A Lista de Frankfurt

18 março 2013 | 3 comentários

De férias, flanando pelas ruelas do Porto num dia chuvoso, toca o telefone e meu amigo do outro lado da linha dispara, sem nem dizer alô:

- Posso saber por que você não está nesse diacho dessa lista? Como é que você não vai para a Feira de Frankfurt?

Claro que vou a Frankfurt, logo tratei de explicar. Publico meus livros em Portugal há alguns anos, recentemente fechei contrato para lançar dois deles na América Latina e meu maior sonho é vê-los espalhados por livrarias de vários países. Assim sendo, ir à feira de Frankfurt, para mim, não é um passeio, é um investimento, é negócio. Ainda mais com o Brasil homenageado. Imagina se eu perderia essa oportunidade!

Angustiado por conta da divulgação da lista de escritores que vão à feira representando o país, o meu querido amigo não se deu por satisfeito.

- Por que você não vai como convidada oficial? – quis saber.

Respondi que listas e polêmicas andam de mãos dadas há muito tempo e que se coubesse a mim a escolha dos escritores para Frankfurt, eu certamente receberia inúmeras críticas assim que divulgasse os nomes. Qualquer lista receberia.

- O importante é que nossa literatura infantojuvenil está muito bem representada.

- Mas acho que estar numa lista dessas é como um prêmio, e por mim você merecia ganhar, você não ganha nunca! – reclamou.

Ah! Amigos… Esses seres tão parciais e especiais. Desconfio que torcem tanto para que eu ganhe um prêmio só para termos um pretexto para abrir um bom vinho e festejar com muitas risadas, eles sabem que sou festeira.

O fato é que a frase “Não ganha nunca” ecoou na minha cabeça. Realmente não ganhei grandes prêmios literários, nem sequer fui indicada a eles. Mas dizer que não ganhei prêmios nos meus 13 anos de carreira seria uma mentira deslavada. Se prêmios são reconhecimento, homenagens que rendem momentos de emoção e alegria, já ganhei inúmeros. Uma avó que me diz, com a voz trêmula, “você ensinou minhas três netas a gostar de ler” é um exemplo de prêmio. Lágrimas, abraços apertados e agradecimentos sussurrados de leitores e seus pais também têm o poder de me fazer caminhar nas nuvens. Ou seja, a cada evento que faço me sinto premiada.

- Isso é bacana e tal, mas e o reconhecimento dos escritores? – insistiu meu amigo, ainda injuriado.

Não posso dizer que meu trabalho não é reconhecido. Tenho muito orgulho de ter ouvido elogios de nomes como Ziraldo, Pedro Bandeira e Mauricio de Sousa, ídolos desde que me entendo por gente. O pai da Mônica, inclusive, me convidou para escrever um livro com ele. Quer reconhecimento maior do que esse?

- Tá bem, entendo. Mas eu, se fosse você, reclamava dessa seleção. Botava a boca no trombone – instigou.

Vou reclamar de quê, gente?

Não, não tenho nada a reclamar da lista. Ela é ótima e o Brasil vai fazer bonito na Alemanha. O importante é divulgar a nossa literatura mundo afora e estimular o hábito de ler. O resto é detalhe.

Mas, aqui entre nós, que eu trocaria uns nomes, ah… eu trocaria.

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Minnie vaca

11 março 2013 | 10 comentários

Quando fui a Orlando um tempo atrás, com amigas queridas e seus respectivos filhotes, realizei um sonho de criança: jantei com Mickey e companhia. A expectativa era grande, o coração batia, o sorriso brotava sem eu perceber só com a ideia de que em poucos minutos eu veria minha maior paixão, o mal-humorado mais gostoso do planeta: Pato Donald. Ansiosa, quicando, eu parecia ter oito anos de idade. E a sorte é que estava com amigas tão bobas quanto eu quando o assunto é o mundo mágico criado por Walt Disney.

Chegou a hora. Os personagens adentraram o recinto e Pateta logo veio fazer graça na nossa mesa. Cao, meu marido, que não estava no mesmo clima infantil, custou a acreditar nos pulinhos que eu, Maíz e Vanynha demos ao ver aquele maravilhoso gigante bocó.

- Vocês sabem que tem uma pessoa suando dentro dessa roupa, né? Que deve estar de saco cheio fazendo isso há horas, deve xingar essa fantasia pesada e provavelmente odeia o Pateta e todo o complexo Disney.

