DIVERSÃO

Orgulho suburbano

A novela Avenida Brasil, ambientada no fictício bairro do Divino, faz sucesso ao mostrar tipos pitorescos inspirados em personagens marcantes de uma região até então ignorada pelo resto da cidade

por Carla Knoplech e Letícia Pimenta | 30/05/2012 15:22

 

A aposta foi ousada e, a princípio, provocou estranheza. Habituados a ser brindados com imagens de lugares deslumbrantes, os espectadores dos primeiros capítulos de Avenida Brasil se viram diante de sequências gravadas em aterros sanitários, mercados populares, ruas feiosas e prédios toscos. Logo na estreia, em 26 de março, foram exibidas cenas terríveis, como uma morte por atropelamento e o abandono de uma criança aos prantos em meio a montanhas de lixo. Passados dois meses, o choque inicial da trama escrita por José Emanuel Carneiro transformou-se em um sucesso incontestável. Depois de uma largada tímida, com média de 34 pontos no Ibope na primeira semana (3 a menos que a antecessora, Fina Estampa, no mesmo período), a novela bateu em 41 na última medição, divulgada no dia 13. É o melhor índice dos últimos cinco anos para a fase que envolve os 36 capítulos iniciais, importantíssimos para a consolidação da audiência. A agilidade da edição de imagens, a direção primorosa e o desempenho arrebatador dos atores contribuíram para o sucesso. No entanto, há outro fator que faz da produção um ponto fora da curva: a maneira como mostra o subúrbio do Rio. Considerado uma espécie de dano colateral da caótica expansão urbana da capital fluminense, esse imenso território que junta mais de setenta bairros sempre foi rejeitado pelo resto da cidade e, não raro, pelos próprios moradores. Com a notoriedade do fictício Divino, a velha aversão começa a se transformar em simpatia. "O subúrbio se tornou um personagem a mais na história", avalia Mauro Alencar, especialista em telenovelas da Universidade de São Paulo (USP).

 

Conheceça os personagens na vida real

O subúrbio na TV

 
Transformar os cenários e ambientes em que as tramas se desenrolam em protagonistas é um recurso que remonta aos romances naturalistas do século XIX. Tais obras tornavam lugares como mercados, edifícios e até cidades inteiras em seres vivos, praticamente dotados de vontade própria. É o que se vê em Avenida Brasil, na qual estrelas como Adriana Esteves, Murilo Benício, Débora Falabella, Isis Valverde e Cauã Reymond incorporam personagens fortemente marcados pelo universo que os cerca, para o bem e para o mal. Em um esforço de verossimilhança, alguns deles chegam a incorporar arquétipos da vida real. O ex-craque da bola gorducho, o patriarca que embarca sem culpa na boa vida proporcionada pelo filho famoso, o aspirante a ídolo do futebol que sonha com uma carreira internacional são figuras-chave do microcosmo que gira em torno de um time de terceira divisão fabricado nos estúdios do Projac. É quase impossível assistir a uma cena do personagem Tufão, vivido pelo ator Murilo Benício, e não reconhecer as peculiaridades incorporadas de atletas de verdade, algumas delas até físicas. É o caso de Ronaldo Fenômeno, nascido em Bento Ribeiro, que se aposentou no ano passado depois de uma longa batalha com a balança. Ele próprio se reconhece em Tufão. "Achei marcante o momento em que ele parou de jogar e tomou a decisão de virar empresário", conta. Da mesma forma, histórias de superação como a da ex-empregada doméstica Heloisa Helena de Assis, nascida no Morro do Catrambi, na Zona Norte, e hoje proprietária de uma rede de salões de beleza, servem de plataforma para a construção de personagens como a batalhadora Monalisa, vivida por Heloísa Périssé. "O subúrbio que a novela mostra é solar, alegre, tem um tom para cima e um quê de humor mesmo nos momentos mais difíceis. Acredito que é por isso que encanta o público, que se reconhece naquele mundo", diz a atriz.

