Beleza interior
05 junho 2012 | 15 comentáriosVez ou outra um repórter me pergunta se eu me sinto uma celebridade. Digo sempre que não, que celebridade, pra mim, é a Mulher Melão, a Nana Gouvêa ou a Panicat da vez, que são reconhecidas e… hum… perseguidas por paparazzi. Escritores não têm o rosto conhecido, não geram fofoca, não rendem boas fotos e tampouco causam interesse nos leitores de sites onde uma troca de prótese de silicone, uma ida à padaria e um alongamento de cabelo viram manchete sem a menor cerimônia.
Outra diferença importante entre escritores e celebridades (e, claro, as subcelebridades, categoria que eu a-do-ro!, pronto, contei): as celebridades ganham convites para as melhores festas e pré-estreias, ganham roupas, ganham chinelos, ganham viagens, ganham, simplesmente. As portas se escancaram para elas. Para meros escritores, como eu, as portas se fecham e cabe a nós bater e esperar para sermos atendidos, como todos os outros não-célebres. Mas, às vezes, milagres acontecem. A porta mais especial, a que eu mais queria, a que eu mais almejava, um belo dia se abriu para mim.
- Ela é a Thalita Rebouças? – perguntou a moça que realizaria meu sonho.
- É! – confirmou minha amiga, que já tinha passado para o outro lado da porta.
- A minha filha adora ela! – disse a tal moça.
- Então, abre, vai! É o sonho da vida dela – pediu minha amiga.
- Sério?
- Sério. O que eu posso fazer se ela é maluca? Gente boa, mas maluca.
E o sonho aconteceu. Nunca fiquei tão feliz por ser reconhecida, por ter nome e sobrenome. Ela não chamou a Mulher Maçã. Ela não chamou a Babi Rossi, muito menos a mulher rica Brunete Fraccaroli (droga, eu sei quem são todas essas! Tenho que trabalhar mais e ler menos revistas de fofocas).
- Dona Thalita Rebouças. Dona Thalita Rebouças!
- Sou eu! – dei um leve escândalo, tamanha a felicidade que tomou conta do meu peito. – Jura que eu vou poder entrar?
- Pode, mas não conta pra ninguém que a gente deixou, tá bem? – sussurrou a moça, puxando meu braço para me levar logo pra dentro.
Quem me conhece sabe que eu sou (levemente, levemente mesmo) hipocondríaca e que amo fazer exames. Já pedi a vários médicos:
- Por favor, doutor, deixa eu fazer uma endoscopiazinha!
A resposta sempre foi negativa, aparentemente está tudo divino e maravilhoso com a porcaria do meu sistema digestivo. Já que não faria uma endoscopia tão cedo, fiquei à espera dos amigos. Uma hora algum deles teria que fazer e eu poderia, enfim, ver como é um estômago, apreciar um esôfago, conhecer a fundo um intestino… Esse dia tinha chegado. Viva o médico da minha amiga Jordana!
- Dona Jordana Garcia! – chamou a mulher do laboratório.
- Aquiiii! – reagi empolgada, braço levantado, como se estivessem anunciando a minha vitória na Mega-Sena. – Vamos, Jordans! Deixa de lerdeza! Chegou a nossa vez!
- A minha vez, você quer dizer… – rosnou. – A minha vez de ter um tubo gigante enfiado goela adentro para ver como está meu estômago. Gostoso mesmo.
A Jordana não estava tão animada… Já eu…
- Jordana quem é? – perguntou a enfermeira.
⎯ Somos nós! ⎯ disse, sem deixar Jordana responder. Tadinha. ⎯ É ela! ⎯ corrigi a tempo.
⎯ A senhora é acompanhante?
⎯ Sou, sim.
⎯ Então a senhora fica segurando a bolsa da dona Jordana e aguarda na sala de espera, está bem?
⎯ Não, não está bem… Eu… eu não vou entrar?
⎯ É proibida a entrada de acompanhantes.
⎯ Mas… mas… m…
Jordana ficou triste. Sabia o quanto eu tinha esperado por aquele momento. Enquanto a porta da felicidade se abria para ela e se fechava para mim, virei as costas e, cabisbaixa, ombros caídos, caminhei lentamente para a cadeira dura e fria que me esperava.
Enquanto isso, na Sala de Justiça, digo, na sala da endoscopia…
⎯ Doutora, não faz isso… Ela madrugou, veio da Barra, pegou o maior trânsito só pra me ver fazer o exame… É o sonho dela… ⎯ Jordana chorou para a médica.
⎯ Sonho?
