Servidores do Theatro Municipal protestam com espetáculo musical

Músicos e dançarinos reclamam de atraso no pagamento dos salários, que não é feito há vários meses

Pode-se dizer que a apresentação foi um sucesso. A multidão, aglomerada na praça — diante da escadaria do Theatro Municipal transformada em palco — e no trecho da Rua Evaristo da Veiga que acabou fechado ao tráfego, ouviu conhecidos temas clássicos como Jesus Alegria dos Homens, de Bach, Ode à Alegria, o movimento mais pop da Nona Sinfonia de Beethoven, e o belo e libertário coro Va Pensiero, de Verdi. Primeira-bailarina da casa, Ana Botafogo deslizou de sapatilhas sobre o piso de pedras portuguesas. O espetáculo realizado na terça-feira, 9, foi um protesto e um pedido de socorro: funcionários da Secretaria de Cultura do Estado do Rio, os artistas do balé, da orquestra e do coro do Theatro Municipal, além de seus técnicos administrativos, não recebem salário há dois meses nem sequer viram a cor do 13º de 2016. Na manifestação ao ar livre, denunciaram a situação de penúria e arrecadaram doações para aliviar as privações dos mais necessitados. O padecimento dos cerca de 550 profissionais do Municipal é mais ou menos o mesmo dos demais funcionários do governo do estado, que está quebrado, à espera de socorro financeiro da União. No agridoce protesto da Cinelândia foram ouvidos os casos específicos e tocantes de pessoas despejadas, além de outras que não conseguem mais comprar o básico para abastecer a família. Durante o ato foi feita ainda uma homenagem a Leonardo Páscoa. O barítono do coro do Theatro morreu no domingo, 7, aos 42 anos, vítima de infarto fulminante. Para bancar o enterro, a viúva, a soprano Rose Provenzano, também do coro, precisou arrecadar dinheiro entre colegas. O imponente palacete inspirado na Ópera de Paris e inaugurado em 1909 é uma glória da cultura brasileira. Por seu palco passaram alguns dos maiores artistas do século XX. A lista, imensa, inclui os maestros Villa-Lobos e Stravinsky — que regeu a orquestra da casa —, as estrelas do canto Bidu Sayão, Enrico Caruso e Maria Callas, e o bailarino russo Vaslav Nijinski. Mas em 9 de maio as escadarias ressoaram mesmo com os dramáticos versos que encerram o canto da obra-prima de Verdi: “… traggi un suono di crudo lamento / o t’ispiri il Signore un concento / che ne infonda al patire virtù!”. Em tradução livre: traz-nos o som de um lamento triste / ou nos inspire o Senhor uma harmonia / que faça de nosso sofrimento virtude.

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