Ignoramos o Cao e sua total falta de sensibilidade.

Quando vi que a Margarida estava dando atenção demasiada a uma outra mesa, estrilei:

- Ei! Por que ela está demorando horas lá? Eu quero a Margarida aqui!

- A mesa está cheia de crianças. Crianças que devem ter seis anos. Elas merecem ficar mais tempo com a Margarida, não acha? – debochou Cao.

- Claro que não. Por que crianças têm regalia? Só por serem crianças? Era só o que faltava! Idade é um número, a Margarida não pode discriminar a gente por causa de um número!

- A gente tá na Disney! Disney é para crianças!

- Não é! – respondemos em coro eu, Maíz e Vanynha.

- É sim!

- Não é, não! – repetimos.

Cao desistiu. Era muita mulher com alma de criança numa mesma mesa.

Ao fim da noite, fotos tiradas com todos os personagens, só faltava a Minnie. Confesso que sempre ignorei a Minnie. E até a Margarida, que eu tanto queria que me desse atenção. Gosto é do Donald e do Pateta. O Mickey é muito certinho, muito mauricinho. Não amo. Mas também não desamo.

Minnie chegou com cara de poucos amigos. Parecia com pressa, devia ter um programa marcado, a vaca. Comentei com Cao o jeito blasé de Minnie Mouse.

- Ela não é vaca, é rata. E a cara dela não mexe!  Como é que pode estar com ‘cara de poucos amigos’? – perguntou meu marido, exaltado.

- Meu Deus, mas será que você não sente o clima? – rebati na hora.

Minnie tirou fotos de forma protocolar, pouco interagiu conosco e se recusou a repetir uma foto com Maíz, sua fã de carteirinha. Ficamos decepcionadas.

Vanynha não deixou barato e reclamou com o gerente sobre o péssimo comportamento de Minnie Mouse. Que nós estávamos ali no último horário do jantar, mas que isso não era motivo para sermos maltratadas, ignoradas; que éramos adultas sem crianças, mas que isso também não justificava. O gerente deu toda a razão a Vanynha, pediu desculpas, chamou a Minnie de novo, tiramos fotos com ela e sem ela, ganhamos brindes. No fim das contas, foi até bom a Minnie ser vaca com a gente.

No dia seguinte, Bia, minha afilhada e coisa mais linda do mundo, quis saber como tinha sido meu jantar com a turma do Mickey.

- Foi bacana, Bia. Mas a Minnie é péssima.

- Por quê, dinda?

- Porque a Minnie foi uma vaca comigo e com as minhas amigas.

- A Minnie? – perguntou, boca aberta, mãos no rosto, fisionomia entre chocada e decepcionada.

Droga! Falei com uma criança como se eu tivesse a idade dela. E nem me dei conta. Precisava consertar o estrago. Até porque Roberta, mãe da Bia, arregalou tanto os olhos que fiquei com medo.

- Como é que a dinda vai explicar? Não é a Minnie, a dinda não gostou da pessoa que estava dentro da Minnie, sabe?

Roberta arregalou mais ainda os olhos, queria me fulminar com eles. Eu não estava indo bem…

-  Tem uma pessoa dentro da Minnie? Que pessoa? A Minnie é uma pessoa, dinda!

- Não! A Minnie é um personagem.

- Quer dizer que a Minnie não existe?

- Claro que existe. Existe mas não existe, entendeu? – suei frio.

Meu Deus! Alguém tinha uma rolha GG para tapar a minha boca? Roberta não tinha, mas agiu.

- Vamos pegar mais ovinho mexido, filha? – perguntou, tirando a pequena da mesa e rangendo os dentes na minha direção.

Ainda bem que não me botou de castigo. Estava vendo a hora em que ela diria pra mim, enérgica: “Sem parque hoje. E sem televisão! Vai ficar sozinha no quarto pensando no que fez!”.

Voltaram.

- Mas o que a Minnie fez com você, dinda?

Ai, meu Deus! Ela não tinha esquecido! Eu precisava falar o mínimo possível. Estava a ponto de traumatizar a criança.

- Foi grossa.

Roberta arregalou os olhos de novo. Vai ver não gostou da palavra. Troquei por outra.

- Antipática.

- O que é antipática?

- O oposto de simpática.

- O que é simpática?

- Uma pessoa simpática é uma pessoa… legal. Legal, isso!

