O espumante brasileiro

25 junho 2012 | deixe seu comentário (0)

Por Marcelo Copello

Com mais da metade dos prêmios amealhados pelo país lá fora, só faz aumentar o prestígio das borbulhas nacionais

O espumante brasileiro está girando o mundo, colhendo láureas em concursos internacionais, conquistando consumidores e instigando experts de várias nacionalidades. A pergunta que todos fazem é a mesma: o que leva o espumante nacional a ser tão bom? A resposta é uma conjunção de fatores históricos, naturais, sociais e mercadológicos.

 

História centenária

Não é de hoje a dedicação dos produtores brasileiros aos espumantes. Apesar de uma história bem mais antiga (a produção de vinhos no Brasil começou em 1532), foi em 1915, portanto há quase 100 anos, que espocaram as primeiras rolhas de espumantes brasileiros, com a fundação da vinícola Armando Peterlongo, a pioneira no setor.

 

Sabedora do potencial do terroir brasileiro para espumantes, a Möet Chandon construiu aqui uma vinícola em 1973, mesmo ano em que se estabeleceu na Califórnia e antes de inaugurar a sua sede na Austrália (em 1986).

 

O terroir da Serra Gaúcha

Como a região de Champagne, na França, a Serra do Rio Grande do Sul percebeu cedo que a adversidade do clima para tintos poderia, sob a ótica dos espumantes, se transformar em vantagem.

 

Principal região produtora de vinhos do país e berço do espumante brasileiro, a Serra Gaúcha localiza-se na latitude 29º Sul, com altitudes entre 400 e 800 metros. O clima é temperado sub-tropical, com verões amenos e úmidos, com chuvas de 1.700mm, temperatura média de 17ºC, umidade relativa do ar de 77%, com cerca de 2.200 horas de sol ao ano. Os solos são argilo-calcários ácidos, com boa drenagem, ricos em potássio e pobres em fósforo.

 

Tais dados mostram um terroir difícil para uvas tintas de ciclo longo, porém perfeitos para a elaboração de vinhos-base para espumantes, de baixo teor de álcool, alta acidez e ótimos aromas. Dentro da Serra Gaúcha foi regulamentada a Denominação de Origem “Vale dos Vinhedos”, que determina o uso das uvas Pinot Noir, Chardonnay e Riesling Itálico. Além destas cepas outra que merece destaque é a Moscatel, cujos espumantes leves, frescos e perfumadíssimos já conquistaram público cativo.

 

Outras regiões

Não é só da Serra Gaúcha que provém os bons espumantes brasileiros, mas de todo o Rio Grande do Sul e de outros estados do país, como a vizinha Santa Catarina e Pernambuco, no Nordeste brasileiro. Este último um terroir muito peculiar, no paralelo 8º Sul, com duas colheitas ao ano. O Vale de São Francisco, debruçado sobre os territórios pernambucano e baiano, possui clima muito quente, tropical semi-árido, e nos espumantes a vocação é para a elaboração de moscatéis mais cremosos e exuberantes, de acidez moderada.

 

Santa Catarina, por sua vez, é quase o oposto disto, com altitudes que chegam a 1.400 metros e temperatura média de 12,7oC. A colheita é até 4 meses mais tarde que no Rio Grande do Sul e as uvas chegam à grande maturidade, mantendo alto nível de acidez. As uvas utilizadas, além de Chardonnay e Pinot Noir, incluem a Cabernet Sauvignon e a Merlot, originando espumantes fresquíssimos, de acidez crocante e ótima estrutura.

Método de tomada de espuma

O método de tomada de espuma mais usado é o charmat, com segunda fermentação em tanques de inox, podendo ser um “charmat curto” (com cerca de 3 meses de tempo com as borras) ou um “longo” (com cerca de 8 ou mais meses sur lie). O método tradicional (ou champenoise) também é bastante utilizado para os produtos de mais alta gama, com alguns produtores altamente especializados neste processo.

 

Mercado

De nada adiantaria o domínio técnico e a ajuda da natureza se a resposta não viesse do consumidor. O brasileiro adora o espumante nacional e o prestigia. Esta foi a categoria que mais cresceu em nosso mercado nos últimos anos, com um crescimento de quase 100% entre 2005 e 2010 (chegando a 12,5 milhões de litros comercializados). Vale destacar o desempenho dos moscatéis que cresceram quase 300% no mesmo período, chegando a 3 milhões de litros.

 

Reconhecimento internacional

Alguns números comprovam tudo o que foi dito acima. Entre 2002 e 2011, 1.966 rótulos brasileiros receberam medalhas em concursos internacionais. Destes nada menos que 51% (ou 1.003 medalhas) foram de espumantes, um desempenho digno de um (ou vários) brinde(s)!

 

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Marcelo Copello (mcopello@bacomultimidia.com.br)

 

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Miolo – fazendo história

11 julho 2011 | 1 comentário

Por Marcelo Copello

Uma pergunta que sempre me fazem em entrevistas é sobre a qualidade do vinho brasileiro. Minha resposta já é conhecida, “o vinho brasileiro melhora a cada ano” e “caminha alguns centímetros a cada safra, em uma estrada de quilômetros”. Pois nesta semana que passou pude comprovar meu moto-perpétuo ao ver em perspectiva este percurso de evidente evolução.

