Feijoada e vinho – como combinar?

08 junho 2012 | 2 comentários

Por Marcelo Copello

 

O tema “harmonização” – a escolha do vinho adequado para cada prato – está muito em voga no Brasil. Busca-se aqui descobrir qual vinho seria ideal para os pratos típicos, já que não temos tradição em vinho e estas receitas historicamente não eram consumidas com vinho. O caso mais estudado é a feijoada, cartão portal da culinária verde e amarela. A feijoada tem suas origens na relação entre o senhor de engenho, muitas vezes um colonizador português, e os escravos africanos. Enquanto as melhores partes do porco iam para a casa grande, a senzala comia as o que era desprezado (pé, orelha etc). Somou-se a isso o feijão preto de origem americana, e as influencias de pratos portugueses da Estremadura, das Beiras e de Trás-os-Montes e Alto Douro, que misturam feijão (não o preto) à lingüiças, orelha e pé de porco, além de outros pratos europeus como o cassoulet (França), o cozido madrileño (Espanha) e a “casserola” milanesa (Itália). Hoje a feijoada é um cozido de feijão preto e carnes (carne seca, lombo, costela, pé, orelha, rabo, paio, lingüiça e língua de boi), temperado com pimenta vermelha, cebola, alho, azeite, louro e geralmente servida com arroz branco, fatias de laranja, couve, farofa e molho de pimenta.

 

O LOCAL E OS CONVIDADOS

Harmonização é uma ciência eminentemente prática. Reuni portanto um grupo de abnegados amantes do vinho que emprestaram seus palatos a esta experiência em um restaurante de nome bastante sugestivo. A “Casa da Feijoada” (Rua Prudente de Moraes 10, Ipanema, Rio de Janeiro), que oferece um único prato e faz fila à porta com pessoas (muitos turistas) que buscam provar a verdadeira feijoada.

 

À nossa “mesa-laboratório” sentaram-se: Embaixador António Almeida Lima – Consul Geral de Portugal no Rio de Janeiro, Solange Amado – empresária, Lauro Carvalho – enófilo, Marcelo Velloso –  empresário, e Leonardo Braga – proprietário da Casa da Feijoada.

A ESCOLHA DOS VINHOS

Escolher um vinho para acompanhar a feijoada não é tarefa banal. O prato oferece alto nível de sabor, aroma, sal e gordura, um toque de amargor do feijão preto e a picância da pimenta, em maior ou menos grau, pois esta é acrescentada a gosto na hora de comer. Escolhi uma ampla gama de vinhos portugueses:

  • Um espumante branco brut muito vivaz - Vértice Super Reserva 2000, Douro.
  • Um espumante tinto bastante usado para acompanhar o leitão da Bairrada – Raposeira Tinto 2003, Douro.
  • Um refrescante branco – Alvarinho Muros Antigos 2006, Anselmo Mendes, Minho.
  • Um tinto alentejano, moderno, macio e com madeira nova – Casa de Sabicos Reserva 2004.
  • Um tinto da Bairrada, mais tradicional, fermentado em lagares e com estágio em madeira usada - Casa de Saima Bairrada Garrafeira 2001.

 

A PRÁTICA

Como sempre faço em eventos de harmonização sugiro que todos os vinhos sejam provados antes da chegada do pratos, para mostrar como realmente o perfil do líquido muda diante da comida. Puro todos os vinhos agradaram bastante, a exceção do Raposeira, pois a união da acidez borbulhante do espumante com taninos causou estranheza.

 

A feijoada, como manda o figurino veio fumegante. Todos então comeram provando todos os vinhos e deram duas opiniões, em um agradável debate sobre a “performance” de cada caldo. O Alvarinho foi unanimemente descartado, apesar de excelente, pois sumiu diante da maior estrutura do prato. O Vértice foi muito elogiado e foi um bom companheiro para a feijoada, embora sem sinergia com o prato. O Casa de Sabicos, outro vinho muito bom, teve seu perfil madeirado e de “doçura” nos taninos e álcool exacerbado pelo prato, o que a poucos agradou, sendo elogiado apenas por Solange, uma amante dos tintos aveludados. O Bairrada encantou por sua elegância e complexidade, mas esperava-se mais taninos desde filho da Baga. Faltou-lhe impacto no paladar para enfrentar a força da carne gordurosa e, com o feijão sobrou um pouco de amargor no fim de boca. O campeão, quem diria, foi o Raposeira tinto, que puro desagradou, mas que cresceu com o prato, e mais ainda com a pimenta. Como lembrou o Sr. Embaixador António Almeida Lima, “todo casamento precisa de modéstia” e o vinho que antes mostrou-se o mais humilde era ao final o mais prendado, como uma “gata borralheira”.

 

Marcelo Copello (mcopello@bacomultimidia.com.br)

Tags: | Publicado em: Harmonizações
Comentários
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  • marcelo

    Caro Jeremias, obrigado por seu comentário. Sim, conheço bem os vinhos argentinos, para a feijoada não seria um Malbec, que é por demais macio e alcoólico, teria que ser um vinho mais taninoso e seco, talvez um Bonarda bem encorpado. Marcelo Copello

  • Jeremias Monpean

    Sr. Copello, meu nome é Jeremias e moro na Argentina na provincia de Mendoza, lugar que se desarroja a elaboraçao de vinhos Argentino. aqui en Mendoza tenho un restaurante y gostei muito do seu trabalho com a feijoada e o vinho. Aproveitando o seu conhecimento no tema eu gostaria de saber si conhece os vinhos Argentinos e cual seria o mais recomendavel para acompanhar a feijoada. aproveito para saludar.