É cada taxista que me aparece… 2
18 junho 2012 | 22 comentários O taxista era boa-praça, daqueles que ficam felizes ao ver a passageira saindo empolgada de um happy-hour com as amigas. Dois minutos depois que eu entrei no carro, mandou na lata:
— Se eu fizer uma perguntinha a senhora me responde com toda a sinceridade?
O que dizer numa hora dessas?
— Claro que sim.
— Por favor, a senhora me diz a verdade. Do fundo do seu coração, hein!
— Pode deixar.
Suando frio, por dentro eu só pensava: “meda”, Assim mesmo, no feminino. É uma espécie de medo elevado à décima potência. Mas permaneci no salto.
— A senhora me acha gordo?
Glup!
Ele não era gordo. Ele era praticamente do tamanho de uma mesa de jantar. De 6 lugares. Não tinha como negar: ele era muito, muito gordo.
— P-por quê?
— Não, por favor, seja direta e sincera, não me responda com outra pergunta. Responda o que eu perguntei pra senhora.
Deus meu, como é que a gente sai de uma saia justa dessas?
— Olha, acima do peso… o senhor está, sim…
Mentirosa! Mentirosa! Mentirosa! O cara está muito acima do peso, o cara é gordo, Thalita! Supergordo!, brigou comigo minha consciência.
— A minha mulher quer que eu emagreça. Disse que o sexo vai ficar melhor.
— Arrã…
Veja se isso é assunto para puxar com uma passageira? Mas, calma… A história piora…
— A senhora desculpa a intimidade… mas a senhora já teve relações sexuais com gordos?
— Oi?
— A senhora já teve relações sex…
— Eu ouvi… Só achei um pouquinho pesada essa pergunta…
— Desculpa… Tem razão…
Graças a Deus! O assunto “sexo” ia morrer ali.
— A senhora já… fez amor com uma pessoa que está acima do peso? Assim ficou menos pesado, né?
Não, não ficou. E eu tive que me controlar para não rir.
— Já — respondi, com toda sinceridade. Nunca tive nada contra gordos, gordinhos ou gordões.
— Então a senhora sabe!
— Sei o quê?
— Que a gente é ótimo na cama…
— É… c-como?
Não acreditei que a conversa estava tomando aquele rumo!
— A gente é bom de cama pra caramba! — disse ele. E disse com a boca cheia de orgulho! — Não tem pra ninguém! Pode botar um sarado e um gordinho lado a lado. A gente dá de mil! Pode ficar um pouco sem fôlego às vezes, mas nós, gordinhos, somos incríveis.
Ele se achava “incrível” quando o assunto era sexo. E se considerava “gordinho”. E estava me contando isso! É o que eu chamo de pessoa trabalhada na autoestima. Será que onde ele comprou tinha mais pra vender? Eu quero, sonhei. Eu e todas as minhas amigas…
— Bom, isso é assunto pro senhor e pra sua mulher, né?
— E meu cabelo? A senhora acha que eu tô precisando fazer implante? A senhora liga pra careca?
— Eu gosto de carecas… Acho um charme.
⎯ Aí! Aí! Aí! É a quinta hoje que me diz que gosta de carecas! — vibrou. — É o que eu sempre digo: carecas são bonitos, carecas são bacanas, carecas são sacanas, carecas são modernos, carecas são espertos, carecas não gostam de dias… ensolarados… — ele cantou, parodiando a letra de Cariocas.
Era um piadista nato.
Como eu ri, continuou:
— Carecas são alegres, carecas são tão sexy, motoristas carecas não gostam de sinal fechado…
— Olha só… — comentei. — Adriana Calcanhoto que se cuide…
— Posso pedir um favor pra senhora?
Meda. Muita meda.
— P…pode…
— A senhora se importa de ligar pra Filomena e falar pra ela que a senhora gosta de carecas?
— Ã? Quem é Filomena?
— Minha esposa. Preciso convencer a mulher de que implante é coisa cara… É pra gente rica… A senhora pode? – perguntou, já discando no celular. – Alô! Filó? Peraí que tenho uma passageira que pediu para falar com você, bombonzinho da minha vida!
E eu falei. Eu falei com a Filomena!!! Ela era uma simpatia. E, coitada, contou que eu era a quinta desconhecida que ligava pra dizer que implante era coisa cara, que carecas são o máximo e que gordos na cama são um espetáculo.
Ainda bem que ela não era ciumenta.
