Música no supermercado

29 maio 2012 | 17 comentários

Outro dia fui ao supermercado e ao lado dos legumes tinha um senhor de cabecinha branca tocando piano. Sim, tinha um piano no supermercado. Ao lado do pianista, outra cabecinha branca acompanhava a música com um chocalho e um sorriso. Na plateia, uma única pessoa: um senhor com óculos, muitas rugas e o semblante mais feliz que já vi, estalando os dedos e cantarolando a plenos pulmões os sucessos bossanovistas que saíam do teclado.
Certamente os três eram amigos. Os músicos até devem ter chamado outras pessoas, mas uma chuvinha ridícula é sempre capaz de afastar os cariocas da rua, principalmente os cariocas da Feliz Idade (como eu prefiro chamar o pessoal com mais de 70).
- Depois de velha fiquei friorenta. Pode um negócio desses? Agora ando de cachecol de lã no Rio e acho a coisa mais normal do mundo. Velhice é uma bosta, mesmo – comentou uma senhora que estava na fila do caixa, acompanhando com os pés o ritmo da música.
- Envelhecer é ruim, mas já que não tem outro jeito, vamos envelhecer felizes, porque velho rabugento é muito chato! – disse a amiga dela, que tamborilava os dedos no saco de arroz, acompanhando o sambinha do João Donato que saía do piano. – Mesmo com os estragos que a velhice faz com o corpo e a cara da gente, enquanto minha cabeça estiver boa quero viver com a mesma intensidade de quando eu era jovem.
É isso aí!, comentei em pensamento. E me pus a olhar em volta. O que eu estava vendo no supermercado era exatamente o que a senhora da fila acabara de comentar: jovens (sim, jovens!) de cabelos brancos, vestidos com a maior elegância, vivendo a vida intensamente, com um único objetivo: ser feliz, dando zero importância para a plateia vazia e para a idade que consta em suas carteiras de identidade.
Não pude deixar de pensar nos meus amigos, na ideia de tê-los sempre por perto, ou melhor, para sempre por perto. Um sorriso nasceu no meu rosto. Muito bom ver alegria legítima sob a luz fria de um supermercado. Melhor ainda perceber que nós que escolhemos os nossos caminhos e optamos ou não pela felicidade. Como dizia meu sogro, “cada um é responsável pela aventura singular de sua vida”. E estava certo, certíssimo.
Lembrei do meu avô José, que eu chamava de Nininho. Era um feliz de carteirinha. Quando ele foi pro andar de cima eu ainda tinha tantas coisas para dizer pra ele, para ouvir dele, para aprender com ele… O meu velhinho gostava tanto de mim. Tanto, tanto… Um amor tão grande, tão puro… Quando eu era pequena, era ele quem comprava figurinhas para eu completar meus álbuns, ele que me enchia de gibis, que me levava para passear pelo centro do Rio para me ensinar História brincando, que me pegava pelo braço e ia comigo pra Paquetá só pra andar de bicicleta naquela ilha gostosa, ele que contava histórias para eu dormir quando eu era pequetita, ele que abria seu melhor sorriso toda vez que me via (e olha que ele me via à beça, várias vezes por dia). E, importantíssimo, foi ele quem me ensinou a ler. E tinha tanta orgulho disso…
Às vezes, na correria do dia a dia, esquecemos os nossos avós, essas pessoas tão especiais. Como o ritmo deles é outro, podemos perder a paciência, deixar de visitar, de telefonar… e eles têm tanto pra nos ensinar, pra aprender com a gente, pra conversar, e ainda batem palmas pra tudo o que a gente faz… Morro de saudade daquele cara que me amou mais do que tudo. Como eu queria poder dizer “eu te amo” pra ele hoje. Agora. Acho que nunca disse (não com palavras, mas com gestos e atitudes eu certamente disse). Por isso, se você que está lendo esse post tem a sorte de ter avós vivos, pegue os velhinhos de jeito, encha a boca e diga: EU TE AMO!!!!! Assim mesmo, em caixa alta. E sem economizar nas exclamações. O coração deles vai agradecer. E o seu vai explodir de felicidade.

