COTIDIANO

O campeão dos preços altos

Considerada parada obrigatória pelos estrangeiros que vêm para a Copa, a cidade conquista o indesejado título de a mais cara entre as doze sedes da disputa no país

por Felipe Carneiro | 18/06/2014 11:49

Felipe Fittipaldi
Os preparativos para a viagem tomaram cinco meses. Nesse tempo, os argentinos Patrício Gomez e Andres Ruzzo compraram as passagens aéreas para o Rio e fizeram uma pequena economia seguindo os padrões de gastos em Buenos Aires, uma cidade que não anda lá tão barata. Pelos cálculos, o dinheiro garantiria com alguma folga a hospedagem e a alimentação — o ingresso para ver Messi no Maracanã foi comprado pela internet. A surpresa veio assim que os dois pisaram no Galeão. Os preços não só assustaram os amigos como os levaram a perceber que não tinham o suficiente para custear toda a viagem. Foi quando decidiram bancar as férias com o próprio suor — e em grandes quantidades. Ao lado da também portenha Karina Gonzalez, que enfrentava o mesmo problema, passaram o último domingo percorrendo as areias do Leblon e de Ipanema com isopores carregados de latas, apregoando com sotaque inconfundível: "Cerveza, cerveza reladínia!". Esperançosos, eles acreditam que se fizerem isso todo domingo conseguirão ficar até o fim da Copa. "Era ganhar dinheiro ou diminuir a estada. E voltar para casa antes do tempo não está nos planos", diz Ruzzo. Os argentinos não são os únicos a sentir na pele quanto curtir o Rio pode ser caro. A francesa Mathilde Jacob, de 21 anos, também ficou chocada. "Eu estou me alimentando à base de sanduíche, porque todo o dinheiro que eu separei para a minha viagem está indo embora só com a hospedagem", confessa a moça que vive em Paris, uma das cidades mais caras do planeta.

A carestia carioca está longe de ser um problema exclusivo entre jovens viajantes de orçamento apertado que andam mundo afora em busca de sol, praia, baladas e aventuras. Uma pesquisa conduzida pelo portal de viagens americano Trip Advisor comprovou que nossos preços estão escandalosamente altos nesse verão fora de época da Copa do Mundo. Pelos cálculos do site, um visitante gastará em média 1 520 reais por dia na cidade, incluindo diária de hotel, ingresso para um jogo no Maracanã, lanche, almoço ou jantar em um restaurante mediano e corrida de táxi de ida e volta ao estádio. É disparado o valor mais elevado que se observa em todas as doze sedes do Mundial (veja o quadro ao lado). Nessa espécie de cesta básica da Copa, o maior vilão é, incontestavelmente, o preço da hospedagem. O Trip Advisor aponta que as diárias custam hoje exatamente o dobro dos valores de junho do ano passado — uma noite em um hotel de três a quatro estrelas passou de 495 reais, em média, para 951 reais. Em sua defesa, os empresários do ramo alegam obedecer à lei da oferta e da procura, segundo a qual a demanda aquecida tratou de jogar os preços para cima.

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A experiência recente, entretanto, mostra que as variáveis nesse tipo de reajuste são bem mais flexíveis do que a mão invisível do mercado. Em 2012, a recusa de boa parte das delegações estrangeiras em pagar pelo alto preço da hospedagem durante a Rio +20 levou o governo federal a passar um pito no setor e pressionar por preços mais camaradas, pois os donos de hotéis, com suas tarifas escorchantes, ameaçavam comprometer o quórum da conferência diplomática. Resultado: o preço caiu 20%. "Agora vivemos uma situação completamente diferente. Até pode acontecer de um ou outro estabelecimento ter ocupação menor e reduzir preços ao longo da Copa, mas serão iniciativas isoladas", argumenta Alfredo Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Rio (Abih-RJ).

