Motoristas de táxi são imprevisíveis. Às vezes dirigem feito loucos, outras andam na velocidade de um cágado, uns falam muito, outros falam nada, uns só reclamam da vida, outros apostam na gaiatice para fazer o passageiro rir… Entre os tagarelas, há os que só sabem monologar sobre política, com uma rabugice atrás da outra, há os que puxam assunto mesmo quando você está com a cara literalmente enfiada no celular, passando a nítida mensagem “quero ficar quietinha”…
Esses encontros muitas vezes são inusitados. Você, passageiro, está ali convivendo com uma pessoa que provavelmente só vai ver uma vez na vida por 10, 15 minutos (às vezes 35, 40, vá lá, do jeito que anda o trânsito no Rio de Janeiro). Eles pedem opinião, metem o bedelho na nossa vida, fazem a gente sorrir… E dão dicas de filmes, livros, músicas, comentam a novela da vez… Motorista de táxi, assim como o futebol, é uma caixinha de surpresas.
O trajeto era Barra-Botafogo, ou seja, havia tempo para muita conversa. Eu estava olhando a paisagem quando, do nada, o motorista começou a cantar, com pinta de tenor. Coisa bonita, coisa de Deus. A música? Strangers in the Night, famosa na voz do Frank Sinatra, num inglês embromation para ninguém botar defeito.
— A senhora prefere que eu continue cantando ou quer que eu bote um DVD de música?
— Adorei o senhor cantando, mas para poupar sua voz vamos de DVD — sugeri, diplomática.
Começou a tocar uma música sobre felicidade que quase me fez chorar — de tristeza. Era ruim demais da conta! Pedi, gentilmente, com minha fofura habitual, para que ele tirasse o DVD dos pagodeiros dos quais nunca tinha ouvido falar.
— Preciso fazer uns telefonemas importantes — justifiquei, contando uma mentirinha branca. Só queria dar sossego para os meus queridos ouvidos.
Para minha surpresa… O motorista chorou. Mas chorou muito. Pense numa pessoa abrindo o berreiro. Multiplique por sete e eis aí o taxista que me levava para a Rua da Passagem.
— Desculpa, moço, mil desculpas! Pode botar de novo! Os meus telefonemas podem esperar! Bota de novo! Tava tão bom! — reagi, com pena. Vai que um dos pagodeiros era parente do motorista?
Enxugando as lágrimas, ele aproveitou pra lavar a alma. Num fôlego só, abriu o coração:
— A minha filha deu prum mané, minha senhora. Prum mané! Sabe mané?
— S-sei…
— Pois é. Um mané tirou a virgindade da minha menina! Um mané! — disse, soluçando. — A senhora me desculpa o desabafo mas… minha filha é uma menina! Não era pra fazer essas coisas agora!
Uia! Que situação! Que situação!
— Ai, meu Deus! Ela é muito novinha, é?
— Um bebê! E o cara é um mané! Um man…
— Um mané, eu entendi…
— Além de torcer pro Vasco, o cara usa camiseta regata, com o sovaco todo de fora, aqueles pelos todos aparecendo.
— Ah, eu também sou contra camiseta regata. Acho que homem não pode levar o sovaco pra passear. Devia ser proibido.
— Pois é! Em dia de churrasco em casa, com a patroa e as crianças, tudo bem, ok. Em dia de academia, tudo bem também… Mas na rua? Na rua? Em jogo de futebol?
Ah, eu não concordo! Eu não entendo regata, não concordo com regata. Nem em dia de churrasco, nem na academia. Mas ele não queria saber da minha implicância. Queria mesmo é desabafar.
— E ele hidrata o sovaco, a senhora acredita?
— Sério?
— Sério! O mané passa hidratante no sovaco. E CONTA para todo mundo que passa hidratante no sovaco!
— E esse hidratante é daqui ou é de fora? Tem cheiro? O senhor sabe o nome? — perguntei, quase comentando com ele que o meu sovaco, digo, a minha axila (sou uma moça fina e moças finas não têm sovaco, têm axila), andava meio ressecado.
Já estava com a caneta na mão, pronta para anotar a resposta.
— Não importa, dona! Isso é o que menos importa! O que importa é que além de hidratar aquela sovaca horrorosa (foi, foi sovaca a “palavra” dita pelo motorista), o mané quando toma banho passa condicionador e xampu nos pelos que saem da porcaria daquela sovaca, dona! E ainda teve coragem de dizer que se pudesse ele faria progressiva nos pelos! Progressiva, minha senhora! Na sovaca peluda! Agora a senhora vê se pode um negócio desses!
— Não… Não pode… ⎯ verbalizei, sem nada melhor para verbalizar.
— A senhora acha que é coisa de macho um mané passar hidratante na sovaca?
— Olha, acho que a sexualidade não tem nada a ver com…
— Dona, esse cara, que quer ser DJ, veja bem!, DJ!, coisa que qualquer celebridade de quinta faz, tirou a virgindade da minha menina!
Resolvi não enveredar pela discussão sobre a profissão de DJ.
— Quantos anos ela tem?
— Dezenove!
— Mas ela não é um bebê!
— Pra mim é! Pra mim é! A senhora tem filhos?
— Não.
— Então fica quieta, dona! Se a senhora não entende, por favor não julga, não julga!
— Mas eu não tô julg…
— Desculpa, dona, desculpa… Eu tô nervoso…
— Tudo bem.
— Os filhos são nossos eternos bebês. Eternos bebês…
E abriu a torneirinha de novo. Uma cachoeira caía dos seus olhos pequenos e magoados. Dei a ele um lenço de papel. Ele agradeceu.
E chorou mais. E mais alto. Provavelmente muito mais alto do que sua “bebê” jamais chorara. Eu já não sabia mais o que dizer e fui salva por um amigo que ligou e ficou comigo no telefone até que eu chegasse ao meu destino.
Fiquei mal de não poder ajudar aquele homem tão angustiado. Mas ele não queria meus conselhos. Ele só queria chorar. E chorou até o fim do trajeto.
Depois de me dar o troco, ele me ofereceu um cartão, já com o semblante mais aliviado.
— Atendo fim de semana, alta madrugada… Faço qualquer negócio. Se precisar, é só ligar.
Pensei em perguntar se podia ligar no dia seguinte só para saber o nome do tal hidratante de axilas, mas achei melhor deixar para lá.