- Por que a Minnie não foi legal com você? Logo com você, dinda… – quis saber, desolada.

Tadinha!

Não sabia mais o que dizer. Por que as crianças fazem tantas perguntas? Eu não podia mentir pra ela.

- Não sei. Ela certamente tinha algum programa marcado, estava com pressa pra ir embora.

- Programa com o Mickey?

- Devia ser. Um cinema, sei lá.

- Que filme eles iam ver?

- Ah, Bia. Ela mal falou comigo, como é que eu vou saber?

Crianças…

Uma outra pirralha sentada na mesa chamou a atenção da minha afilhada e ela parou de fazer perguntas. Ufa! Só então lembrei que não sei falar com crianças. Na verdade, sou uma tragédia falando com crianças.

Quando achei que o episódio da Minnie vaca estava enterrado, quase dois anos depois Bia perguntou, do nada, durante um almoço:

- Por que a Minnie não foi legal com você, dinda?

- A Minnie não foi legal com você? – reforçou a avó da Bia.

Roberta arregalou de novo os olhos pra mim, já prevendo um novo desastre. Glup!

- Filha, lembra que você foi malcriada com a mamãe outro dia? E que quando a mamãe perguntou por que você estava agindo daquele jeito você disse que estava cansada? Então… Foi isso que aconteceu. A Minnie devia estar com soninho. Só isso – explicou, encerrando de vez o assunto, arregalando de novo os olhos para mim e dizendo com eles: “Nem mais uma palavra! Ai, ai, ai!”.

Obedeci, calei a boca. E graças ao bom Deus a Roberta não me botou de castigo.

 

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A cigana (não) leu o meu destino

26 fevereiro 2013 | 8 comentários

Lá pelos meus 19, 20 anos, eu era louca para saber detalhes do meu futuro. E fazia de tudo para isso. Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante. E astrólogo, tarólogo, numerólogo. O tempo passou, as previsões não aconteceram e jurei para mim mesma que nunca mais iria a um adivinho.

Nunca mais durou até o mês passado, quando me rendi à curiosidade depois de ouvir maravilhas sobre uma tal cigana do Humaitá. Cigana para os não-iniciados — ela realmente não gosta de ser chamada assim. Prefere se apresentar como quiromante. Quis saber a diferença, já que ambos fazem a leitura da mão.

- Cigana é cigana, quiromante é quiromante – tentou explicar, no dia que fui ao seu…vamos chamar de… escritório.

Tenho um estilo que flerta com uma espécie de patricice despretensiosa e uma peruice comedida (se é que existe uma perua comedida. Existe. Eu sou assim às vezes. Sou sim, pronto, falei). Também ataco de periguete elegante (sim, isso também existe) em alguns momentos, com shortinho, blusinha larga e sapatilha. No dia da… hum… consulta,  resolvi me vestir como jamais me vestiria. A intenção era que a leitora de mãos não “lesse” minha personalidade através da minha aparência.

Peguei emprestado de uma amiga um brincão desses de feirinha, arrumei uma sandália de dedos de couro com outra, comprei uma bolsa de franjas bem baratinha, vesti uma saia comprida vagabunda, combinei com uma blusa tie-dye e, com o cabelo desgrenhado, óculos escuros redondos e zero maquiagem, parti rumo ao futuro.

- Juraly vê paz – foi a primeira coisa que ela disse ao olhar para a minha mão. – Você tem muita paz, sabe?

- Sei. Eu sou a paz – reagi, tentando ser engraçadinha. –  Mas quem é Juraly? Uma entidade que está perto de você dizendo coisas sobre mim?

- Juraly não trabalha com entidades. Juraly não é macumbeira. Juraly não terceiriza. Juraly sou eu. E você não é a paz, você tem paz. É diferente, sabe?

Uia! Juraly falava na terceira pessoa. E Thalita se irrita profundamente com quem fala na terceira pessoa.

- Paz é Buda, cachoeira, hare-krishna, terra batida, biscoito recheado, sabe?

- S-sei…

- Peixe.

- Hum… Elefante!

Tentei, embarcando no que achei que era um jogo de adivinhação de animais.

- Não, menina! Juraly vê peixe! Peixe!

- Onde?

- Na sua mão!

- Por quê? Nem tenho peixe! Não gosto de bicho preso.

- Não tem peixe mas mora perto de onde tem, sabe?

