Leia crítica da nova peça de Deborah Colker antes da estreia

Cão Sem Plumas chega aos palcos do Rio no final de julho

Sempre cáustico, Millôr Fernandes (1923-2012) rebatia a máxima “uma imagem vale mais do que mil palavras” com a seguinte proposta: “diga isso com uma imagem”. Deborah Colker topou desafio parecido ao verter as 51 estrofes de O Cão sem Plumas, poema de João Cabral de Melo Neto (1920–1999), para as cenas de Cão sem Plumas, seu mais novo espetáculo. No original, o poeta pernambucano é pródigo na sugestão de imagens de personagens, cenários e mazelas flagrados às margens do Rio Capibaribe, inspiração maior para sua obra. Lirismo e crítica social misturam-se na apresentação com pouco mais de uma hora, em que treze bailarinos dividem o palco com a projeção de cenas filmadas por Cláudio Assis e protagonizadas por eles mesmos, ao longo de uma temporada de 24 dias em cidades ribeirinhas de Pernambuco. A interação entre cinema e dança é resultado do desejo da coreógrafa de investir em novas linguagens. Nos movimentos da trupe, notam-se ainda elementos da dança de rua. Corpos fortes e flexíveis, cobertos de lama, transformam-se em caranguejos e garças — os primeiros, representando cidadãos oprimidos (o “homem-caran­guejo” é um conceito difundido, abordado tanto pelo geógrafo Josué de Castro quanto pelo cantor Chico Science (1966-1997), do grupo de manguebeat Nação Zumbi). Em outro plano, três bailarinas em perfeita sincronia retratam a elite endinheirada, sem perder a pose. Na cenografia simples de Gringo Cardia, estruturas de madeira transformam-se em barcos e favelas ou palanques que elevam a trupe em um momento particularmente impactante para a plateia. A sublinhar as imagens (não que fosse preciso), trechos do poema são declamados em off. Cão sem Plumas chega ao Rio em 27 de julho e faz temporada no Theatro Municipal.

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