Fernando Frazão

Nos últimos cinco anos, o carioca tem sido obrigado a conviver com uma realidade paradoxal, em que a recuperação da autoestima, a visibilidade internacional, a redução da criminalidade e a boa imagem da cidade provocaram um efeito colateral perverso. Viver no Rio passou a ser um privilégio e, portanto, convencionou-se que é preciso pagar caro por isso. Os preços dos imóveis bateram na estratosfera, o que reverberou nos mais variados setores da economia local. Hoje, se o preço de um prato de feijoada sobe em um restaurante, o grande culpado já vem de imediato: o aluguel caro. É verdade que os reajustes têm sido altos, mas, sozinhos, não justificam tamanho furor por cobrar mais. Em um país com inflação de 6,4% ao ano e em uma cidade onde já se registra um índice bem mais alto que a média nacional, de 7,3%, são comuns situações em que restaurantes alteram preços muito acima desse patamar. É o caso do Braseiro da Gávea, que em junho do ano passado cobrava 80 reais pela picanha e recentemente aumentou para 98 reais, ou seja, uma mordida de 22,5%. "Estou simplesmente repassando o que me cobram", alega um dos sócios, Marcos Aguiar. O presidente do Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes (SindRio), Pedro de Lamare, dono da rede Gula-Gula, corrobora tal conduta: "Assim como o cidadão, nós também somos diretamente afetados pela alta dos alimentos, do aluguel, do transporte, do dólar. Há abusos, claro, mas não se pode generalizar".

Uma consulta na página do Facebook do Rio Surreal, movimento criado em janeiro para protestar contra os preços desmedidos, é o suficiente para perceber quanto os cariocas andam revoltados (veja dez exemplos denunciados por internautas no quadro ao lado). Ali, dezenas de fotografias de notas fiscais, cardápios e produtos com as respectivas etiquetas de preços são compartilhadas como prova da falta de critério e transparência nos preços cobrados pelos estabelecimentos. Em alguns casos, a pressão dá resultado. O Belmonte, por exemplo, chegou a cobrar 10,60 reais por uma empada aberta de camarão, mas, diante da grita geral no site, recuou e os cardápios da casa voltaram a estampar o valor anterior, de 8 reais. O mesmo aconteceu com o pastel de palmito da rede, que, de 5,70 reais, passou a 3,50 reais, e com a empada de frango, que caiu de 4,60 reais para 3 reais. O tradicional Mosteiro, no Centro, voltou a pedir 135 reais pelo bacalhau à moda da casa depois que a freguesia chiou quando o prato teve o preço aumentado para 158 reais.

Os próprios economistas reconhecem que estabelecer preços de produtos e serviços é tarefa complexa e envolve uma série de variáveis, que vão de impostos a encargos embutidos no cálculo, como salários, transporte, intermediários, gás, luz e telefone. Portanto, nada mais equivocado do que comparar um suco de laranja de 9,50 reais servido em um quiosque da orla da Barra com os quase 5 quilos da fruta adquiridos na feira pelo mesmo valor. Além disso, há fatores que provocam impacto na conta, como a oferta de crédito na praça, a taxa de desemprego e a própria expectativa das pessoas em relação aos preços. Quando há uma percepção geral de que os preços vão aumentar, os comerciantes tendem a fazer reajustes para se precaver do que acham que vai acontecer, o que ajuda a confirmar seus próprios temores. "O perigo é que, nessa toada, o Rio continue encarecendo até a Olimpíada", diz o eco­nomista Mauro Rochlin, do Ibmec.

Sediar grandes eventos esportivos de alcance mundial costuma ser motivo de comemoração e euforia nas cidades e países que os recebem. Os motivos para todo esse júbilo são muitos: a construção de arenas e instalações gera empregos, a divulgação internacional atiça a curiosidade de turistas potenciais e sempre há ganhos na área de infraestrutura, por menores que sejam. Mas há riscos também. Durante os preparativos para os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, os gregos se animaram além da conta e construíram uma expectativa exagerada dos ganhos que poderiam obter com o evento. Com isso, fizeram vista grossa ao descontrole nos gastos públicos, e a vida na capital se tornou muito mais cara. Ao contrário do que os empolgados comerciantes esperavam, o fluxo de estrangeiros diminuiu às vésperas dos Jogos, uma vez que a maioria dos exuberantes monumentos históricos locais ou passavam por reformas ou estavam cercados de obras. Durante a Olimpíada, realizada em agosto, o número de visitantes foi apenas 6% maior do que no ano anterior. Resultado: a carestia dos produtos, serviços e, principalmente, imóveis (o aumento chegou a 86% em dois anos na região de Messogia, onde fica o novo aeroporto) não trouxe mais dinheiro estrangeiro, e diminuiu o poder de compra dos gregos. "Seis anos depois de Atenas, Johanesburgo viveu uma situação similar: a Copa passou e sobraram os preços altos", afirma Paulo Copela, economista e organizador do livro Megaeventos Esportivos, Suas Consequências, Impactos e Legados. É justamente esse o risco que agora corremos por aqui.

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