Contando carneirinhos

Que as crianças de hoje vêm com um chip diferente não é novidade pra ninguém. Elas são mais espertas, mais antenadas e mais argumentativas que as crianças de um passado que está logo ali atrás. Por mais que isso seja muitíssimo claro para mim, numa noite qualquer, quando minha afilhada voltava pela terceira vez à […]

Que as crianças de hoje vêm com um chip diferente não é novidade pra ninguém. Elas são mais espertas, mais antenadas e mais argumentativas que as crianças de um passado que está logo ali atrás. Por mais que isso seja muitíssimo claro para mim, numa noite qualquer, quando minha afilhada voltava pela terceira vez à sala da minha comadre para reclamar da falta de sono, mandei na lata, toda doce e prestativa:
– Carneirinhos, Bia!
Roberta sussurrou:
– Não, louca! Carneirinho não vai colar!
– Imagina! Carneirinho sempre cola, carneirinho é ótimo.
– Tá bom. Boa sorte!
– Quê, dinda? – perguntou a boneca.
– Carneirinhos! Conta carneirinhos!
Com a testa enrugada, os olhinhos espremidos e a cara de quem viu um ET albino pendurado no lustre, parecia que ela tinha ouvido a frase mais absurda de seus sete anos de vida.
O espetáculo de dinda aqui ficou extasiada diante da chance de ensinar algo bacana para a afilhada, algo que a faria dormir com mais facilidade, que seria útil para meus queridos Jorge e Roberta (pais da minideusa). Em poucos minutos, eu apresentaria para a Bia o Rivotril infantil, a infalível contagem de carneirinhos.
– Seguinte, boneca: você deita, fecha os olhinhos e começa a imaginar um monte de carneirinhos pulando uma cerca – resumi, dando a conversa por encerrada.
– Que cerca?
É… para a Bia a conversa não estava encerrada.
– Como ‘que cerca’? Cerca da fazenda.
– Que fazenda, dinda?
– Do fazendeiro.
– Qual o nome dele?
– Não sei, Bia! Ele não tem nome!
– O fazendeiro não tem nome? Todo mundo tem nom…
– O fazendeiro não tem! Mas na verdade o nome é o que menos importa! O que importa é que você tem que ir pra cama e contar quantos carneirinhos estão pulando a cerca.
– Pra quê?
– Pra… pra eles não fugirem!
– Por que eles querem fugir?
– Porque… porque carneiro gosta de fugir! – respondi, um tanto exaltada.
– Se os carneirinhos querem fugir da fazenda do fazendeiro sem nome é porque ele não deve ser legal com eles.
– Imagina! O fazendeiro sem nome é ótimo com os carneirinhos!
– Como você sabe?
– Porque eu conheço ele!
– Mas você nem sabe o nome dele!
– O que é que tem? Eu conheço e ponto.
– De onde?
Criança mais perguntadeira!
– Da vida, Bia! Por isso eu sei que ele precisa da lã dos carneirinhos para sobreviver.
– Por quê?
– P-porque ele vende cobertores de lã na feirinha de artesanato que tem todo fim de semana perto da fazenda.
Roberta, sentada na poltrona ao lado, lançou para mim um olhar vitorioso, do tipo “eu não disse que não ia colar? Agora se vira!”.
– Eu não sabia que fazendeiro vendia coisas. Achei que fazendeiros só fazendavam – justificou Bia.
Não entrei no mérito de “fazendar”.
– Uns vendem, outros não. O fazendeiro sem nome vende.
Roberta quase se matava de tanto prender o riso. Palhaça.
– Se ele não vende cobertores ele fica sem dinheiro e se ele fica sem dinheiro ele fica sem comida e se ele fica sem comida ele e a família morrem, Bia. Morrem! De fome. E de frio. Olha que tristeza, meu Deus! – apelei para o coração da criança.
– Onde é a fazenda?
Fala sério, pirralha!
– Sei lá, Bia! Mentira! Sei sim! Polo Norte! Isso! A fazenda é no Polo Norte! Rá! – exclamei, feliz. Pelo menos o frio eu tinha explicado.
– O fazendeiro é amigo do Papai Noel?
Puuutz!
– Claro que não, Bia! E Papai Noel lá tem amigo?
– O Papai Noel não tem amigo? – quis saber, assustada e chorosa. Tadinha. Eu só queria que ela dormisse.
– Calma… O que eu quis dizer é que o Papai Noel é muito atarefado para ter amigos, meu amor. Trabalha muito.
– Mas só no Natal!
– Você que pensa! Ele trabalha muito, muito mesmo.
– O papai trabalha muito e tem um monte de amigos. Você trabalha muito e tem um monte de amigos, a mãe da minha amiga Camila trab…
– Entendi! A mãe da sua amiga Camila trabalha muito e tem um monte de amigos. Mas o Papai Noel trabalha mais do que todo mundo junto.
– Mas por que ele não pode ter amigos?
– Ele pode, mas… mas a gente não tá falando do Papai Noel. Vamos focar, Bia! Foca nos carneirinhos do fazendeiro sem nome, por favor! – exclamei, suando frio.
– É foca ou carneiro, dinda?
– Carneiro! Carneirinho! – respondi, quase chorando. – Agora vai lá, deita, fecha os olhos e imagina um monte de carneirinhos pulando a cerca.
– A cerca é alta ou baixa?
– Não tenho a menor ideia! Isso é a sua imaginação que vai mandar. Combinado?
– Combinado! – concordou, voando para o quarto.
Recomecei a conversa com a Roberta, que se divertia horrores com a minha explicação atabalhoada.
Deu dois minutos e…
– Dinda, nada aconteceu. Contei vinte carneirinhos e nada!
– Mas não é pra acontecer nada, mesmo. Volta lá e conta mais. Muito mais.
Três minutos depois…
– Dinda, pronto, agora chega, contei cinquenta. Cin-quen-ta! – disse, com a entonação entediada de quem tinha contado 50 mil.
– E o seu sono? Não veio?
– Não! Não dá pra dormir contando carneirinhos. É muito chato!
– Pois é! Justamente porque é chato que a gente DORME enquanto conta. A gente não fica voltando pra sala pra dizer para os adultos quantos carneirinhos contou, entendeu? Contar carneirinhos é tão monótono que a criança dorme sem saber quantos carneirinhos ela contou! Era assim que acontecia com a dinda quando ela tinha a sua idade.
– O que é monótono?
– Uma coisa enfadonha, repetitiva, que não muda, que é chata.
– Sei, tipo uma aula que eu tenho na minha escola, é muito monótona.
– Bia! A gente não pode começar uma discussão sobre monotonia. Você precisa dormir, meu amor!
– Deixa comigo – assumiu Roberta, a Mãe. – Já pra cama, Beatriz. Acabou o show!
– Mas… mas…
– Sem ‘mas’, filha! Amanhã tem escola, você tem que acordar cedo. Dá um beijo na dinda e vai dormir.
– Mas…
– PARA A CAMA! JÁ!
E ela foi. E acabou pegando no sono rapidinho. Nada como a voz enérgica de uma boa mãe.
No dia seguinte, Roberta me ligou:
– Acordei sua afilhada, dei o café, fiz a menina escovar os dentes, botar uniforme, penteei o cabelo dela e sabe o que a ingrata me disse? ‘Mãe, acho você tão monótona’…
Ri muito. E deixo aqui meus parabéns para todos os pais de crianças com menos de 10 anos. Jurei que fosse bem mais fácil colocá-las para dormir.

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