À espera de um milagre

30 julho 2012 | 15 comentários

Desde que comecei a escrever eu recebo emails de pessoas querendo ajuda para publicar seus livros — e a cada ano que passa aumenta o número dessas mensagens. Outro dia, ao correr os olhos pela minha caixa postal, fiquei tão espantada com a quantidade de emails do gênero que fiz as contas: nos últimos sete dias, 15% das mensagens que recebi tratavam desse assunto.

Numa dessas coincidências da vida, assim que fiquei a par desse percentual o computador apitou: uma nova mensagem tinha chegado. Não era de um escritor pedindo ajuda para tentar um lugar ao sol. Era um escritor conhecido mundialmente: Paulo Coelho. No email, ele contava que tinha pedido para sua editora me mandar seu novo livro, “Manuscrito encontrado em Accra”, de presente. Assim que chegou, na primeira folheada dei de cara com a frase: ”Só é derrotado quem desiste. Todos os outros são vitoriosos”.

Voltei a pensar nos emails. O conselho seria muito útil a tantos angustiados candidatos a escritor. É muito difícil ser publicado. É mais difícil ainda vender bem depois de publicado. Posso falar isso de cadeira. Eu só comecei a ganhar algo parecido com um salário seis anos depois que decidi mergulhar de cabeça na carreira de escritora.

Grande parte das pessoas que me escrevem, entretanto, já estão pensando em desistir porque a primeira resposta foi negativa ou porque nenhuma editora respondeu ou porque não tiveram sequer coragem de mandar o primeiro original para as editoras.

Sei que o mundo está cada vez mais imediatista, mas querer alcançar um objetivo tão difícil assim, de uma hora para outra, só vai trazer frustração. Até porque, como dizem por aí, grande parte do prazer de realizar um sonho é o caminho que a gente percorre para realizá-lo. Além do mais, vamos e venhamos: quem quer ser faixa preta de judô tem que treinar (e lutar) por anos, quem quer ser médico precisa de anos de estudo, quem quer ser escritor pode muito bem ter que tentar por anos também. Como querer algo diferente?

Conversei sobre isso com uma amiga que adora citar versos de músicas para expressar sua opinião (de quem já falei aqui no blog) e ela mandou na lata: “Será que você mantém a conduta? Será que segue firme e forte na luta?”, lembrando um grande sucesso do D2.

Eu ri, como sempre, mas ela estava certa, certíssima. Insistam, sejam criativos e perseverantes. Sigam firmes e fortes na luta. Sempre vale a pena. Sempre vai ser melhor do que simplesmente desistir. Ou estamos aqui a passeio? Vale lembrar que o mesmo Paulo Coelho citado no início do post, cujo novo livro me inspirou a escrever este texto, teve os direitos de O Alquimista, seu título de maior sucesso, devolvidos a ele no começo de sua carreira. Devolvidos! Faz pensar, não faz?

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Aconteceu comigo

18 julho 2012 | 17 comentários

Numa tarde daquelas mornas, sem sal nem açúcar, chegou o tweet solar, cheio de alegria e sorrisos, vindo da Isabelle Drumond, linda e talentosa atriz/boneca, que tive o prazer de entrevistar nos meus tempos de Vídeo Show. Apesar da admiração que tenho por ela e do nosso contato “projaquiano”, nunca troquei telefone com ela. Mesmo assim sua mensagem dizia: “Ei, linda! Me liga! Tô tentando seu rádio e não consigo! Bj!”.

E assim eu, que não tenho rádio, descobri que estava sendo vítima de uma twittada fake. A Isabelle Drumond em questão era falsa, falsinha da Silva. O mesmo aconteceu quando Mayana Neiva, atriz que só conheço da televisão, se meteu numa conversa entre mim, Ana Lima, Suzana Pires e Leo Jaime. Tentávamos, como bons cariocas, marcar o chope que nunca sai quando ela se meteu na conversa para teclar: “Tô dentro! Saudade de vocês!”. E eu comigo: “Saudade de mim?! A mulher nem me conhece!”. Fake. Fake, fake, fake.

Nunca entendi esses perfis falsos. Entendo os falsos que se dizem falsos. “Sou um admirador do fulano e por isso criei um perfil fake”. Ok. Ou melhor, mais ou menos ok. Mas quando uma pessoa se apodera da identidade de outra e conversa com seus amigos virtuais como se fosse a pessoa que ela finge ser (ui! Ficou confuso? É confuso, eu sei. Perdão, leitores não conectados), aí o buraco é bem mais embaixo, como diria minha avó.

