Manifesto de pureza chileno

27 julho 2011 | 6 comentários

Por Marcelo Copello  

Esta semana conversei com Marcelo Retamal, enólogo da vinícola chilena De Martino. Já acompanho e admiro o trabalho de Retamal nesta empresa há vários anos e depois desta entrevista a admiração cresceu ainda mais.

Retamal é um dos maiores conhecedores dos terroirs do Chile e sempre esteve na vanguarda em suas viagens e pesquisas. Agora ele promete algo muito ousado, uma verdadeira revolução na De Martino. As mudanças propostas são uma espécie de “voto de pureza” contra a padronização (ou “estandarização”) dos vinhos e se darão em diversos momentos da elaboração dos vinhos, desde o vinhedo. Vejamos passo a passo os preceitos desta mudança radical de paradigma:

1-Apresentação – o que é “estandarização”

2-A Colheita

O momento da colheita é decisivo para a qualidade e o estilo de um vinho. Quanto mais tarde as uvas são colhidas mais maduras estarão e mais  alcoólico e concentrado será o vinho. Se todos os produtores do mundo colherem as uvas maduras demais, todos os vinhos ficarão muito concentrados e parecidos. Retamal propõe colher mais cedo, para ter vinhos mais frescos, mais longevos, mais gastronômicos e mais distintos. Bravo!

3-Manipulação dos Vinhedos

Retamal quer vinhedos menos manipulados, mais naturais, sustentáveis, que proporcionarão vinhos equilibrados.     

4-Leveduras

O vinho é uma bebida fermentada e o agente desta fermentação são as leveduras, que podem ser as leveduras autóctones que já estão naturalmente nas cascas das uvas ou leveduras adicionadas. A prática mais comum é o uso de “leveduras selecionadas”, ou seja, produtos adicionados ao vinho para garantir que a fermentação e os sabores sejam os desejados. Usar leveduras autoctones livra o vinho dos sabores padronizados das leveduras compradas em laboratórios, que são as mesmas mundo afora.      

5-Sangria

É prática comum para a produção de tintos mais encorpados, “sangrar” ou separar uma parte do suco/mosto ainda sem cor no início da fermentação, produzindo de um lado um rose e de outro um tinto mais escuro e encorpado.  Se todos “sagrarem” seus vinhos concentrando-os, teremos vinhos mais iguais.  

6-Madeira

O uso excessivo de barricas de carvalho para o amadurecimento dos vinhos é a maior maquiagem que um vinho pode ter e o maior fator de padronização. Marcelo Retamal está tomando uma medida radical na De Martino, não comprará mais barricas novas (de 240 litros). De agora em diante, eles usarão as barricas que já possuem para os vinhos secundários. Os vinhos principais serão todos feitos em “fudres” (grandes tonéis de 5 mil litros, que passam pouco ou nenhum sabor de madeira aos vinhos).    

A iniciativa de Retamal e da De Martino é, de certa forma, simples e não é inédita, mas vindo de uma grande empresa já estabelecida, é arriscada. Em um primeiro momento eles podem perder consumidores (pois o sabor dos vinhos fugirá ao padrão vigente), mas a longo prazo tenho certeza que este esforço será plenamente reconhecido pelos consumidores mais exigentes. Aplausos!

Marcelo Copello (mcopello@bacomultimidia.com.br)

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Carta de Vinhos: Garcia & Rodrigues

25 julho 2011 | 3 comentários

Por Marcelo Copello

Esta semana dei uma passada rápida por um clássico da gastronomia carioca, o Garcia & Rodrigues do Leblon (www.garciaerodrigues.com.br) e fiz um check-up da carta de vinhos.

Lá a qualidade do serviço é garantida pelo Sommelier João Pedro Lamonica, que me alertou que a carta está em transição, devido a mudança de donos na casa.

A carta no momento está deficiente de variedade, mas ainda oferece coisas boas. O restaurante é chique e não é barato, mas é possível beber vinho sem deixar um órgão vital como pagamento. Para quem não quer gastar muito, o que eu recomendaria da carta? Aí vai:

 

Para começar, com o couvert ou com a entrada

- Aperitivo em taça Jerez Fino Hidalgo R$ 22,00

Um clássico espanhol, bastante seco, leve, para sopas ou cremes como um gazpacho, ou para frutos do mar

- Rosé em taça – Château Virgile 2009, Costières de Nimes-França R$ 15,00

Elegante e delicado, para pratos mais leves.

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Para continuar, conforme o prato e o espírito:

- Espumante – Chandon Rosé R$ 65,00

Festivo, macio e gastronômico

- Branco – Protos Verdejo 2009, Ribera del Duero-Espanha R$ 74,00

Fresco e encorpado, untuoso e frutado, com estrutura para um bom prato de peixe,

- Tinto – Duorum Colheita 2008, Douro-Pontugal R$ 78,00

A melhor compra da carta, um belo tinto do Douro, gastronômico, com taninos e acidez, para qualquer carne do menu.