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Comentários
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  • Jordana Mendes'

    Adorei esse texto (: Assim que acabei de ler(emocionada) liguei pra casa da minha vózinha, já era domingo à noite. Sempre falo com ela, sempre vou na casa dela, sempre mesmo, todo fim de semana eu bato meu ponto lá, e com maior prazer. Por incrível que pareça esse fim de semana não deu, talvez devido ao destino, que quisesse que eu lesse esse texto e refletisse, revisse o quanto eu amo meus avós, e o quanto eles são importantes para mim. Minha avó atendeu, meu vôzinho estava dormindo, ele é bem velhinho, anda ruim, fala pouco... conversei com minha avó, perguntei como ela e meu avô estavam, como tinha sido o fim de semana, como tava a vida, ela tmb me fez perguntas, a gente ficou um bom tempo conversando ( eu adoro conversar com ela, ela é tão legal, amiga, linda, e, apesar de tudo, das doenças que tem, de ter que cuidar do meu vôzinho e de tantas outras dificuldades, ela é muito feliz, pode isso? :D ) É por isso que eu amo ela. (Falei bastante da minha avó, mas não quer dizer que não ame meu avô, amo, amo sim, e do mesmo jeito que amo minha vó, ele é muito fofinho, quando chego na casa dele ele fica tão feliz, diz que estava com saudade, se senta no sofá e pede para eu ler pra ele... eu me derreto toda, digo que ele é meu bb). Continuando: Ela disse que ninguém tinha ido lá hoje, que ela e meu avô tinham ficado o dia sozinhos, ‘’solitários’’, meu coração apertou, mas me toquei de que eu tinha feito a coisa mais certa que podia ter feito naquele momento, eu tinha ligado pra ela, dado atenção a ela, simplesmente conversado com ela, pode parecer nada, mas acho que quando eu ligo, ela se sente bem mais feliz, como se dissesse ''Poxa ela lembrou de mim''. Quando foi no final da ligação, me despedi, e claro, talvez por esse ser o maior objetivo dessa ligação, disse EU TE AMO, muitas vezes, e como de costume, pq na maioria das vezes que falo com ela eu digo isso, ela respondeu: EU TMB TE AMO, ela no início ela dizia só ‘’EU TMB’’, mas eu ensinei a ela, ''Vó, eu tmb não vale, tem quer ser: ‘’EU TMB TE AMO ’’. (:

  • Danielle

    Você é sensacional,e era tudo que eu precisava ouvir ! Obrigada! :)

  • MARCIUS VINICIUS

    Texto emocionante, saudosista... Meus avós paternos eu não lembro muito, não, eu era bem novo quando se foram, meu avô por parte de mãe era acamado e se foi também quando eu era bem criança. Mas minha avó materna eu me lembro muito bem! Morava na mesma rua que a gente, e sabia fazer doces e salgadinhos como ninguém mais fazia! Ela fazia doces e salgados para vender, eu já vendi bastante para ela, mas sempre sobrada para mim! Bolinhos de aimpim (mandioca para os paulistas!), rissoles de carne, queijo, presunto, cocadas dos mais variados sabores... Eu acho que tenho memória gustativa, pois vivi intensamente muitas outras coisas com minha avozinha, mas disso eu me lembro fortemente!

  • Mariana Carvalho Molina Cortez

    Adorei o texto, cuido da minha avó e moro com ela, então estou sempre apertando-a e dizendo o quanto eu a amo! Estou começando a escrever e descobri essa nova paixão, por isso entrei no seu blog, para conhecê-la melhor, pois irei fazer seu curso para escritores Iniciantes. Se, por um acaso, ler os meus textos espero que goste rs... Parabéns novamente!

  • Ulisses

    Apesar de ser um texto de felicidade e alegria, é extremamente triste. É um daqueles textos que a gente sorri e chora ao mesmo tempo.

  • Jéssica Soares

    Estou sem palavras... Você já disse tudo. Com certeza o seu avô está muito feliz em ver você fazer esse grande sucesso. Eu não conheci meu avô paterno e nem materno. Eles faleceram antes de eu nascer. Fico imaginando como os meus avôs. Sinto falta do que não tenho e nunca tive...

