Quadrinhos harmonizam vinho e saquê

27 junho 2011 | deixe seu comentário (0)

Por Marcelo Copello

O mangá, antiga arte japonesa de histórias em quadrinhos, que remonta ao século VIII, quem diria, agora fala de vinho.

Oishinbo é o nome de uma coleção de livros de mangá que acabo de “descobrir”. O título é uma contração das palavras japonesas “oishii” (delicioso) e “kuishinbo” (gourmand). A série conta as aventuras do jornalista de gastronomia Shirō Yamaoka e sua parceira Yūko Kurita. Eles são escolhidos para criar o “menu definitivo”, a ser lançado como parte das comemorações dos 100 anos do Tozai News, jornal para o qual trabalham.  As pesquisas e investigações dos repórteres para a criação desta refeição modelo, que tem como objetivo mostrar o pináculo da cozinha japonesa, nos levam a um delicioso passeio por cada detalhe ou ingrediente do menu, em uma abordagem que une ficção à didática e ao bom humor.

Esta coleção, que foi lançada em 1983 e já conta com 14 exemplares, é um tremendo Best Seller, de mais de 100 milhões de exemplares, e já virou até série de TV. Para a alegria dos que (como eu) não lêem em japonês, desde 2009 está disponível uma tradução em inglês. A versão americana, que traz o subtítulo “a la carte”, foi resumida e reorganizada com um tema por exemplar, como “vegetais”, “sushi e sashimi”, “noodles” e “saquê” (o que acabo de ler).

Em suas 270 fluidas páginas de quadrinhos (que se lêem da direita para a esquerda), o “Oishinbo,  a la carte – Sake” – fala quase tanto de saquê quanto de vinho.  A linha mestra da narrativa é uma grande aula histórica, técnica e cultural sobre saquê, usando o vinho como contraponto. Fica evidente que há muita desinformação e preconceito a respeito da milenar bebida japonesa, mais ou menos como ocorreu com a cachaça durante muito tempo no Brasil. O consumo do saquê declina no Japão, pois para os “leigos” esta é uma bebida de segunda categoria. O saquê é subestimado principalmente por causa do “sanzoshu”, uma mistura de má qualidade de saquê, álcool e açúcar, produzida em quantidades industriais. O que quase todos degustamos achando que é o puro saquê é na realidade sanzoshu. Enquanto isso pequenos produtores fazem o verdadeiro saquê, que pode (segundo o livro) atingir o píncaro da qualidade, em estilos tão variados quanto o vinho, com rótulos que alcançam o mesmo status de raridade.

A história se desenrola com constantes comparações entre saquê e vinho, sempre reverenciando o fermentado de Baco. São citados caldos clássicos como Château Lafite, Meursault, Montrachet, Corton Charlemagne, Beaulolais Nouveau (e todos os Crus de Beaujolais), Dom Pérignon e Krug. Em um dos muitos momentos didáticos do livro (que vem com um glossário) há, por exemplo, uma aula sobre método champenoise, dada por um bartender ao protagonista. Ao mesmo tempo em que o livro venera o vinho, mostra que o saquê também tem sua nobreza e que pode superá-lo em casamentos com a culinária japonesa. Alguns dos melhores momentos do livro são passagens em que harmonizações são testadas e analisadas, enfatizando que o saquê é , assim como o vinho, uma bebida para acompanhar as refeições.

Nas entrelinhas encontra-se um quadro da moderna cultura japonesa. O alerta é dado contra o processo de ocidentalização dos costumes e suas conseqüências nocivas à maneira de se produzir e apreciar o saquê. Vale a pena uma olhada na coleção, sobretudo pelo formato e abordagem pouco comuns ao universo das bebidas.

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Marcelo Copello (mcopello@bacomultimidia.com.br)

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Best of Vinho Verde

20 junho 2011 | deixe seu comentário (0)

Por Marcelo Copello

“Hoje estou com uma destas sedes que só me satisfaz Vinho Verde” Eça de Queiroz, em “A Ilustre casa de Ramirez”.

Vinhos leves, frescos, bons e baratos é o que a região dos Vinhos Verdes, no norte de Portugal, tem a nos oferecer.  A qualidade dos vinhos desta região melhorou e não por acaso as exportações para o Brasil cresceram 118% em valor e 77% em volume em apenas 5 anos, alcançando quase 1 milhão de litros.

Estive lá no início deste mês como jurado no concurso internacional “Best of Vinho Verde”, um certame que segue regras estritas, que comentarei mais adiante. Mas antes, o que é Vinho Verde e que gosto tem?

 

Nova logomarca, lançada junto com o concurso

 

O que é Vinho Verde?

