Cantagalo Pavão-Pavãozinho

01 julho 2011 | 4 comentários

A trilha de hoje não é em floresta, não é em mata fechada, não é em nenhum cartão-postal ou ponto turístico dos mais famosos, pelo menos ainda. O local já foi arborizado, já teve mata virgem, já hospedou migrantes que chegavam na cidade no início do século e já foi palco de muitos conflitos urbanos.

O passeio sugerido para este final de semana vem da experiência inusitada que vivi na semana passada fazendo a nova trilha no primeiro museu de território de favela do mundo. Percorri dois quilômetros dentro das maiores favelas da zona sul: Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, passando por 26 casas grafitadas com desenhos que retratam a história das comunidades e as culturas locais.

O roteiro chamado Circuito de Casas-Telas é um resgate de memória e foi traçado a partir de lugares simbólicos para os moradores. As artes pintadas nas paredes das casas por artistas grafiteiros como Acme, Carlos Bobi e Marcelo Eco alertam sobre as necessidades existentes dentro da favela, como os problemas na coleta de lixo e vazamento de água, mas também fazem menção as brincadeiras de crianças, a roda de samba, a tragédia ocorrida em 1983 (quando em uma forte chuva a caixa d’água despencou e matou alguns moradores), e retrata ainda a chegada dos primeiros moradores do morro, os migrantes mineiros.

A caminhada dentro da favela é guiada por um morador da comunidade, e cada obra de grafite é acompanhada por um texto inspirado na literatura do cordel. O caminho é feito entre as vielas e as ladeiras, subindo e descendo escadarias. Em vários pontos da trilha é possível parar para apreciar a vista para as praias de Ipanema e Leblon, além da Lagoa Rodrigo de Freitas e Cristo Redentor. No decorrer das quatro horas de passeio acontecem momentos de interação com os moradores locais através de pausa para uma água, um lanchinho com uma coxinha de galinha feita na hora, e até mesmo compra de artesanato. Não, não existe risco ou perigo aparente. Em nenhum momento esbarrei com homens armados ou vi cenas que não deveria ver, pelo contrário, fiquei surpresa com tamanho progresso e desenvolvimento local.

Este tipo de passeio vem atraindo a atenção de turistas estrangeiros, mas é a minha sugestão para os cariocas que também querem experimentar a realidade destas favelas.

Cantagalo e Pavão-Pavãozinho são favelas vizinhas dos bairros de Copacabana e Ipanema, na zona sul da cidade. É um dos exemplos clássicos da formação de favelas no Rio Janeiro onde a população mais pobre se instalou nos morros próximos de áreas onde a cidade mais crescia. O contraste social é muito evidente nesta parte da metrópole. Moradores de classe baixa que sofrem com a falta de infraestrutura e até pouco tempo atrás tinham que se submeter às regras de facções criminosas que comandavam o narcotráfico, estão ao lado dos bairros mais ricos da cidade. Em dezembro de 2009 foi inaugurada na região uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), prometendo aos moradores mais segurança na favela. Novos comércios e atividades culturais estão brotando nesse locais e trazendo mais vida a população local.

O conjunto formado por Cantagalo e Pavão-Pavãozinho concentra uma população de cerca de 20 mil pessoas. Uma pesquisa feita na favela de Cantagalo mostrou que 94% dos moradores têm serviços de água e esgoto e que 86% possuem telefone.

Quem leva para este passeio é a empresa de turismo Soul Brasileiro (2538-9409 – http://soulbrasileiro.com.br/) e incluiu transporte e trilha guiada. Passeio Individual (R$ 170,00), passeio duplo (R$ 130,00 por pessoa) ou para grupos com mais de três pessoas (R$ 115,00 cada).

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