Canais de apologia ao crime fazem sucesso no YouTube

Os vídeos, produzidos nas favelas, pregam a morte de policiais, elogiam facções criminosas e exibem cenas de cadáveres como alerta a gangues rivais

As imagens são todas reais — e fortes. Primeiro, um homem aparece dando vários tiros com armamento militar do alto de uma favela carioca. Na sequência, rapazes encapuzados andam pelas vielas da comunidade ostentando fuzis e metralhadoras. Tais cenas são embaladas por um funk com versos em que são feitas ameaças à Polícia Militar e às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Com três minutos e 32 segundos, o clipe Mega Proibidão do Chapadão está ao alcance de qualquer pessoa que tenha internet. Ele foi postado sem nenhuma restrição no YouTube, o maior canal de vídeos on-line, e já tem mais de 1 milhão de visualizações. O surpreendente número de cliques é similar, por exemplo, ao alcançado pelo vídeo da atriz Giovanna Ewbank entrevistando a colega Tatá Werneck. A diferença é que fazer apologia do crime e seus autores publicamente fere o Artigo 287 do Código Penal e pode levar a detenção de três a seis meses.

(Veja Rio/Reprodução)

O exemplo acima já seria de arrepiar se se tratasse de um caso isolado. Mas há outros, muitos outros. Assim que um internauta acessa um vídeo como Mega Proibidão do Chapadão, o próprio algoritmo do YouTube lhe oferece outros com conteúdo similar. Dessa forma, quando um único vídeo é acessado é possível ter contato com uma rede de canais que enaltecem imagens explícitas do tráfico de drogas e da violência nas favelas do Rio (veja o quadro ao lado). Um dos mais populares é o Realidade dos Morros, que tem 124 000 inscritos — quase empata com o canal da Xuxa, com 134 000 seguidores. Seus vídeos já foram reproduzidos mais de 40 milhões de vezes sem nenhuma restrição pela plataforma americana.

Em nota, o Google, proprietário do YouTube, alega que, em princípio, não admite a postagem de conteúdo violento cujo objetivo seja chocar ou desrespeitar quem o vê. Mas ressalta que, se houver contexto para as imagens, como denúncia, protesto, finalidade jornalística ou documental, elas são mantidas. Segundo a empresa, não há como impor filtros prévios a vídeos como os das favelas cariocas sem cair em risco de censura. Para retirar um conteúdo do ar, é preciso que haja denúncia feita por um internauta. “O Google analisa cada denunciado. Quando existe alguma violação, removemos os vídeos. As contas são penalizadas e podem até ser encerradas.”

A delegada Daniela Terra: investigação policial com base nos vídeos (Felipe Fittipaldi/Veja Rio)

Caso o YouTube não veja irregularidade para a remoção dos clipes, a proibição só ocorre por determinação judicial. Entre os argumentos para manter no ar conteúdos que afrontam um artigo do Código Penal, a empresa diz que, por ser global, nem sempre leva em consideração peculiaridades regionais. “Não necessariamente um conteúdo ilegal no Brasil será ilegal em outros países”, explica a nota. O fato é que o crime interessa à polícia. “Após a denúncia, vamos encontrar as pessoas que estão disseminando essas mensagens na internet”, promete Daniela Terra, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática do Rio.

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