A Miolo Wine Group celebrou no dia 7 de julho em São Paulo seus 9 anos de parceria com o enólogo de mais prestígio no mundo, Michel Rolland. Na ocasião Adriano Miolo (diretor superintendente da MWG) e Rolland deram uma entrevista coletiva e apresentaram as novas safras dos vinhos da empresa, na bela Casa da Fazenda no Morumbi.

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Michel Rolland e Adriano Miolo

 

Tive o privilégio de ter sido o primeiro brasileiro a entrevistar Michel Rolland em 2004, para meu então programa de TV, Vinho & Algo Mais e para a Gazeta Mercantil (esta entrevista pode ser lida em www.mardevinho.com.br/site/colunas/2004_07_16.htm ). Na ocasião, em um conversa informal depois da entrevista, perguntei em off qual ele achava ser o real potencial do Brasil para a produção de vinhos. Ele me respondeu com muita sinceridade: “realmente não sei, é cedo para dizer, me pergunte isso daqui a uns 10 anos”.  

Pois cá estamos juntos de novo 7 safras depois. Rolland e Miolo (uma empresa que nunca teve medo de investir) juntos já aprenderam muito sobre os terroirs do Brasil e sobre suas potencialidades. Neste meio tempo a Miolo fez seu dever de casa, arrancou (e isso custa caro) centenas de hectares de vinhedos no problemático sistema de latada, replantando no sistema de espaldeira, o ideal. Rolland e Miolo hoje já sabem bem melhor que castas plantar aonde, por exemplo: espumantes e Merlot na Serra Gaúcha; na Campanha Cabernet Sauvignon, castas portuguesas e Petit Verdot; em Vacaria Pinot Noir e Viognier, e no nordeste Syrah e Moscatel. Isso parece básico, mas na coletiva Rolland nos lembrou muito bem que este tipo de conhecimento (o que plantar onde) já existe há séculos na Europa, mas aqui não. “Meu avô em Bordeaux só repetia o que o avô dele fazia, não precisava pensar o que fazer, era só fazer. Aqui não temos história, estamos começando o zero, temos que pensar o que fazer. Aqui estamos fazendo história”. Falou bonito o francês.

Sede da Miolo no Vale dos Vinhedos

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A Miolo está assim escrevendo belas páginas da história do vinho brasileiro. A empresa investiu nos últimos 10 anos mais de R$ 100 milhões e hoje é a líder do mercado nacional de vinhos finos, com 12 milhões de litros ao ano e 1.200 hectares de vinhedos, todos de uvas viníferas, conduzidas pelo sistema de espaldeira.

Uma declaração interessante foi dada por Rolland quando perguntado sobre o potencial de envelhecimento dos vinhos brasileiros. A resposta (óbvia) é que ainda é cedo para julgar, pois ainda não existe histórico, mas ele acrescentou que o consumidor hoje pouco se interessa por vinhos mais velhos. “Minhas duas filhas, que podem se servir à vontade em minha adega de grandes vinhos de safras antigas e famosas, como Château Latour ou Pétrus de 1982, preferem sempre degustar vinhos mais novos, nunca com mais de 12 ou 13 anos” disse ele, me causando espanto. Ah se eu tivesse Pétrus 1982 à vontade…

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Sala de barricas na sede da Miolo

 

Os vinhos lançados no evento foram:

- RAR Viognier 2010

- RAR Pinot Noir 2010

- Bueno Paralelo 31 2009

- Bueno Cuvée Prestige 2009

- Cuvée Giuseppe Chardonnay 2009,

- Miolo Lote 43 2008

- Miolo Merlot Terroir 2009

- Gran Lovara 2006

- Miolo Millésime 2009

- Terranova Brut Rosé, Terranova Late Harvest

- Sesmarias 2008

- Quinta do Seival Castas Portuguesas 2008

- Quinta do Seival Cabernet Sauvignon 2008

Não cheguei a analisar os vinhos, pois o ambiente era inadequado para avaliações mais técnicas (degustação de pé em meio a um grande coquetel). Eu prefiro degustar às cegas, sentado e em silêncio. Farei uma análise completa em breve, em uma grande prova de vinhos nacionais. Aguardem. 

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Vinhedo em espaldeira

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Depois da coletiva, em um bate papo com Rolland lembrei a ele de nossa entrevista de 2004. Ele riu (e o riso veio bem mais fácil do que 7 ano atrás) e concordamos que o público nacional é ansioso, quer resultados já, mas que fazer vinho bom leva tempo. Pois o público nacional já pode provar hoje o resultado destes anos de trabalho e constatar uma evidente evolução. Fica agora a expectativa para a chegada dos vinhos da safra de 2011, considerada histórica pelo especialista francês.

Parabéns à Miolo, parabéns ao vinho brasileiro, continuamos firmes em nosso caminho de evolução.  

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Marcelo Copello (mcopello@bacomultimidia.com.br)

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