A cantada do galã

Numa guinada em sua carreira, que o levou a imergir durante um ano para aprimorar a voz, o ator José Mayer estreia como protagonista de uma superprodução musical

Os encontros de José Mayer com os produtores Charles Möeller e Claudio Botelho, apesar dos longos intervalos, sempre foram promissores. Em 2002, a dupla ficou muito bem impressionada com a audição do astro de TV para incorporar o elenco do musical Follies, do craque Stephen Sondheim, que acabou não saindo do papel, para frustração geral. Cinco anos depois, os dois novamente ficaram mesmerizados com o que viram e ouviram do artista em Um Boêmio no Céu, peça na qual Mayer entoava dez canções do compositor Catulo da Paixão Cearense (1863-1946). O espetáculo serviu para reacender o desejo de trabalharem juntos. Após longo período de descompasso, uma nova oportunidade apareceu. Encantados com o enredo de Um Violinista no Telhado, Möeller e Botelho encontraram o personagem perfeito para concretizar a parceria com o ator. Na próxima sexta (20), data da estreia da nova montagem, o galã soltará seu vozeirão no palco do Oi Casa Grande. Pela primeira vez, ele encarna o papel principal numa superprodução do gênero. “Aos 62 anos, estou adorando me sentir um aprendiz”, diz. “É péssimo quando alguém se considera um veterano, pois periga perder o gosto pela adrenalina.”

Ciente de que a acomodação é o maior obstáculo a superar diante de um desafio, Mayer deu uma guinada em sua rotina profissional assim que recebeu o convite para viver o protagonista Tevye, há cerca de um ano. Dono de um extenso currículo dramático, ele encasquetou a necessidade de aprimorar seus dotes vocais, se quisesse manter o nível de suas atuações ao longo de 43 anos de carreira, com participação em mais de cinquenta novelas, seriados, filmes e peças. Para não repetir o fiasco do colega Herson Capri, que deixou a desejar nos números musicais e acabou substituído no meio da temporada de A Noviça Rebelde, o ator se cercou de um anjo da guarda, o professor de canto Danilo Timm. Mayer fez um autêntico curso de imersão para aperfeiçoar seu timbre de barítono. Nos primeiros seis meses, o foco foi na afinação e capacitação das cordas vocais para enfrentar duas horas de espetáculo. De seis meses para cá, o treinamento concentrou-se especificamente nos oito temas que vai interpretar em cena, entre eles o conhecido If I Were a Rich Man (Se Eu Fosse um Homem Rico). Outro companheiro constante nesse processo foi o piano Fritz Dobbert que mantém no escritório de casa, herança de umas aulas de música que não vingaram. “Sou medíocre ao piano, mas ele me serve para ensaiar a afinação”, diz.

Ao contrário do que sugere o título, Um Violinista no Telhado (Fiddler on the Roof no original) não conta a história de um instrumentista performático. A expressão é uma alegoria sobre a difícil e instável situação dos judeus na Rússia czarista do início do século passado, denotando algo como “viver na corda bamba”. Ambientada na fictícia aldeia de Anatevka, no interior do país, a trama gira em torno do leiteiro Tevye e da dona de casa Golda, que passam por dificuldades para criar as cinco filhas. Com intensa presença cênica a ponto de ser comparado ao Rei Lear, de Shakespeare, o papel de protagonista costuma permitir a grandes atores exibir todo o seu potencial. Em 1964, rendeu ao comediante Zero Mostel o Prêmio Tony, considerado o Oscar do teatro americano, por sua atuação na montagem original da Broadway. Fez sucesso também a versão para o cinema lançada em 1971, com direção de Norman Jewison e o ator israelense Topol encabeçando o elenco, tal qual ele já havia feito num teatro em Londres. De carona na boa aceitação do longa, a primeira versão brasileira do texto chegou aos palcos naquele mesmo ano, com Oswaldo Loureiro e Ida Gomes na pele do casal principal. Exatamente quatro décadas depois, o novo espetáculo prima pela grandiosidade. Com custo estimado em 8 milhões de reais, ele reúne 43 artistas e dezessete músicos regidos pelo maestro Marcelo Castro. Foram confeccionados 160 figurinos e há nove trocas de cenário no desenrolar da trama, repleta de efeitos especiais, como o voo sobre o palco de uma figura fantasmagórica.

Se quiser ser bem-sucedido, Mayer vai ter de se equilibrar em meio a duas tarefas que requerem enorme dedicação. A reta final dos ensaios coincidiu com o início das leituras de texto de Fina Estampa, a próxima novela das 9, prevista para estrear em setembro. Escalado pelo autor Aguinaldo Silva para o núcleo principal do folhetim, ele será o proprietário de uma grife de moda. No momento, o que mais o aflige é a necessidade de mudar o visual para seu novo papel na TV. Por fidelidade ao leiteiro Tevye, há meses ele deixou a barba e o cabelo crescer. Já o empresário é um tipo cara limpa. Quando as gravações começarem, no fim deste mês, ele terá de resolver o dilema. “Eu transpiro demais e não tenho condições de usar peruca nem barba postiça no palco”, afirma.

A primeira vez sempre desperta alguns temores. Curiosamente, o maior receio de Mayer com relação à montagem não é ficar rouco ou conciliar o espetáculo com a novela, mas, sim, segurar as lágrimas em cena aberta. “Em certas passagens, preciso fazer um esforço enorme para não embargar a voz”, conta. Um de seus grandes incentivadores, Claudio Botelho confia cegamente na performance de Mayer. “O Brasil é pródigo em vozes femininas nos musicais, a exemplo de Marília Pêra e Bibi Ferreira, mas no elenco masculino a realidade é outra”, diz o produtor. “Pela primeira vez o público vai ver o trabalho de qualidade de um ator conhecido, que não foi escolhido por teste.” A julgar pelo que se viu nos preparativos, a aposta tem tudo para dar certo.

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