Que frase ridícula. Estávamos na Zona Sul do Rio, de onde provavelmente vinha a maior parte de sua clientela. E Zona Sul é perto do mar. E mar tem peixe. Mas tudo bem. Ela seguiu em frente.

- Tenho certeza de que sua casa tem peixe perto. E peixe é bom, peixe é sorte, sabe? Você é uma pessoa de sorte, sabe? A sorte te acompanha sempre, sabe?

Ah, era isso que ela estava tentando me dizer, sabe?  Resolvi dar corda.

- Falando em peixe, queria saber da minha tartaruguinha, a Telúrica… Ando preocupada com ela.

- Fique tranquila. A tartaruga não vai morrer. É só uma doença passageira.

A única tartaruguinha que tive morreu há muito tempo. E por minha culpa. Eu mesma assassinei a coitada quando tinha uns oito anos. E se chamava Adamastor, não Telúrica. Joguei a pobrezinha do décimo andar na esperança de, como nos desenhos animados, sair correndo pelas escadas e resgatá-la antes de ela se esborrachar no chão. Fui impedida pelos meus avós de sair do apartamento. Ela morreu atrapalhando o tráfego e eu chorei por dias. Depois ganhei um pinto. Que também morreu. Eu não matei. A minha avó matou. Mas essa é outra história.

- Sua relação com bichos é muito bonita.

- Eu não tenho nenhuma relação com bichos.

- Tem sim. Tanto que sua beleza lembra a de um bicho.

- Que bicho? – perguntei, entre curiosa e irritada.

- Uma rã. Juraly está aqui olhando pra você e pensando: rã.

Tá de saca, né?, eu quis dizer. Não disse.

- Juraly está vendo você num sítio lotado de crianças. Você trabalha em uma creche?

- Não. Trabalho sozinha, mas para adolescentes – respondi, dando uma chance a ela.

- Então vai trabalhar cercada de crianças num lugar verde e distante de tudo. Seu futuro é esse.

- Creche? Crianças? Sítio? Não! E meus adolescentes? O meu trabalho com eles?

- Esquece. Não vai te levar a lugar nenhum, sabe?

Fiquei quieta. E muito injuriada  por saber que aquelazinha ia levar meu dinheiro sem merecimento nenhum.

- Palhaço – disse Juraly, séria.

- Circo?

- Pa-lha-ço!

- Meu Deus, como você é enigmática!

- O seu próximo namorado vai ser um palhaço. Não vai durar mais que cinco semanas, sabe?

- Um palhaço de verdade, um sujeito engraçado ou um mané?

- Um mané – ela optou, afinal a probabilidade era muito maior.

- Eu sou casada – contei, vitoriosa ao ver que ela caiu no golpe da mão sem aliança.

- Por enquanto – escapou. – O palhaço vai tentar te tirar do seu marido, tá muito claro aqui, sabe?

Sei, sei, sua espertinha…

- O seu casamento não está bem, sabe?

- Não está bem, está ótimo.

- Recém-casada acha sempre isso.

- Sou casada há 15 anos.

- No coração, não na mente. Na mente, você está com ele há 179 dias. O seu príncipe vai aparecer. Dono de restaurante natural em Sana.

Olha a cigana lendo minha roupa!

- Você está vendo tudo isso na minha mão?! – questionei, espantada com tamanha cara de pau.

- Juraly tá sentindo, sabe? Juraly lê mão e sente energias. Você tem muitas energias.

Energias? No plural? Ah, para, vai!

- Juraly vê uma viagem.

Até que enfim! Um adivinho que não fala em viagem não merece o título de adivinho.

- Não vou viajar tão cedo.

- Vai sim! Viagem longa. Índia. Autoconhecimento. Vaca.

- Xingamento também não! Vaca é a…

- Vaca é um animal sagrado na Índia. Vaca, paz, luz, curry. Juraly vê tudo isso na viagem. Xiii…

- O que foi? Vou passar mal com tanto curry? – perguntei, debochada.

- Não. As energias pararam de fluir. A vela até apagou, ó!

- Foi o vento.

- Vento nada. Foi o seu ceticismo. Se não acredita em quiromancia por que vem na quiromante?

- Porque ouvi falar bem de você.

- Claro, Juraly é ótima. Mas vamos terminar por aqui.

- Mas disseram que você fica pelo menos uma hora com cada pessoa. Não estou nem há 15 minutos aqui – estrilei.

Ela deu de ombros.

- Juraly vai me dar um desconto, então, né? – arrisquei.

