Prêmio incentiva residências e artistas brasileiros

FOCO Bradesco ArtRio promove um novo olhar para a produção visual do país

Carlos Mélo

A performance do artista Carlos Mélo, premiado em 2015, foi inspirada no livro Menino de Engenho, de José Lins do Rego. Envolto numa capa de couro de boi, o artista simboliza seu encontro com o protagonista Carlinhos, seu homônimo (Carlos Mélo/Divulgação)

O Prêmio FOCO Bradesco ArtRio chega ao seu quinto ano com uma nova pegada. Reconhecida por contemplar artistas visuais emergentes (máximo de 15 anos desde a primeira obra exposta) com bolsas em residências ao redor do mundo, a premiação passa a se voltar ao fortalecimento de espaços alternativos e independentes no Brasil. “Queremos ajudar as residências brasileiras a se profissionalizar um pouco mais”, explica Bernardo Mosqueira, diretor do FOCO.

A residência artística é uma experiência de deslocamento para outras cidades ou países que oferecem novos espaços de criação e reflexão no campo cultural. A experimentação é enriquecida pelas trocas com outros residentes, orientadores e pessoas estranhas. “É fundamental para que os artistas criem suas próprias redes de contato. Isso os ajuda a aprender a pensar de outras formas”, ressalta Mosqueira.

Os destinos dos vencedores da edição 2017 serão as nacionais Ecovila Terra Una (MG), Instituto CAMPO + Fundação Museu do Homem (PI) e Saracura (RJ). Os artistas selecionados também participarão de uma exposição conjunta na Feira Internacional de Arte do Rio de Janeiro (ArtRio), entre 14 e 17 de setembro. Além disso, uma obra de cada um deles será doada para o Museu de Arte do Rio (MAR). 

Conversamos com premiados dos anos anteriores sobre suas obras e experiências durante as residências:

ROMY POCZTARUK (2016)

Scientific Amusement

Na obra Superfície de Contato, parte do projeto Scientific Amusement, a artista brinca com a alteração da percepção nas imagens (Romy Pocztaruk/Divulgação)

Filha de uma arquiteta e um engenheiro civil, a gaúcha Romy Pocztaruk, de 34 anos, trabalha a relação entre ciência, arte e magia. Formou-se em escultura na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tornou-se mestre em poética visual na mesma instituição, passando a desenvolver um trabalho mais voltado para a fotografia.

É dela o projeto Scientific Amusement, inspirado em um manual de ciências do início do século. Entre as obras está Cloaking Device, um jogo de lentes que torna um objeto invisível se olhado por entre elas. Esse foi o trabalho adquirido pelo MAR após parte das obras ter sido exposta no estande da ArtRio em 2016.

A partir de junho, Romy fará residência na associação cultural Despina, no Rio. “Vou desenvolver uma pesquisa sobre viagem espacial e energia nuclear. A residência é um deslocamento que sempre foi importante na minha poética: de estar numa cidade que não é minha e ter uma experiência de estranhamento“, diz a artista, que já fez residências em Nova York, Berlim e China.

Dela também tem destaque a série de fotos e vídeo A Última Aventura, em que Romy percorreu a Transamazônica durante um mês de carro para registrar construções da época da ditadura que foram abandonadas.

CARLOS MÉLO (2015)

Carlos Mélo

O anagrama de néon trabalha a relação entre imagem e palavra, com suas flexões semânticas, que geram outros sentidos. Faz parte da série Agreste Telúrico, concebida numa residência no interior da Paraíba (Carlos Mélo/Divulgação)

O trabalho do pernambucano Carlos Mélo, 48, mescla performances, instalações, esculturas, fotos e vídeos. O tema central é o lugar que o corpo ocupa no mundo, dialogando com a filosofia e, mais recentemente, com a literatura. Nascido em Riacho das Almas, Pernambuco, Mélo estudou história da arte e pesquisa plástica no Instituto de Arte Contemporânea.

Sua pesquisa sobre o Barroco, desenvolvida em Lisboa, o inspirou a criar a Bienal do Barro de Caruaru, que chega à segunda edição em 2017. “Lembrei da tradição artística dos mestres Vitalino e Galdino. Depois deles, não havia surgido outros artesãos. A bienal foi pensada como uma ação de resgate, de repensar a região e criar condições para que surgissem outros artistas, usando o barro como espécie de ocupação do espaço”, explica.