  • Ana Paula Corrêa

    Emocionante e muito humano esse texto, não conheci meus avós paternos e os maternos morreram quando eu era muito pequena, mais sempre escuto muitas histórias que me contam sobre eles, queria ter conhecido. Para suprir um pouco essa ausência da Feliz Idade, eu adotei uma vozinha em um asilo, sempre que posso visito, conto fofocas das novelas, e ouço muitas fofocas sobre as vizinhas de quarto, me divirto muito com a Vó Cecilia, quanta sabedoria, quanta pureza, bondade e amor. Lendo esse texto meu coração apertou e estou indo agora vê-la.

  • Jéssica Raiane

    Esse foi o post mais emocionante.. o que me pegou de jeito =') muito linda suas palavras, Tha. Quando vi você no programa A Máquina falando sobre seu avô, logo lembrei desse seu post e a vontade de chorar tomou conta. Muito lindo você ter falado dele nessa crônica, viu.. você é uma linda e tenho certeza que aonde seu avô estiver, ele tem o maior orgulho de você. Beijão enorme s2

  • Natália Miranda

    Nossa viajei no tempo agora me lembrando do meu lindo Pai vô. Era assim que eu o chamava. Ele era meu tudo na minha infância, me levava na escola me ajudava a fazer as tarefas todos os dias tinhamos o horário de fazer caminhada. Quando chegava a noite ele ia ver o jornal e eu ficava fazendo peteados no cabelo dele. Em todas as festinhas de dia das mães e dos pais quem ia me ver sempre era ele porque meus pais não podiam estar lá. Infelizmente ele se foi quando eu tinha 12 anos e mais uma vez fiquei sem um pai e alguém que me acompanhasse nas apresentações de escola ou buscasse meu boletim. Mas felizmente ele deixou um legado de histórias lindas vividas comigo no tempo que morei com meu Pai vô. Saudades eternas.

  • Fran

    Senti uma tristeza grande lendo isso, eu sempre fui muito carinhosa com mais avós mas a medida que fui crescendo isso mudou. Minha vó é cheia de raiva e ódio no coração, além disso faz a senhorinha fofoqueira que vive em função de cuidar da vida alheia e isso me irrita. A DECEPÇÃO NÃO SÓ É ISSO MAS É PARTE DELA.

  • Gabi Gomes

    Oi Thalita, me emocionei muito com o que você disse pois há sete meses eu perdi esse porto seguro que foi a minha vó! Sinto uma falta tão grande dela, que nem cabe em mim. Parece que isso nunca vai mudar. Além do que você disse sobre o não ter dito "eu te amo", ainda fico muito triste em lembrar que no dia que ela faleceu eu não lhe dei um beijo no rosto como todos os dias que eu passava na casa dela (estava com pressa).... Como me arrependo! Mas como dizem: somente pessoas importantes nas nossas vidas nos deixam saudades, pois nos marcaram de uma maneira muito profunda....

  • Delduque Avelino

    Que texto mais magnífico. Lindo demais. Thalita te amo muito, consegue despertar em mim todas as emoções possíveis. Obrigado por existir.

  • Cristiane

    Impossível não se emocionar com tais palavras, sinto saudades dos meus avós, fizeram a diferença na minha vida. Um abraço!

  • Jamilly Starling

    Lendo esse texto não tive como não abrir um sorriso e pensar em como é bom todos os dias antes de dormir poder dizer para meus avós um sincero: EU TE AMO. Agradeço a Deus por essas pessoas tão especiais que ele colocou na minha vida. Beijão, Thalita!

  • Paulinha

    Own q lindoo :) Tipo eu tenho meus avós maternos mas não sou muito próxima, eles tem tantos netos q eu acho q nem faço tanta diferença. Mas amo muito sim porém falta-me coragem de dizer :/

  • Mariana Martins

    Que coisa mais bonita de se ler, Tha. Estando tão longe eu percebo como sinto falta da minha bisa. Nos momentos que fico mais triste, que o coração aperta e os olhos enchem d'agua, pode ter certeza que é por ela. A ideia de passar um ano longe de casa sempre me encantou, me joguei de cabeça mesmo. Ela foi a única que me fez balançar quando, enquanto me observava terminar de arrumar as malas, me olhou com os olhinhos brilhando e disse "você vai demorar, né?". Como fica o coração? Beijocasss.

  • Dauany

    Que lindo! Eu amo demais meus avós, pena que moram longe! Parabéns Talita! Beijos!