Sempre indignada com a cara de pau dos fakes e a facilidade (e o prazer) que eles têm de enganar as pessoas de boa índole, segui meu caminho nas redes sociais quietinha, divulgando eventos, compartilhando fotos, vídeos, desabafando e dividindo, como pede a cartilha dessas redes. O problema é que aconteceu comigo. Uma pessoa que garantia ser eu criou uma página no Facebook onde conversava com fãs usando internetês (coisa que eu abomino) e (meu Deus!) combinava piqueniques (isso! Piqueniques!) com meus leitores (que, vale lembrar, têm entre 9 e 16 anos, em sua maioria). Pior! A Thalita falsa ainda acusava a verdadeira aqui: “Gente, ela é falsa, não acreditem nela! Se ela continuar eu vou sair daqui. Não consigo lidar com tanta mentira”. Como diria a minha Malu, fala sério!

Avisada por uma leitora atenta descobri o perfil, que já tinha mais de três mil amigos, e senti raiva e preocupação com os que acreditavam estar falando comigo — e ainda medo do perigo que eles poderiam estar correndo. Em meus pensamentos, imaginava o pior. Podia ser um pedófilo, um desocupado, um bandido, ou só uma pessoa com um sonho muito grande de se tornar escritor. Pelo sim, pelo não, resolvi me mexer. Acionei o Facebook, pedi a ajuda dos meus leitores (e fiéis escudeiros) e a página foi, depois de alguns dias, retirada do ar.

Todo esse episódio me deixou a pensar. Como era mesmo a relação entre leitores e escritores antes da internet? Ah, as pessoas escreviam cartas, as bisavós dos emails. Aliás, acredite, emails também já são considerados antigos. Como diz a filha de um amigo meu, “Você ainda manda email? Email é coisa de velho”.

E tem mais: quem mandava uma carta para um autor, ator, apresentador, cantor ou jogador de futebol não tinha sequer como confirmar se ela tinha chegado ou se o destinatário tinha lido, só restava torcer para que ele um dia respondesse.Hoje, todo mundo que me manda emails ou mensagens por redes sociais espera uma resposta — e ela tem que ser rápida, se não imediata. Recebo mais de 100 emails por dia e leio todos, mas se eu respondesse a cada um com a atenção que todo leitor merece não teria tempo para mais nada, muito menos para escrever livros. A maioria dos leitores entende isso, mas alguns ficam chateados e até mesmo agressivos. “Por que você não me responde? Você é simpática só nas entrevistas, na vida real é uma vaca!”. Sim, já li coisas do tipo. Daí pra baixo.

Resumindo, ser conectado hoje em dia é bom, mas é ruim. Ou é ruim, mas é bom.

Pode escolher.

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É cada taxista que me aparece… 3