⎯ É, doutora, ela é maluca, mas é gente boa.
⎯ Mas realmente não podemos liberar a entrada de acompanhantes.
⎯ Mas ela veio aqui só pra isso… Ela gosta de fazer e de ver exames e vai que um dia isso inspira alguma história! Ela é escritora, sabia?
⎯ Sabia! É a Thalita Rebouças, não é?
⎯ É!
⎯ A minha filha adora ela! Já leu vários livros, as amiguinhas também.
⎯ Então… Deixa ela entrar.
⎯ Mas se a Vigilância Sanitária bater aqui a gente tá frita…
⎯ Imagina, não vai ter problema nenhum… Ela é limpinha, toma banho todos os dias, às vezes dois banhos por dia! – brincou a gaiata.
Silêncio se fez. Até que…
- Dona Thalita Rebouças!
Fui recebida com festa e muito carinho na sala do exame enquanto minha amiga começava a ficar dopada.
⎯ Vocês dopam com o Propofol ou Dormonid? – perguntei, mostrando todo o meu conhecer medicinal quando o assunto é endoscopia.
- Propofol – respondeu a médica.
- É o remédio do Michael Jackson, né? É, é sim, eu sei. Mas fica tranquila, Jordans, é uma dose mínima, né doutora?
- Isso mesmo, Thalita. Nossa, sabe tudo, hein?
- Sei, sei sim… – disse, toda metida, sem disfarçar o orgulho que senti de mim mesma.
Sorrindo com o rosto todo, empinei o peito como uma aluna CDF que acabara de tirar nota 10 e ganhar elogio da professora na frente de toda a turma.
Jordana, por sua vez, grunhiu algo que não entendi.
- Ó, doutora, se a senhora quiser narrar o exame pra mim eu não vou fazer nenhuma objeção, tá? – sugeri, enquanto acompanhava pelo monitor as primeiras imagens do interior da minha amiga.
- Claro. Vou adorar fazer isso pra você, Thalita…
Jordana grunhiu de novo. E de novo não entendi o que ela grunhiu.
Ok, não estava lá muito interessada no grunhido da Jordans. Queria ver carne! Carne! Dali em diante foi só alegria, só prazer. Uma verdadeira aula de biologia.
⎯ Este aqui é o esôfago da Jordana, olha só. Repara, tá tudo bem, tudo tranquilo com o esôfago da sua amiga.
⎯ Maravilha, doutora, maravilha! Que esôfago lindo! E o estômago? Cadê? Eu quero estôôômagooo!
⎯ Tá aqui, querida! Olha o estômago da Jordana. Tá tudo bem com ele também. Abaixo vem o intestino.
⎯ Olha só! Um intestino! Uau! Nunca tinha visto, só nos livros da escola! Jordans, é como eu suspeitava, você é linda por fora e por dentro também! Que máximo! ⎯ elogiei.
Ela, meio dopada, com um tubo enfiado na boca, tirou forças, sabe-se lá de onde, para levantar a mão e me mostrar o dedo do meio. Dá para acreditar? Não estava tão imponente como deve estar numa hora dessas, mas entendi perfeitamente o recado e tentei parecer menos empolgada.
⎯ Jordana! ⎯ briguei, brincando. ⎯ Olha as médicas! Ai, ai, ai! Vão achar que você é uma moça sem educação! Abaixa esse dedo, abaixa esse dedo!
Todas rimos, estava realmente divertida aquela viagem insólita ao interior da minha amiga loiruda. Graças a Deus, não tinha nada de errado com ela. E a narração da médica foi nota mil, ela realmente tinha nascido para narrar endoscopias para leigos como eu. Saí de lá realizada. Feliz.
Fui pra casa da Jordans almoçar com ela, que fez massa com molho de gorgonzola e almôndegas. Enquanto ela mastigava eu tentava imaginar a comida fazendo todo aquele bonito caminho que eu acabara de conhecer. Em êxtase, não resisti e comentei com ela detalhes do exame que estavam gravados pra sempre na minha memória. Mas tive que parar. Muito brava, a Jordana disse que se eu continuasse focada na sua beleza interior ia me expulsar de lá e me mandar para aquele lugar. De novo. Passamos então a outros assuntos. Bem, quase outros assuntos…
- Qual é o próximo exame que você tem que fazer, Jordans? Posso ir junto? Juro que fico quietinha.
- Não!
E foi um “não!” tão enfático que eu fiquei quieta. Calei minha boca com uma deliciosa almôndega e não falei mais de saúde, exames, médicos e afins durante toda a tarde.