- Juraly não trabalha com descontos.

- Ah, claro. Esse futuro eu já estava prevendo.

- Juraly vai te dar uma chance: se você arrumar três amigos pra Juraly, Juraly te atende de graça da próxima vez.

- Juraly acha mesmo que vai ter uma próxima vez?

- Juraly tem certeza.

- Quer saber? Juraly não entende nada de futuro. Nada!

Quando entrei no carro nem precisei de adivinhos. Sabia o que viria pela frente: um engarrafamento gigante até a Barra e a certeza de que eu não iria a ciganas e afins nunca mais. Nunca mais mesmo.

Ou pelo menos até alguma amiga me contar que foi a um vidente fe-no-me-nal.

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Programão

14 fevereiro 2013 | 17 comentários

- Oi, minha queridaaaa! Bom dia, flor do diaaaa!

Quando minha avó liga nessa empolgação de vogais multiplicadas é sinal de que algo animador aconteceu.

- Já tem programa pra amanhã? Se não tiver, agora tem. Programão. E é com a vovó!

Opa! Algo muito animador aconteceu, concluí.

- Leu o obituário hoje?

Ok, não tão animador.

- Eu não leio obituário nunca – respondi.
- Pois eu só leio obituário. Ler o resto do jornal pra quê? Só tem notícia ruim.

Atenção para “o resto do jornal”. Atenção para “notícia ruim”. Sigamos em frente.

- E no obituário tem o quê? Festa? Micareta? Felicidade?
- Ih, Thalita, você é tão esquisita!

Esquisita. Não por me emocionar ridiculamente com o reality show das Kardashians, não por tirar toda a pele de cada gomo de uma tangerina. Esquisita por não ler o obituário. Sigamos em frente novamente.

- Adivinha quem morreu?
- Dona Zelinha! – chutei.
- Que nada! Continua viva, aquela chata. Anda, fala outra pessoa.
- Seu Ademar?
- Imagina, seu Ademar vai morrer de quê? É moço ainda, não tem nem 80 anos. Anda, outro!
- A brincadeira é muito divertida, mas podemos abreviá-la? Quem morreu?
- A mãe da nora da Alice, a nossa vizinha em Copacabana. Lembra dela?
- Eu me lembro da Alice. Ela fazia uns biscoitos tão gostos…
- Foca, minha filha! Foca! A gente tá falando da morta! A morta é mãe da nora da Alice. Foi uma vez lá em casa, lembra?
- Não.
- Minha filha, como você não lembra? Aquela mulher era a cafonice em pessoa. Imagina como não vai ser o enterro dela!
- Como vai ser?
- Cafona! – disse, impaciente. – Ô, garota burra!

É, minha avó sabe ser um doce quando quer.

- Vamos?
- No enterro da mulher que eu nem conheço?
- O que é que tem? Vamos ver como é que gente cafona faz enterro hoje em dia.
- Falou a chique.
- Eu sou chiquíssima.
- Você usa pochete.
- Uso porque eu fumo.
- Ah, é. E fumar é superchique, esqueci.
- Minha filha, eu não me orgulho do meu vício, mas é prático botar o cigarro na pochete. Na bolsa eu perco tudo.

Sim, ela usa pochete e bolsa ao mesmo tempo. E se acha chique. Modéstia pra quê, né?

- Faz tanto tempo que não vou a um enterro bom! Acho até que vou ao shopping comprar roupa nova. E vou ao salão. Quero ir bonita.
- Pra quê?
- Para todos verem como estou linda, jovem, alegre.
- Alegre no enterro?
- Modo de dizer. Aprenda, querida, enterro é um programa interessante pra ver gente, rever amigos, botar a conversa em dia, marcar uma biriba, um teatro com as velhinhas da van… Vamos, boba!
- Tentador esse convite, mas obrigada. Não gosto de enterro de gente conhecida, imagina de desconhecida!
- Aí que você se engana! Enterro de gente desconhecida é que é bom! A gente analisa o morto sem sentimento, a gente se solidariza com as pessoas sem sofrer. É muito melhor enterro assim, Thalita! – explicou. – Ainda mais o da mãe da nora da Alice. Só quero ver se a família vai pagar maquiador ou vai ser mão de vaca, tacando a defunta no caixão de cara limpa sem dó nem piedade. Olha, minha filha, você me maquia quando eu passar pro outro lado, hein? Era só o que faltava receber as pessoas no meu velório sem um batom, um blush, uma base. Quero pele de pêssego, quero bochechas coradas. Cara de vida, não de morte, pelo amor de Deus!