O nome “verde” oficialmente vem da paisagem verdejante da região, de vegetação exuberante. A alcunha “verde”, contudo, também é usada por muitos como antônimo de “maduro”, em referência ao estilo que deu origem aos vinhos da região. Explico:em seus primórdios os vinhos da região do Minho eram elaborados pelos lavradores de forma muito rústica A fermentação acabava na garrafa, com algum açúcar residual, o que podia gerar gás, deixando-os frisantes (como um refrigerante). O vinho branco era turvo, às vezes quase leitoso. Chegavam a amarrar as rolhas com barbantes, para não estourar, como um Champagne.

 

Estilos

Hoje o Vinho Verde segue diversos estilos. O que chamamos de Vinho Verde tradicional emula o vinho do lavrador do século XIX, porém com técnicas modernas, gerando vinhos límpidos, extremamente leves e frescos, com o típico frisante. Neste estilo recomendo os famosos Gasela e Casal Garcia, que vem melhorando sem sair do estilo tradicional, e também produtores menores, como Adega Ponte de Lima.

Outros estilos bem distintos são os Vinhos Verdes monocasta, os Alvarinhos, os rosados, espumantes e tintos. Rosados e espumantes ainda são muito pouco produzidos na região, mas são uma tendência promissora.

Os tintos são vinhos quase sempre difíceis. Sua alta acidez, bons taninos e baixo teor alcoólico os tornam vinhos ásperos, duros. Diz-se que são necessários 3 homens para beber um Vinho Verde tinto, um para beber e dois para segurá-lo. Uma exceção a este estilo é o Afros tinto, um Vinho Verde tinto “sem dor”.

Os Vinhos Verdes monocasta são brancos de maior estrutura, geralmente não frisantes, elaborados com uma única uva, com destaque para os aromáticos Loureiros e Arinto. Os Alvarinhos são um caso a parte na região. Elaborados no extremo norte do país, na fronteira com a Espanha, são brancos mais encorpados, que podem amadurecer em madeira, ou viver alguns anos na adega.

 

A entrega dos prêmios do concurso foi no belíssimo Palácio da Bolsa, no Porto

 

O que comprar

Meus produtores prediletos na região são: Anselmo Mendez (Alvarinhos excepcionais, importado pela Decanter www.decanter.com.br), Soalheiro (grandes Alvarinhos, da Mistral www.mistral.com.br), Quinta de Gomariz (ótimo Loureiro, Decanter), Adega Cooperativa de Monção (Alvarinho Deu la Deu, Barrinhas www.barrinhas.com.br), Afros (ótimos Loureiro e tinto, importado apenas na Bahia, pela Adega Tio Sam, www.adegatiosam.com.br), Quinta do Feital (Alvarinhos, Grand Cru, www.grandcru.com.br e o Quinta do Ameal (grandes Loureiros, atenção importadores, este ainda não tem representante no Brasil!)

 

 

A entrega de prêmios no Palácio da Bolsa

 

As regras do concurso

De volta ao concurso, as regras são rigorosas e proporcionaram um resultado interessante. O concurso tem 3 etapas com 3 juris, em diferentes categorias (branco, rosado, tinto, espumante, aguardentes, vinho “monocasta” e vinhos regionais). O 1º júri é constituído por 7 profissionais da região e da Câmara de Provadores da CVRVV (Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes)  – este júri provou 213 vinhos e fez uma pré-seleção dos 10 melhores de cada categoria para o 2º júri.

O 2º júri, de 12 profisisonais portugueses, pontua os vinhos e premia como «Ouro» e «Prata», o 1o e 2o classificado em cada categoria.

Finalmente o júri internacional prova os 35 vinhos mais pontuados pelo 2o juri e elege os 5 melhores, os BEST OF VINHO VERDE, indepedente da categoria. Avaliamos os vinhos as cegas na sala de provas da CVRVV, que é muito bem equipada, com uma baia separada para cada jurado, com um computador e uma pia. Os votos são computados em tempo real.

É interessante ressaltar que os votos do juri internacional foram consistentes e convergiram para os mesmos vinhos e que destes vinhos nem todos haviam ganho ouro ou prata do júri portugues. Porque isso ocorreu? Os dois jures eram de profissionais da mais alta competência. A diferença é que um era só de portugueses e outro internacional. O gosto tem um aspecto cultural fascinante, e varia imensamente de país para país.

 

Sala de Provas

 

Entrega de Prêmios

O júri internacional

  1. Michael Pleitgen (Alemanha) – Wine Akademie Berlin
  2. Marcelo Copello (Brasil) – Baco Multimidia
  3. Nick Hamilton (Canadá) – Les conseillers du vin
  4. Diane Teitelbaum (EUA) – Wine Examiner
  5. Tom Marthinsen (Noruega) – Dagens Næringsliv
  6. Luís Lopes (Portugal)- Revista de Vinhos
  7. Joachim Guenther (Suíça) – Académie du vin (Wine school, APP WSET®)
  8. Kathleen Burk (Reino Unido) – International wine and spirits judge.

