo proprietário, morto em 2010. A guinada foi mais radical ainda no sebo e restaurante Al Farábi, no Centro. Aberto em 2004, o lugar passou a abrigar, dois anos depois, um restaurante, ao qual foi incorporada uma carta com cerca de oitenta rótulos. Com o tempo, o que era uma livraria que vendia cervejas passou a ser visto como um bar que comercializa livros antigos. Nesse balaio cabem até empreendimentos que passam longe do ramo gastronômico ? e que não têm absolutamente nenhuma intenção de mudar seu perfil. É o caso do salão Amauri Guedes, em Ipanema, onde o proprietário passou a oferecer tulipas de Therezópolis, fabricada no interior do Rio, e de Dama Bier, paulista, como um mimo aos clientes. E não é que elas têm feito sucesso, até entre a ala feminina? "Gostei da novidade.

O frescor da bebida alivia o calor do secador de cabelo", garante a estudante Claudia Pereira, de 27 anos.

O crescimento e a diversificação dos pontos de venda são, naturalmente, um reflexo de uma bem-vinda sofisticação do paladar do consumidor carioca. Por outro lado, profissionais do ramo observam que essa expansão, por si só, não é garantia de fortalecimento de uma cultura cervejeira qualificada. À exceção dos bares especializados, como o próprio Delirium Café, o Beerjack Hideout e o Boteco Colarinho, e de um punhado de restaurantes finos que investiram no segmento, a exemplo do Bazzar e do Mr. Lam, ainda são minoria os estabelecimentos em que a adesão à moda desse estilo mais gourmet da cerveja vem acompanhada por um serviço aprimorado, capaz de servir a bebida no copo certo, na temperatura adequada e por aí vai. Algo fundamental para que os clientes sejam bem informados e tirem o melhor proveito do que estão consumindo. Chef e sócia do Aconchego Carioca, um dos primeiros endereços do Rio a servir esses rótulos mais nobres, Kátia Barbosa afirma que isso é natural em um mercado ainda em desenvolvimento: "Tem muita gente que aproveita para surfar na onda, o que não acho condenável. Mas, com o tempo, só vai se sustentar nessa área quem realmente se dedicar à bebida", avalia. Até lá, portanto, muita cerveja ainda deve jorrar.

Felipe Fittipaldi
(Foto: Redação Veja rio)

Fonte: VEJA RIO