02 julho 2012 | 15 comentários

Cansada, com as olheiras alcançando o queixo, depois de um dia exaustivo de trabalho em São Paulo, entrei no táxi no Santos Dumont, disse para onde ia e me refestelei no banco para dar aquela descansadinha providencial. Tudo com o que eu sonhava era o silêncio e o escurinho proporcionado pelos meus olhos fechados.
Deu não…
— Tô arrependidão, a senhora sabe?
Eu devo ter uma cara muito simpática e conversada, mesmo de olhos cerrados.
⎯ Sei…
— É muita besteira que a gente faz na vida, né não?
— Ô…
— E faz sem pensar nas consequências…
Ai, gente! O que o homem fez? Traiu a mulher? Foi pego com a outra pela mulher? Foi pego pela mulher com outro cara? Um taxista? Assaltou um banco? Atropelou um cachorrinho e não deu assistência? Tirou doce da mão de pirralho?
— Eu devia ter pesquisado… Porque tudo na vida é pesquisa, né?
É? Bom, numa hora dessas a gente só concorda.
— É… Só pesquisa.
— Mas a vida é assim, né? A gente faz bobagem pra depois se arrepender.
— Não é?
— O pior é que tá doendo demais. A senhora não imagina a dor!
— Dor de amor? — sucumbi à curiosidade.
— Antes fosse! É dor de dente mesmo! — estourou. — Botei seis implantes dentários! Seis! Olha aqui, ó! — disse, virando para trás com a boca devidamente escancarada, em pleno Aterro do Flamengo. Dava pra ver até as amígdalas do sujeito.
— Arrã… Arrã… — concordei logo, para que ele voltasse a olhar para a frente.
— A senhora diz que isso é implante?
— Nã…
— Não, não diz! A senhora diz que isso tá doendo como o quê?
— Nã…
— Não, não diz! A senhora acha que valeu a pena? Não, não valeu!
— Mas já, já passa… Deve ser recente…
— Recente uma ova! Faz seis semanas hoje! Seis semanas! E eu só no analgésico! Não aguento mais!
— Que analgésico o senhor está tomando? – perguntou meu lado hipocondríaco.
Ele me ignorou.
— E sabe pra que tudo isso? A senhora sabe pra que tudo isso?
— Não… Pra que tudo isso?
— Porque eu queria ficar igual àquele cara do cinema.
— Que cara? De que cinema?
— O Jorge Cluni. O cara tem os dentinhos pequenininhos e ganha todas. Pega geral. O negócio é dentinho, dentinho! Dentão não tá com nada!
— O George Clooney não pega geral… Tem namoros longos, tem…
— Claro que pega! Todo mundo que tem dentinho pega! Dentinho faz o maior sucesso!
— O Rodrigo Lombardi é galã e nas novelas pega geral. E só tem dentão na boca. O Marcello Anthony… Dentão! O Brad Pitt , dentão, Tom Cruise, dentão também… O…
— Ah, a senhora pode parar! Pode parar! — bronqueou, irritadíssimo. — Nunca me liguei nesses caras todos. Por que a senhora não entrou nesse táxi seis semanas atrás? Eu teria desistido. Agora é tarde.
— Desculpa…
Calei a minha boca e afundei no banco.
— A senhora é casada… ou tem namorado?
— Casada.
— Há muito tempo?
— Quinze anos.
— E ele? Dentão ou dentinho?
— Dentão.
— Droga! A vida é muito injusta mesmo, viu? Essa vida não tem nenhum sentido! Nenhum sentido!
Depois desse desabafo, senti que precisava ajudar. Tentar ajudar.
— Olha só, tenho certeza que essa dor vai passar e que o senhor vai ficar muito feliz com os seus dentes novos.
— E que eu vou arrumar uma namorada?
Olha só! Então tudo aquilo, todo aquele esforço, era porque ele se sentia solitário! Deu peninha.
— E que o senhor vai arrumar uma namorada apaixonada por dentinhos!
Ele sorriu e eu fiquei orgulhosa de mim mesma, uma pessoa nitidamente iluminada, que espalha leveza e conforto por onde passa.
— E que eu vou ficar a cara do Jorge Cluni?
Aí já foi demais e não resisti: botei a minha porção adolescente para fora e mandei:
— Fala sério, taxista!

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É cada taxista que me aparece… 2

