Professores voltam às aulas nas melhores escolas do Rio

Os profissionais buscam cursos de capacitação, treinamento e reciclagem para se manter atualizados

O professor Vítor Lima, do Colégio de A a Z: o desafio é tornar a filosofia interessante para os jovens (Selmy Yassuda/Veja Rio)

Vítor Lima é um dos professores mais bem avaliados na rede Colégio de A a Z. Seu desafio é transformar a filosofia em assunto interessante para jovens de 13, 14 anos, sem perder o rigor da matéria. “Você não pode chegar ao ensino médio para dar aula com o programa que aprendeu na universidade”, diz. As ferramentas para traduzir esse conhecimento, Lima obteve na Escola de Talentos do Colégio de A a Z, onde começou como monitor, antes de iniciar a carreira docente. Uma vez por semana, ele frequentava o curso, voltado para aplicações mais práticas da pedagogia, e hoje continua participando dos workshops promovidos pela rede de ensino. “Essa formação é responsável por 80% do professor que eu sou hoje”, acredita. O caso de Lima não é único. Cada vez mais escolas de ponta estão investindo no treinamento e na reciclagem dos professores, os mentores por trás de suas histórias de sucesso.

Usando suas conexões internacionais para ampliar o horizonte de aprimoramento dos docentes, a British School organiza, sempre em abril, a Education Conference, reunião de especialistas estrangeiros, professores das escolas britânicas brasileiras e de outras instituições de ensino nacionais e do exterior. Na deste ano, no Rio, houve três dias de debates sobre o tema “Liderança e linguagem”. Além disso, a instituição mantém programas permanentes de treinamento dos professores e os estimula a participar de cursos externos em suas respectivas áreas. Nos últimos anos, a escola também tem investigado meios para se aprimorar nas matérias ligadas a áreas geradoras de inovação, como ciências, tecnologia, engenharia e matemática. O cuidado no preparo chega a detalhes como a concentração dos professores: neste ano, a British School começou a promover oficinas de mindfullness, técnica de meditação e autoconhecimento, reunindo alunos e professores com o objetivo de melhorar o desempenho nas classes. “Como uma escola internacional, não podemos ficar para trás nas práticas contemporâneas de ensino”, explica Craig Woollard, coordenador de desenvolvimento de pessoal no Rio de Janeiro.

Encontro anual: especialistas estrangeiros discutiram linguagem e liderança, em abril, na British School (British School/Divulgação)

Uma das escolas mais tradicionais da cidade, o Santo Inácio, por sua vez, mantém encontros semanais de duas horas com os professores. Os participantes dedicam-se à elaboração de projetos, assistem a palestras e discutem temas e textos sobre educação. Quem frequenta cursos, congressos e eventos que tenham a ver com a sua área de atuação ganha ajuda de custo de 30% a 50% dos gastos previstos. “Os professores devem redescobrir a própria motivação para inspirar os alunos. Quando eles estão motivados, isso acontece naturalmente”, diz Marcelo Tavares, diretor de capacitação da Eleva A+. Na instituição, os treinamentos são voltados para temas como liderança, em workshops presenciais e on-line, mais direcionados a técnicas práticas para uso em sala de aula. Já no Colégio Logosófico Gonzáles Pecotche, de educação infantil e fundamental, a reciclagem faz parte do contrato de trabalho. Três horas são acrescidas à jornada semanal dos docentes.

Em geral, o atual trabalho de treinamento nas principais escolas questiona o próprio papel do professor na sala de aula. “O professor não é mais o centro da cena”, explica Antônio Viveiros, diretor adjunto do Colégio Mopi. “Ele deve pesquisar e instigar o processo de aprendizagem de crianças e jovens, e romper com a ideia de que o docente é um mero replicador de conceitos.” Para Raphael Barreto, coordenador do ensino fundamental e médio da Escola Dínamis, a capacitação virou precondição para o emprego das novas gerações de professores. “Quem não a fizer terá cada vez menos espaço no mercado, e as escolas não conseguirão entregar o resultado a que se propõem”, avalia. O Colégio Miraflores também mantém uma política de treinamento permanente voltada para a área pedagógica, que inclui o uso de ferramentas tecnológicas. “Elas ampliam as oportunidades de aprendizado, mas o professor não deve esquecer que são apenas instrumentos”, alerta a coordenadora Márcia Rodrigues. Segundo ela, todo esse movimento responde a uma demanda da sociedade. “O mundo mudou, e o educador não pode se esconder. As crianças chegam hoje à escola diferentes de como vinham as do passado e têm de sair preparadas para um mundo que não sabemos como será daqui a alguns anos.”

Mães inclusivas: Flavia, Carla e Fabiana colaboram na recepção de alunos com deficiência (Selmy Yassuda/Veja Rio)

Ninguém fica para trás

As escolas também têm buscado treinamento profissional para lidar com a inclusão de alunos com necessidades especiais, uma medida hoje regulamentada por lei. O grupo Paratodos, formado há quatro anos por três mães de alunos com deficiência matriculados na Escola Parque, circula por colégios do Rio para promover palestras e debates dedicados a preparar professores e funcionários para receber esses estudantes. A jornalista Fabiana Ribeiro, uma das fundadoras do grupo, integrado também por Flavia Weiner Eizirik e Carla Codeço, acredita que a escola deve ter um olhar aberto para a inclusão, ou terá falhado em sua missão. Segundo ela, a cultura inclusiva deve se disseminar por todo o sistema de ensino. “Não podemos esperar que se resolvam todos os problemas para incluir as crianças com deficiência na escola. Esse processo precisa começar agora, ou vamos fazer o quê? Congelar o desenvolvimento de nossos filhos?”, pergunta. Fabiana observa também que as redes sociais e a nova Lei Brasileira de Inclusão deram mais poder às famílias, e a pressão sobre as escolas deve aumentar. “Não podemos deixar ninguém para trás”, conclui.

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