O que dizer para alguém que planeja o dia em que vai “receber as pessoas” no próprio velório?

- Pode ficar tranquila, eu providencio um maquiador.
- Ótimo. Mas e então? Vamos? Eu te pago um lanche depois.

Ah… que bonitinho ela me oferecer um lanche.

- Fechado.

Topei. É, topei. A minha avó odeia ir a restaurantes, gosta mesmo é de lanchonetes. Bacana ver que ela queria sair do enterro e aproveitar a neta por um tempo, jogar conversa fora, ficar de chameguinho comigo. Fofa.

- Onde você está pensando em ir?
- Na lanchonete de lá mesmo.
- Você quer lanchar comigo no cemitério?
- É, ué! Qual o problema? A gente já vai estar lá… Além do mais, o misto-quente da lanchonete é uma beleza. Caríssimo, mas uma beleza.

Mais tarde ela ligou para muito gentilmente me desconvidar, já que arrumara três amigas para dividir um táxi para o enterro.

- Não fica triste, se você quiser ir vovó arruma um jeito.

Como não fiquei nem um pouco triste, lá foi ela para o São João Batista com a estranha alegria que lhe é peculiar. Depois me ligou para contar detalhes do programa. E fez questão de frisar o que perdi: o enterro foi um “show de cafonice” e as amigas a-do-ra-ram o misto-quente do cemitério.

Sei que minha avó é louca pelo assunto morte, mas espero que tenha mais muitos anos de vida – com saúde, claro. E não só porque sou louca por ela, mas porque quando estou sem ideias para escrever para este blog é ela que me salva. Cada telefonema é uma crônica pronta.

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É cada taxista que me aparece – 4

06 fevereiro 2013 | 12 comentários

De vestido estampado, cabelo desgrenhado, óculos grandes e cara de sono, pedi ao motorista do táxi que me levasse à Lopes Quintas, no Jardim Botânico.

- Sabia! – exclamou. – A senhora vai pra Globo, não é?
- Isso.
- A senhora está tão sumida… Faz tempo que não vejo a senhora em novela.
- Não faço novela.
- Eu sei que faz, conheço a senhora, não precisa ficar de modéstia.
- Não é modéstia. Eu não sou atriz.
- Ah, não? Então como é que eu conheço a senhora?
- Não sei… Talvez de alguma foto em jornal, de alguma entrevista…
- A senhora é famosa, então.
- Eu sou escritora.
- Mas não existe escritor famoso. Ninguém conhece cara de escritor. De onde eu conheço a senhora, meu Deus?
- Não sei.
- A senhora escreve o quê?
- Livros.
- Livros? A senhora escreve livros?! Por quê? Tanta coisa pra escrever e a senhora escolheu escrever livros!

Achei melhor não desenvolver o que seria “tanta coisa”.

- Mas que tipo de livro a senhora escreve? – ele continuou. – É negócio de 50 tons? Porque se for eu vou ficar menos preocupado com a senhora. Isso eu sei que dá dinheiro. Até minha mulher, que só lê bula de remédio, resolveu ler esse livro.
- Eu escrevo para adolescentes.
- Vixe Maria, a senhora tá lascada! Sai dessa enquanto é tempo! Adolescente não lê nada! Eles só querem saber de internet e videogame.
- Agora é tarde. Já estou nessa faz tempo…
- A senhora me desculpe a intromissão, mas a senhora vive de quê? Porque de livros é que não é.
- Eu… eu vivo de liv…
- Já sei! A senhora vive do seu trabalho na Globo! A senhora apresenta jornal lá!
- Não, eu não trabalho na Globo.
- Ah, entendi. Entendi tudo. Não quer falar que trabalha na Globo pra eu não ficar puxando papo, perguntando de artista.

Como se ele realmente precisasse de algum pretexto para puxar papo.

- De jeito nenhum. E só vou lá dar uma entrevista.
- Entrevista sobre o quê?
- Sobre o meu lançamento mais recente e sobre a peça baseada em um livro meu.
- Peça? Pra adolescentes? Mas a senhora não sabe mesmo ganhar dinheiro, hein?
- A peça está enchendo, o público adora, muitas pessoas já viram duas, três, quatro vezes.
- Arrã, sei, sei… – desdenhou sem a menor cerimônia. – Vou dar uma sugestão, tá? De coração. Por que a senhora não se inscreve no BBB?
- Oi?
- A senhora ia fazer bonito! É elegante, é simpática. Ia ser a BBB intelectual. Todo mundo ia ficar com pena da senhora, que escreve livros mas vive de bicos.
- Eu não vivo de bicos.