18 junho 2012 | 22 comentários

O taxista era boa-praça, daqueles que ficam felizes ao ver a passageira saindo empolgada de um happy-hour com as amigas. Dois minutos depois que eu entrei no carro, mandou na lata:
— Se eu fizer uma perguntinha a senhora me responde com toda a sinceridade?
O que dizer numa hora dessas?
— Claro que sim.
— Por favor, a senhora me diz a verdade. Do fundo do seu coração, hein!
— Pode deixar.
Suando frio, por dentro eu só pensava: “meda”, Assim mesmo, no feminino. É uma espécie de medo elevado à décima potência. Mas permaneci no salto.
— A senhora me acha gordo?
Glup!
Ele não era gordo. Ele era praticamente do tamanho de uma mesa de jantar. De 6 lugares. Não tinha como negar: ele era muito, muito gordo.
— P-por quê?
— Não, por favor, seja direta e sincera, não me responda com outra pergunta. Responda o que eu perguntei pra senhora.
Deus meu, como é que a gente sai de uma saia justa dessas?
— Olha, acima do peso… o senhor está, sim…
Mentirosa! Mentirosa! Mentirosa! O cara está muito acima do peso, o cara é gordo, Thalita! Supergordo!, brigou comigo minha consciência.
— A minha mulher quer que eu emagreça. Disse que o sexo vai ficar melhor.
— Arrã…
Veja se isso é assunto para puxar com uma passageira? Mas, calma… A história piora…
— A senhora desculpa a intimidade… mas a senhora já teve relações sexuais com gordos?
— Oi?
— A senhora já teve relações sex…
— Eu ouvi… Só achei um pouquinho pesada essa pergunta…
— Desculpa… Tem razão…
Graças a Deus! O assunto “sexo” ia morrer ali.
— A senhora já… fez amor com uma pessoa que está acima do peso? Assim ficou menos pesado, né?
Não, não ficou. E eu tive que me controlar para não rir.
— Já — respondi, com toda sinceridade. Nunca tive nada contra gordos, gordinhos ou gordões.
— Então a senhora sabe!
— Sei o quê?
— Que a gente é ótimo na cama…
— É… c-como?
Não acreditei que a conversa estava tomando aquele rumo!
— A gente é bom de cama pra caramba! — disse ele. E disse com a boca cheia de orgulho! — Não tem pra ninguém! Pode botar um sarado e um gordinho lado a lado. A gente dá de mil! Pode ficar um pouco sem fôlego às vezes, mas nós, gordinhos, somos incríveis.
Ele se achava “incrível” quando o assunto era sexo. E se considerava “gordinho”. E estava me contando isso! É o que eu chamo de pessoa trabalhada na autoestima. Será que onde ele comprou tinha mais pra vender? Eu quero, sonhei. Eu e todas as minhas amigas…
— Bom, isso é assunto pro senhor e pra sua mulher, né?
— E meu cabelo? A senhora acha que eu tô precisando fazer implante? A senhora liga pra careca?
— Eu gosto de carecas… Acho um charme.
⎯ Aí! Aí! Aí! É a quinta hoje que me diz que gosta de carecas! — vibrou. — É o que eu sempre digo: carecas são bonitos, carecas são bacanas, carecas são sacanas, carecas são modernos, carecas são espertos, carecas não gostam de dias… ensolarados… — ele cantou, parodiando a letra de Cariocas.
Era um piadista nato.
Como eu ri, continuou:
— Carecas são alegres, carecas são tão sexy, motoristas carecas não gostam de sinal fechado…
— Olha só… — comentei. — Adriana Calcanhoto que se cuide…
— Posso pedir um favor pra senhora?
Meda. Muita meda.
— P…pode…
— A senhora se importa de ligar pra Filomena e falar pra ela que a senhora gosta de carecas?
— Ã? Quem é Filomena?
— Minha esposa. Preciso convencer a mulher de que implante é coisa cara… É pra gente rica… A senhora pode? – perguntou, já discando no celular. – Alô! Filó? Peraí que tenho uma passageira que pediu para falar com você, bombonzinho da minha vida!
E eu falei. Eu falei com a Filomena!!! Ela era uma simpatia. E, coitada, contou que eu era a quinta desconhecida que ligava pra dizer que implante era coisa cara, que carecas são o máximo e que gordos na cama são um espetáculo.
Ainda bem que ela não era ciumenta.

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É cada taxista que me aparece…

11 junho 2012 | 20 comentários

Motoristas de táxi são imprevisíveis. Às vezes dirigem feito loucos, outras andam na velocidade de um cágado, uns falam muito, outros falam nada, uns só reclamam da vida, outros apostam na gaiatice para fazer o passageiro rir… Entre os tagarelas, há os que só sabem monologar sobre política, com uma rabugice atrás da outra, há os que puxam assunto mesmo quando você está com a cara literalmente enfiada no celular, passando a nítida mensagem “quero ficar quietinha”…

Esses encontros muitas vezes são inusitados. Você, passageiro, está ali convivendo com uma pessoa que provavelmente só vai ver uma vez na vida por 10, 15 minutos (às vezes 35, 40, vá lá, do jeito que anda o trânsito no Rio de Janeiro). Eles pedem opinião, metem o bedelho na nossa vida, fazem a gente sorrir… E dão dicas de filmes, livros, músicas, comentam a novela da vez… Motorista de táxi, assim como o futebol, é uma caixinha de surpresas.

O trajeto era Barra-Botafogo, ou seja, havia tempo para muita conversa. Eu estava olhando a paisagem quando, do nada, o motorista começou a cantar, com pinta de tenor. Coisa bonita, coisa de Deus. A música? Strangers in the Night, famosa na voz do Frank Sinatra, num inglês embromation para ninguém botar defeito.

— A senhora prefere que eu continue cantando ou quer que eu bote um DVD de música?
— Adorei o senhor cantando, mas para poupar sua voz vamos de DVD — sugeri, diplomática.