 

Entrega de prêmios

Os Campeões

Os 5 campeões foram todos brancos. Não há ordem de colocação. A relação abaixo é alfabética:

- Casal de Morgade Arinto 2010, Produtor: Antonio Manuel Cardoso Teixeira Afonso, ainda sem importador.

- Casal de Morgade Azal 2010, Produtor: Antonio Manuel Cardoso Teixeira Afonso, ainda sem importador.

- Loureiro 2010, Produtor: Quinta de Gomariz, importado pela Decanter (www.decanter.com.br), custa cerca de R$ 50).

- QG 2010, Produtor: Quinta de Gomariz, importado pela Decanter (www.decanter.com.br), custa cerca de R$ 60).

- Quinta da Lixa 2010, Produtor: Soc. Agrícola Quinta da Lixa, importado por D´Olivino (www.dolivino.com.br), custa cerca de R$ 70

 

Os troféus

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Marcelo Copello (mcopello@bacomultimidia.com.br)

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Manifesto de estreia

13 junho 2011 | 8 comentários

“Este é um livro sobre vinho. Será um livro técnico para os que aqui buscarem regras e detalhes. Será, também, um livro sintético para os que lêem em diagonal. Um livro de consulta, para os objetivos e práticos.  Será, ainda, um livro intuitivo para os que funcionam assim. E um livro poético para os que têm o dom de ver a poesia das coisas. Acima de tudo, um livro alegre, embebido em alegria de viver. Espero, com este livro, mudar a vida de alguns leitores. Pretensioso? Sim, toda a paixão o é. Toda paixão é revolucionária, muda nossa visão do mundo, muda nossas vidas! Quem efetuará esta mudança não serei eu, mas a paixão por um universo novo, uma fonte inesgotável de descobertas, emoção, conhecimentos, prazeres sensoriais e filosóficos, físicos e metafísicos. Eu, indicador em riste e taça na mão, apenas aponto a direção.”

O texto acima, escrito há cerca de 15 anos para meu primeiro livro*, se encaixa perfeitamente na estreia deste BLOG, pois continuo apontando na mesma direção, o vinho, e buscando a mesma linguagem: um assemblage de informação técnica, análise, serviço e poesia, sem esquecer a função principal do vinho, prazer, saúde e emoção.

Ocasiões especiais como a estréia deste blog são celebradas com vinhos especiais. Mas qual seria meu vinho predileto? Esta é uma pergunta que sempre me fazem e que já respondi de muitas maneiras diferentes. Recentemente em uma degustação que eu apresentava, um dos participantes me fez esta pergunta e eu disse que seria um Champagne, talvez Salon ou um Krug. Ele ficou meio decepcionado, disse que esperava um tinto, e perguntou porque Champagne. Eu disse que era o que me dava mais prazer.

No fundo acho que não existe o “melhor vinho”, existe a “melhor companhia”, pois o melhor vinho é o que mais emociona e quanto mais vinhos provo vejo que a emoção vem não apenas do vinho, mas do contexto, da ocasião e principalmente do convívio que ele proporciona.

Para a celebração de hoje a companhia será você leitor, e o vinho será o Champagne KRUG. Visitei esta Maison em Reims ano passado e fiz uma breve entrevista uma das enólogas da empresa, Julie Cavil. Na ocasião provamos três jóias da empresa, o primeiro foi o Krug Clos du Mesnil 1998, o mais elegante, a pura expressão do vinhedo mais famoso da Champagne, o Clos du Mesnil. O segundo o Krug Vintage 1998, o mais intenso, uma mistura dos melhores vinhos desta grande safra. E finalmente o Krug Grad Cuvée, o mais complexo, uma mistura de vinhedos e safras. Vejam mais detalhes no vídeo.

A Maison Krug é uma das poucas casas de Champagne que fermenta seus vinhos em madeira, o que lhes garante mais corpo e complexidade.

Veja nas fotos abaixo cinco momentos da elaboração de um Krug:

O vinho base fermenta em barricas de carvalho usadas

Os vinhos de reserva repousando em cubas de inox

O momento do assemblage, quando dezenas de vinhos são misturados para compor a sinfonia de aromas e sabores do champagne

 

A segunda fermentação e o envelhecimento acontecem em garrafas e pode levar anos

A remuage (girar as garrafas para levar as borras para o gargalo) acontece em suportes chamados pupitres. Após esta operação processa-se o degorgement, a separação das borras

 

Após mais algum tempo de repouso a garrafa de Champagne finalmente é rotulada e chega até nossas taças

 Um brinde e saúde!

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