Convento do Carmo passará por restauro

Testemunha da história do Rio, o antigo prédio, que serviu até de moradia para uma rainha, passará por restauro

O prédio, na Avenida Primeiro de Março: telhado arruinado e estrutura infestada de cupins (Felipe Fittipaldi/Veja Rio)

Marco do período colonial, o Convento de Nossa Senhora do Carmo, localizado em frente ao Paço Imperial, resiste firme aos solavancos do progresso do Rio. Desde sua construção, no século XVII, o prédio, erguido por frades carmelitas, enfrentou tantas mudanças e usos que é surpreendente que ainda mantenha os traços originais. Em 1808, por exemplo, com a chegada da família real portuguesa ao Rio, foi desapropriado e transformado em moradia da rainha Maria I (1734-1816), apelidada de A Louca, que ali viveu até a morte, oito anos depois. Posteriormente, seus salões receberam a Biblioteca ­Real, o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, inúmeras repartições públicas e até uma universidade privada. Fechado há sete anos, o convento tornou-se patrimônio estadual e agora está sob a guarda da Procuradoria-Geral do Estado (PGE), que prepara uma grande intervenção de restauro e readequação. “Estamos terminando os projetos, e as obras devem começar até o fim do ano. Como o governo do estado não tem condições financeiras de conduzir um trabalho assim, decidimos contribuir, facilitando e ampliando o acesso à cultura”, afirma o procurador Nicola Tutungi Júnior, secretário-geral da PGE.

Escoras nas paredes em uma ala interna: risco de desabamento (Felipe Fittipaldi/Veja Rio)

Com parte do telhado destruída pela falta de manutenção, a estrutura de madeira tomada pelos cupins e desfigurada pelo último inquilino, o prédio passará pelo menos dezoito meses em obras — o custo total da restauração ainda está sendo calculado. Entretanto, uma intervenção de emergência já foi necessária para que a construção não virasse pó. Uma delicada operação de escoramento foi realizada para manter o arcabouço em pé. Garantidas as condições de segurança, pesquisadores e especialistas concluem as análises para dar forma ao projeto executivo do novo convento. A proposta é que ali sejam instalados uma biblioteca com mais de 60 000 títulos e também a reserva técnica e os arquivos do Museu da Imagem e do Som (MIS), com suas partituras, fotos e documentos históricos.

O conjunto
do paço e
o convento (ao fundo) no período colonial: complexo interligado (John Mawe/Acervo Abril)

Apesar de parecer uma construção única, o Convento do Carmo é, na verdade, um complexo formado por três prédios de épocas distintas. O mais antigo é o que tem entrada pela Rua Primeiro de Março, enfeitado com arcos e esquadrias de cantaria, marcas típicas da arquitetura portuguesa do período. “Essas construções são grandes caixas, em que o equilíbrio das paredes depende do telhado. Se não mantivermos tudo em harmonia, a estrutura não se sustentará”, explica a arquiteta Patricia Gullo, gerente responsável pela obra. A proposta da intervenção prevê que, nessa parte, tudo seja conservado e recuperado, sem alteração alguma. Nos outros dois blocos, voltados para a Rua Sete de Setembro, seriam mantidas apenas as paredes externas. O interior ganharia nova configuração a partir de um esqueleto metálico, o que garantiria um uso mais racional da estrutura.

O quarto onde viveu dona Maria I: estudos buscam as cores originais (Felipe Fittipaldi/Veja Rio)

As diferentes ocupações do convento criaram uma espécie de quebra-cabeça para os pesquisadores e restauradores. É o que acontece no quarto da rainha Maria I, mãe de dom João VI (1767-1826). Hoje com paredes amarelas, o cômodo é alvo de estudos para descobrir o estilo mais próximo ao original. Em 1964, uma equipe capitaneada por Lúcio Costa (1902-1998) já havia feito uma intervenção no local para reverter alterações datadas das mudanças urbanísticas da região central, no início do século XX. Agora, mais uma vez, o que se busca é resgatar as origens, sem deixar de lado os ganhos em funcionalidade. “É um projeto muito cuidadoso. Estou otimista com o trabalho, pois finalmente teremos um local adequado para abrigar nossos 300 000 documentos”, comemora a presidente do MIS, Rosa Maria Araújo. Em uma cidade tangida pela crise e onde a cultura tem sofrido pesadamente os impactos da falta de recursos, não deixa de ser um alento.

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