Começou a tocar uma música sobre felicidade que quase me fez chorar — de tristeza. Era ruim demais da conta! Pedi, gentilmente, com minha fofura habitual, para que ele tirasse o DVD dos pagodeiros dos quais nunca tinha ouvido falar.
— Preciso fazer uns telefonemas importantes — justifiquei, contando uma mentirinha branca. Só queria dar sossego para os meus queridos ouvidos.
Para minha surpresa… O motorista chorou. Mas chorou muito. Pense numa pessoa abrindo o berreiro. Multiplique por sete e eis aí o taxista que me levava para a Rua da Passagem.
— Desculpa, moço, mil desculpas! Pode botar de novo! Os meus telefonemas podem esperar! Bota de novo! Tava tão bom! — reagi, com pena. Vai que um dos pagodeiros era parente do motorista?
Enxugando as lágrimas, ele aproveitou pra lavar a alma. Num fôlego só, abriu o coração:
— A minha filha deu prum mané, minha senhora. Prum mané! Sabe mané?
— S-sei…
— Pois é. Um mané tirou a virgindade da minha menina! Um mané! — disse, soluçando. — A senhora me desculpa o desabafo mas… minha filha é uma menina! Não era pra fazer essas coisas agora!

Uia! Que situação! Que situação!

— Ai, meu Deus! Ela é muito novinha, é?
— Um bebê! E o cara é um mané! Um man…
— Um mané, eu entendi…
— Além de torcer pro Vasco, o cara usa camiseta regata, com o sovaco todo de fora, aqueles pelos todos aparecendo.
— Ah, eu também sou contra camiseta regata. Acho que homem não pode levar o sovaco pra passear. Devia ser proibido.
— Pois é! Em dia de churrasco em casa, com a patroa e as crianças, tudo bem, ok. Em dia de academia, tudo bem também… Mas na rua? Na rua? Em jogo de futebol?

Ah, eu não concordo! Eu não entendo regata, não concordo com regata. Nem em dia de churrasco, nem na academia. Mas ele não queria saber da minha implicância. Queria mesmo é desabafar.

— E ele hidrata o sovaco, a senhora acredita?
— Sério?
— Sério! O mané passa hidratante no sovaco. E CONTA para todo mundo que passa hidratante no sovaco!
— E esse hidratante é daqui ou é de fora? Tem cheiro? O senhor sabe o nome? — perguntei, quase comentando com ele que o meu sovaco, digo, a minha axila (sou uma moça fina e moças finas não têm sovaco, têm axila), andava meio ressecado.

Já estava com a caneta na mão, pronta para anotar a resposta.

— Não importa, dona! Isso é o que menos importa! O que importa é que além de hidratar aquela sovaca horrorosa (foi, foi sovaca a “palavra” dita pelo motorista), o mané quando toma banho passa condicionador e xampu nos pelos que saem da porcaria daquela sovaca, dona! E ainda teve coragem de dizer que se pudesse ele faria progressiva nos pelos! Progressiva, minha senhora! Na sovaca peluda! Agora a senhora vê se pode um negócio desses!
— Não… Não pode… ⎯ verbalizei, sem nada melhor para verbalizar.
— A senhora acha que é coisa de macho um mané passar hidratante na sovaca?
— Olha, acho que a sexualidade não tem nada a ver com…
— Dona, esse cara, que quer ser DJ, veja bem!, DJ!, coisa que qualquer celebridade de quinta faz, tirou a virgindade da minha menina!

Resolvi não enveredar pela discussão sobre a profissão de DJ.

— Quantos anos ela tem?
— Dezenove!
— Mas ela não é um bebê!
— Pra mim é! Pra mim é! A senhora tem filhos?
— Não.
— Então fica quieta, dona! Se a senhora não entende, por favor não julga, não julga!
— Mas eu não tô julg…
— Desculpa, dona, desculpa… Eu tô nervoso…
— Tudo bem.
— Os filhos são nossos eternos bebês. Eternos bebês…

E abriu a torneirinha de novo. Uma cachoeira caía dos seus olhos pequenos e magoados. Dei a ele um lenço de papel. Ele agradeceu.
E chorou mais. E mais alto. Provavelmente muito mais alto do que sua “bebê” jamais chorara. Eu já não sabia mais o que dizer e fui salva por um amigo que ligou e ficou comigo no telefone até que eu chegasse ao meu destino.
Fiquei mal de não poder ajudar aquele homem tão angustiado. Mas ele não queria meus conselhos. Ele só queria chorar. E chorou até o fim do trajeto.
Depois de me dar o troco, ele me ofereceu um cartão, já com o semblante mais aliviado.
— Atendo fim de semana, alta madrugada… Faço qualquer negócio. Se precisar, é só ligar.

Pensei em perguntar se podia ligar no dia seguinte só para saber o nome do tal hidratante de axilas, mas achei melhor deixar para lá.

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