Os vigilantes imperiais

Com métodos de detetive, grupo controla infestação que dizimou dezoito palmeiras da aleia do Jardim Botânico

Um trio desperta estranheza entre os frequentadores do Jardim Botânico. Em vez de repetirem o ritual de passeios relaxados, como fazem cariocas e turistas maravilhados com a natureza local, Maria Lúcia Moscatelli, Marcos Nascimento e Geisler Vanil agem de forma compenetrada, munidos de lupas, mapas e recipientes de vidro. Em diligências semanais, que começam pela manhã e só terminam no fim da tarde, examinam minuciosamente cada metro quadrado do santuário, numa área equivalente a 54 campos de futebol que reúne mais de 3?300 espécies. A extrema seriedade da ação mostra que não são meros aficionados do verde. Na verdade, estão à caça de um besouro conhecido como broca, um inimigo minúsculo e com grande poder de destruição. Esse inseto é responsável pela disseminação de um fungo letal, capaz de matar em apenas dois meses uma palmeira-imperial, árvore que é o cartão-postal da cidade. Trata-se do microrganismo Ceratocystis paradoxa, que em 2002 chegou ao horto carioca após atingir palmeiras na Bahia, no Ceará e no Amapá. Em apenas quatro anos, dizimou dezoito exemplares do corredor de palmeiras que compõem as aleias do Jardim Botânico. Com alto grau de contágio e resistente a fungicidas, ele poderia levar ao colapso todas as 500 palmeiras do parque. “O único jeito de erradicar a doença é controlar a população de insetos, um trabalho que não termina nunca”, diz Maria Lúcia, pesquisadora responsável pelo controle de pragas do local. “Eliminamos pontos de aglomeração, como folhas e galhos mortos, para que não se espalhem novamente”, diz.

Divulgação

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A operação de salvamento teve início há dez anos, quando foi criado o Laboratório de Fitossanidade do Jardim Botânico. O centro é responsável por diagnosticar e controlar todos os tipos de pragas, numa tarefa altamente desafiadora. Durante a última década, os pesquisadores identificaram 751 insetos potencialmente prejudiciais aos vegetais. Para piorar, o parque sofre pressão adicional por estar em área urbana, onde não há predadores naturais. Responsável pela infestação mais grave a atingir o santuário, o fungo em questão se instala em orifícios feitos por besouros nos troncos. Em apenas dois meses pode entupir por completo os canais responsáveis por transportar a seiva da planta de sua base à copa, levando o organismo a um repentino colapso. Sem nutrientes, o topo das árvores, a 30 metros de altura, fica amarelo e apodrece até despencar sem vida.

Após a identificação do patógeno, em 2006, com a ajuda de profissionais da Universidade Federal Rural do Rio, teve início uma autêntica operação de guerra. Pesticidas foram despejados de guindastes de 40 metros de altura, mas o microrganismo mostrou-se resistente. Decidiu-se, então, pelo controle dos vetores da doença. Dois anos depois, 56 novos exemplares de palmeira-imperial foram plantados para recompor as desfalcadas aleias. O conjunto de medidas teve sucesso, e a mortalidade baixou drasticamente. O último exemplar sem vida foi retirado dali em março de 2013. “De tanto examinar, olho de longe e já sei se estão doentes”, conta Maria Lúcia. “Conheço o estado de cada um dos meus pacientes”, brinca.

Criado por dom João VI em 1808, o Jardim Botânico se insere na grande transformação provocada pelo desembarque da corte portuguesa naquele ano. Com o intuito de igualar o Rio às grandes capitais europeias, não foram economizados dinheiro nem esforço para transformar um antigo engenho de açúcar no mais exuberante jardim. Das longínquas Ilhas Maurício, no Oceano Índico, veio a primeira muda de palme­ira-imperial. Mesmo sob a ameaça de intempéries e pragas, ainda existem exemplares remanescentes do século XIX, já que seu ciclo de vida está em torno de 150 anos. Além das imponentes árvores-símbolo, o Jardim Botânico serve de abrigo a espécies em extinção, como o pau-brasil, e transformou-se em destacado centro de estudo. Atualmente, a diretoria de pesquisa científica tem 49 projetos em andamento. Seus domínios contam também com o maior herbário do país, um banco de dados onde estão disponíveis informações sobre 650?000 amostras de plantas. Com um patrimônio de valor incalculável à disposição de todos, manter afastado todo tipo de ameaça é missão árdua mas indispensável à sobrevivência do parque.

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