Ele me ignorou, seguindo seu raciocínio e falando a mil por hora.

- Peraí! Se a gente levar em conta que a senhora dá entrevistas, a senhora pode ser considerada uma celebridade.

Quase morri nessa hora. Juro. E ele seguia vivinho da silva, verborrágico como poucos:

- Analisando por esse ângulo, a senhora pode mandar seu currículo pra Fazenda. Vai que a Record chama a senhora? O prêmio é bom também! Aí, com dinheiro no bolso, a senhora vai poder escrever pecinha de teatro e livrinhos sem pensar nisso como ganha-pão, entende? Vai ser um hobby da senhora.
- Não tenho bunda pra ir pra Fazenda. Digo, currículo.
- Não se deprecie, dona! Na próxima seleção do BBB, por exemplo, que deve acontecer daqui a uns 10 meses, a senhora já consegue entrar. Mas tem que começar a malhar amanhã!
- Eu malho quase todos os dias.
- Ôxe, mas ninguém nota. Jura?
- Juro – rosnei.
- Vai por mim, dona, bota a cara na tevê que a senhora vai longe. Esse negócio de livro não tá com nada! – disse, preocupadíssimo com a minha conta bancária.
- Obrigada, agradeço a preocupação, mas não tenho intenção de participar de nenhum reality show.
- Então como é que a senhora quer vender livro e encher teatro, dona? Tem que ir pra telinha! Ou faz novela ou faz reality! – decretou. – A senhora toma antidepressivo?
- Não! Por quê? O senhor acha que eu preciso?
- Dá pra ver que a senhora é triste. Mais que isso, tadinha, é desiludida, sabe? Desiludida com a vida. Também… trabalhar com uma coisa e não viver dessa coisa deve ser uma frustração só.
- Imagina! Eu sou superfeliz. Estou só com sono.
- Tá com sono por quê? Porque tem insônia. Tem insônia por quê? Porque não dá pra dormir com tanta preocupação, é cheque especial, é dívida no cartão… Sua vida não tá fácil. Mas a vida não tá fácil pra ninguém, né?

Ele falava com tanta convicção que eu estava quase ficando com pena de mim, das minhas escolhas, da minha vida frustrada e cheia de dívidas.

- Dona, Deus não botou a senhora à toa no meu táxi – continuou. – Se seu marido não for rico, se sua família não for milionária, vai por mim: muda de vida enquanto é tempo. Vai fazer reality. Vai ser artista de televisão! A senhora pode! A senhora consegue! É só botar um megahair nesse cabelo que o pessoal contrata. A moda agora entre as celebridades é cabelo bem comprido. Repara só: as panicats, as dançarinas do Faustão… O negócio hoje é cabelão. Não importa a idade, pode ser menina nova, pode ser gente da sua idade, não importa. A receita do sucesso é essa. Cabelão e bundão. Porque a gente não pode esquecer o bundão.

Chegamos ao nosso destino. E o trecho “pode ser menina nova, pode ser gente da sua idade” fazendo ferver meu cérebro.

- Olha a Rede Globo aí, dona! Pisa com o pé direito e faz pensamento positivo, essa vai ser sua casa daqui pra frente. E se precisar de um agente, ‘tamos’ aí.
- O senhor é agente?
- Não, dona. Sou taxista, não tá vendo?

Fofooo!

- Mas tenho bom senso. E tino. E marketing. E noção.

Há controvérsias, pensei em dizer. Mas não disse. Ele prosseguiu:

- Me dá um ator de Malhação começando que eu transformo num Roberto Carlos em dois tempos.
- O Roberto Carlos é cantor!
- Mas já fez filme. Artista que é artista tem que fazer de tudo um pouco.

Paguei, agradeci – a corrida e os, vá lá, conselhos – e saí. Antes de ir embora, ele abriu a janela e disse:

- Já sei de onde conheço a senhora! A senhora é a cara da Leila do vôlei, só que esmirradinha. Confundi. Tchau, dona. Boa entrevista!

Esmirradinha… Humpf!

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