O diálogo entre imagem e palavra é outra marca de Mélo. O anagrama de néon Resgate Agreste, um dos trabalhos apresentados pelo artista na ArtRio de 2015, hoje faz parte do acervo do MAR. Em sua residência no espaço de arte Pivô, em São Paulo, ele pesquisou sobre o livro Macunaíma, sob a orientação de Paulo Miyada, curador do Instituto Tomie Ohtake. O trabalho culminou com uma performance e a leitura integral do livro por seis horas no Sesc Bom Retiro.

ANNA COSTA E SILVA (2014)

Anna Costa e Silva

Na obra Autorretrato, Anna convidou atores e atrizes, como Bruna Linzmeyer, para interpretá-la, sem roteiro nem direção (Anna Costa e Silva/Divulgação)

A carioca Anna Costa e Silva, 28, tem como matéria-prima principal o encontro com o outro, seja por meio de performances, da videoarte ou da simples interação com as pessoas. Formada em cinema pela Universidade Gama Filho, tem mestrado na School of Visual Arts, em Nova York. Começou a carreira dirigindo curtas, exibidos em festivais em países como França, Austrália e Estados Unidos. Mas foi nas artes visuais que se encontrou.

Entre seus trabalhos está a série Autorretrato, na qual convidou atores e atrizes para interpretá-la em diálogos filmados. As videoinstalações, exibidas pela primeira vez na ArtRio de 2014, foram incorporadas ao acervo do MAR. Os encontros anuais dela com “seus outros eus” continuarão a ser registrados até 2024.

Mas seu trabalho mais ousado surgiu durante a residência no espaço de experimentação artística Phosphorus, em São Paulo. A artista dormiu na casa de desconhecidos e gravou conversas estabelecidas com eles no estágio entre o sono e a vigília. As instalações sonoras da mostra Éter deram tão certo que Anna vai repetir a experiência na Lituânia, em junho, e fará uma nova edição da exposição no mês seguinte no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio.

“A residência foi uma experiência maravilhosa. Eu tinha a sensação de sair todos os dias à noite e entrar num novo universo, não só subjetivo, mas também físico e geográfico. Isso foi fascinante e muito intenso. O medo sempre existe, o risco é inerente, mas me interesso mais pelo que há do outro lado. Quando eu me coloco num lugar vulnerável, a outra pessoa também se coloca, o encontro acontece“, comenta.

ALAN FONTES (2013)

Alan Fontes

Na série Desconstruções, o artista plástico se inspira em imagens jornalísticas de espaços que foram destruídos por desastres para pintar suas telas (Alan Fontes/Divulgação)

A desconstrução de casas é uma das principais vertentes da obra do mineiro Alan Fontes, 36, mestre em artes visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais – onde também se graduou em pintura e desenho. Ele se inspira em imagens, coletadas em jornais e revistas, de espaços que foram destruídos por acidentes, como tornados e incêndios, e faz releituras poéticas.

Sua série Desconstruções foi iniciada com três telas inéditas pintadas para o Prêmio FOCO e, posteriormente, adquiridas pelo MAR. A pesquisa continuou durante sua estadia na Residência Baró, em São Paulo. O trabalho sobre o tema ainda está em desenvolvimento e será apresentado no projeto Arte BA, em Buenos Aires, no fim de maio.

“Meu trabalho surge em dois sentidos principais. O primeiro trata o interior da casa como uma espécie de autorretrato ampliado”, detalha Fontes, que também é professor da graduação em pintura da Escola Guignard, da Universidade do Estado de Minas Gerais. “O segundo, mais universal, pode ser descrito por reflexões geradas sobre as questões da urbanidade, tendo as cidades e sua arquitetura como elemento de reflexão sobre o tempo e a vida contemporânea.”

SERVIÇO

 Prêmio FOCO Bradesco ArtRio
Anúncio dos vencedores: 13 de setembro, Marina da Glória, Rio de Janeiro
Feira Internacional de Arte do Rio de Janeiro: 14 a 17 de setembro, Museu de Arte do Rio

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