 


A fórmula de uma novela de sucesso consiste basicamente no equilíbrio - nem sempre fácil de ser obtido - entre texto, direção, interpretação e produção. Além da sólida combinação dos dois primeiros elementos, Avenida Brasil tem sido particularmente eficaz no que diz respeito ao último quesito. A equipe da novela se esmerou ao trazer para o horário nobre elementos como as falcatruas que infestam os bastidores futebolísticos, as peculiaridades do comércio de quinquilharias nos mercados periféricos e até mesmo os chamados bailes charme, nos quais os participantes seguem um rígido código de vestuário e coreografias ensaiadas. Foi em um embalo desses, realizado em Madureira, que a atriz Isis Valverde, ao observar as garotas na pista de dança, descobriu como deveria interpretar a provocante Suelen, maria-chuteira de plantão da trama. "Tive de mudar minha postura e o jeito de falar. As meninas dali demonstram uma segurança e autoconfiança fora do comum", afirma Isis. Ela incluiu ainda em seu processo de preparação uma pesada rotina de musculação para incorporar a silhueta exuberante das jovens suburbanas. É esse o biotipo exibido pela estudante de relações internacionais Suellen Monteiro, 24 anos, moradora de Curicica, na Zona Oeste. Alçada à fama depois de protagonizar um ensaio fotográfico pra lá de provocante no jornal popular Extra, em que posou à beira da via expressa mais movimentada da cidade, ela reconhece ter o mesmo ar, digamos, assertivo que a atriz tanto procurou. Só faz uma pequena ressalva. "Não sou mau-caráter como a personagem. Acredito que é possível subir na vida sem apelar para baixarias", explica a moça, que trabalha como estagiária em um escritório de arquitetura.

 


A ideia de subúrbio que se cristalizou entre muitos cariocas reflete um mundo particular, bastante diferente do que existe em outras cidades. De origem latina, a palavra suburbium surgiu na Roma antiga para designar as colinas onde viviam os ricos e os nobres. Entres os séculos XIX e XX, ela passou a ser adotada na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos para designar áreas residenciais de alto padrão afastadas dos centros urbanos, conectadas, em princípio, por ferrovias e, posteriormente, rodovias. Na versão local, o termo passou a ser usado a partir do processo de reurbanização do Centro, iniciado em 1903, o famoso "bota-abaixo". Com a demolição de quarteirões inteiros, a população de classe média baixa que ali vivia partiu para os arrabaldes ao longo das antigas estradas de ferro Central do Brasil e Leopoldina, dando início a um ciclo de expansão que perdurou por várias décadas. Nos anos 60, a remoção de moradores de favelas da Zona Sul para essas áreas deu à palavra uma conotação pejorativa, da qual nunca mais se livrou. O termo tornou-se sinônimo de uma vasta região periférica que se expandiu pela Zona Oeste, marcada pelo crescimento desordenado e pela violência provocada por criminosos e traficantes. "A situação só começou a mudar recentemente com o aumento do poder aquisitivo da população e a chegada das UPPs", diz o arquiteto Marcelo Conde, que coordena projetos urbanísticos na região.

 


O subúrbio carioca não é um paraíso e dificilmente será visto dessa forma. Alguns bairros, porém, já despontam como alternativa de expansão imobiliária, com a abertura de novos shopping centers e centros empresariais. É o que acontece em Bangu e Del Castilho, onde velhas fábricas foram revitalizadas com essa finalidade. A instalação de um núcleo olímpico em Deodoro e a construção das linhas de BRT prometem revitalizar trechos antes entregues ao abandono e à decadência. "Sempre houve uma veia empreendedora muito forte entre a população. O que faltava era um impulso na autoestima. A súbita visibilidade alcançada com a novela pode ser uma boa oportunidade para mudar isso", analisa o geógrafo Márcio Piñon, da Universidade Federal Fluminense e organizador do livro 150 Anos de Subúrbio Carioca. Se depender dos cariocas que inspiraram os personagens do Divino, o orgulho suburbano está mais do que resgatado.

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