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Para encerrar

Vinho de Sobremesa em taça – Monbazillac Château Grand Marselet 2005 – R$ 22,00

Elaborado com Sémillon 70%, Sauvignon Blanc 10% e Muscadelle 20%, para sobremesas mais doces, tortas, crème brûlée ou sorvetes.  Emula um Sauternes, sem fazer feio na taça nem na conta.

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Marcelo Copello (mcopello@bacomultimidia.com.br)

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Portugal cresce no mercado brasileiro

21 julho 2011 | deixe seu comentário (0)

No ultimo dia 9 de junho a ViniPortugal promoveu uma grande prova em Curitiba. O evento festejou o crescimento das importações de vinho português para o Brasil, qie foi de 35% em apenas um ano, entre 2009-2010. Veja o vídeo que foi feito no local.


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Marcelo Copello (mcopello@bacomultimidia.com.br)

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Pesquera e pérolas

20 julho 2011 | deixe seu comentário (0)

Por Marcelo Copello

Tive na semana passada um encontro histórico com um autêntico vinhateiro: Alejandro Fernández, fundador da mítica bodega que leva seu nome, mas que é mais conhecida como PESQUERA. Em sua passagem pelo Brasil Fernández, de 78 anos, me deu a honra de uma prova de seus vinhos e um bate papo.

Um dos grandes ícones da Espanha, o Pesquera vem encantando a mais de três décadas os enófilos amantes da pureza e do estilo clássico dos tintos da terra de Cervantes.

Alejandro Fernández

 

Produzir grandes vinhos é antes de tudo produzir grandes uvas. Isso todos nós sabemos, mas às vezes esquecemos. Ao conversar com produtores o rumo da prosa nos leva a falar de tudo (mercado, exportações, enologia, barricas etc), mas por vezes deixamos de lado as duas coisas mais importantes: a essência (a matéria prima) e o objetivo (a saúde e o prazer).

Pois a conversa com Alejandro Fernández não poderia ter sido mais simples e essencial, quase naïf. Ele falou o tempo todo de suas uvas, da importância de ser natural e lembrou que o vinho é prazer e bom para o amor (momento em que levou um cutucão de sua filha Olga).

No vídeo abaixo ele fala que ser clássico é simplesmente ser natural e que, apesar de ter recebido 98 pontos de Robert Parker, não liga para pontos e seu objetivo é que qualquer trabalhados possa provar um Pesquera em uma festa em casa.

Uma das pérolas da conversa foi: “vinho doce com sobremesa não tem contraste, é como comer pão com pão”, dito ao sugerir combinar seu especialíssimo tinto “Pesquera Millenium 2002” (não disponível no Brasil), com um doce.

Outro momento raro da conversa foi quando relatou uma visita ao Château Lafite, bordalês que é um dos maiores vinhos do mundo. Na ocasião foi servido o Pesquera 1986, que foi sistematicamente batendo um a um a todos os Lafites servidos pelos anfitriões, até que um raro e caro Château Lafite 1961 foi aberto e arrasou. Segundo Alejandro este Lafite 61 foi melhor vinho de sai vida.

Atualmente Alejandro Fernández possui 4 vinícolas, a original Pesquera (em Ribera del Duero), Condado de Haza (também em Ribera del Duero), Dehesa la Granja (em Castilla y León) e El Vínculo (em La Mancha). Os vinhos provados (todos importados pela Mistral – www.mistral.com.br), foram:

Dehesa La Granja 2004, Região: Castilla y León, Preço: US$52,90

Condado de Haza 2007, Região: Ribera del Duero, Preço: US$64,90

Pesquera Crianza 2008, Região: Ribera del Duero, Preço: US$75,50

Pesquera Reserva 2007, Região: Ribera del Duero, Preço: US$109,90

El Vínculo Paraje La Golosa Gran Reserva 2002, Região: La Mancha, Preço: US$109,50

Pesquera Janus Gran Reserva 2003, Região: Ribera del Duero, Preço: US$364,50

Destaco o Dehesa La Granja 2004, como uma ótima compra, de boa relação custo-benefício, e o El Vínculo, como uma excepcional surpresa, que bateu sue irmão mais famoso, o Pesquera Reserva 2007, na mesma faixa de preço.

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Marcelo Copello (mcopello@bacomultimidia.com.br)

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Músicos mergulham no vinho

18 julho 2011 | 3 comentários

Por Marcelo Copello

Aproxima-se o aniversário de 10 anos da primeira harmonização de vinho e música do Brasil, em 2001. Na ocasião combinei tintos e brancos com o som barroco do cravo do maestro Roberto de Regina. Desde já celebro o feito lembrando que não sou o único ex-músico que se converteu ao culto de Baco.

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Roberto de Regina

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A lista dos é eno-músicos é longa, passa por vários gêneros musicais e dá a volta no planeta. Eu estudei piano clássico no Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro, cantava jazz como cover de Sinatra na noite do Rio e tive uma banda de rock que gravou um disco (de vinil!) nos anos 1980.

Meu colega inglês Charles Metcalfe, colaborador de diversas publicações e fundador do International Wine Challenge (maior concurso de vinhos do mundo) foi cantor de ópera! Músico profissional por 10 anos (entre 1976 e 1986), Charles deu concertos na Europa, EUA e Ásia. Suas viagens como cantor o levaram a colaborar com revistas de turismo e a partir daí para revistas de vinho.  Com Metcalfe fiz um trabalho importante a quatro mãos ano passado, que pode ser conferido em:  www.mardevinho.com.br/colunas/50-melhores-portugal

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Charles Metcalfe

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Seu compatriota britânico Oz Clarke, um dos mais prestigiosos escritores de vinho do planeta, teve uma carreira de ator-cantor de destaque. Como ator trabalhou com importantes companhias de teatro como a Royal Shakespeare Company e fez cinema (atuou como um ladrão no filme “Superman”, de 1978). Cantando Oz esteve em diversos musicais, como na adaptação da BBC para “O Senhor dos Anéis” e na montagem londrina da peça “Evita”, na qual interpretou Perón.

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Oz Clarke

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Menos profissional, mas não menos digna, foi a carreira musical do gaúcho Lucindo Copat, diretor técnico da Salton, um dos enólogos mais respeitados do país. Em seus tempos de estudante de enologia Copat tocava violão à noite em bares para se manter. O repertório era tipicamente brasileiro, com muita Bossa Nova. Hoje ele ainda dá umas “canjas” em eventos beneficentes.

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Lucindo Copat

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Violão também era (e é) o instrumento de João Paulo Martins, principal crítico de vinhos português. Professor de violão clássico durante 10 anos, João Paulo me confidenciou: “ainda hoje olho com ternura para a minha excelente guitarra Ramirez, mas sei que já não vou lá”. Este amante de Villa Lobos garante que sua formação musical o influencia e ajuda na forma como trabalha com os vinhos.

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João Paulo Martins

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Outro português de destaque como escritor do vinho e músico profissional atuante é Anibal Coutinho. Este engenheiro civil de formação escreve sobre vinhos nas revistas NS e Evasões, tem um guia de vinhos muito lido em Portugal, além de um programa de TV dedicado ao tema. Anibal, que estudou canto no Conservatório Nacional de Lisboa, faz shows como cantor e é membro de grupos vocais, como o Coro Gulbenkian, o Coro de Câmara de Lisboa e o Coro da Universidade de Lisboa.

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Anibal Coutinho

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O caso mais recente de um músico abraçando o vinho que tenho notícia é o de Mu Carvalho, compositor, produtor e instrumentista. Mu, que fundou A Cor do Som e hoje se dedica a trilhas sonoras da TV Globo, é agora também produtor de vinhos. Ele acaba de apresentar a primeira safra de seu vinhedo na Borgonha. Parabéns Mu!

Mu Carvalho

Château Carvalho

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A história mais curiosa dos músicos que se tornaram críticos de vinho a meu ver é a de Paul White. Este americano que hoje vive na Nova Zelândia colabora diversas publicações, como Decanter, Harpers e World of Fine Wine (Inglaterra), Wine Essência do Vinho (Portugal) e Australian Gourmet Traveller Wine.

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Paul White

O lado músico de Paul é igualmente rico e o coloca no status de autoridade no tema. Durante cerca de 20 anos (anos 1970 a 1990) Paul atuou como músico profissional, tocou fagote em orquestras (como Simphony du Marais, Academy of Ancient Music, Berkeley Baroque Orchestra, Los Angeles Baroque Orchestra etc), construiu instrumentos barrocos, deu aulas, publicou livros sobre música e fez seu PHD em “história dos instrumentos musicais” em Oxford. Foi nesta, que é a mais antiga universidade inglesa, que Paul foi contagiado pelo vírus báquico. Entre 1987 e 1992 em suas horas vagas Paul participava da equipe de degustação às cegas da universidade e acabou como capitão e depois técnico do time! Como tantos outros, Paul não resistiu ao chamado do vinho e largou a música. Será que se Paganini vivesse hoje ele trocaria seu violino por uma taça?

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Marcelo Copello (mcopello@bacomultimidia.com.br)
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