Ariel de aluguel

17 maio 2013 | 7 comentários

Passando por cima da timidez, Lucia, uma grande amiga minha, abordou sem meias palavras a Pequena Sereia numa festinha infantil, enquanto a filha se divertia com outras crianças:

- Você atende em casa?
- Perdão?
- Você poderia ir ao meu apartamento fantasiada?
- Olha, não faço esse tipo de coisa, não. Sou moça direita, de família. Com licença – reagiu Ariel, antes de virar as costas para Lucia, que só então percebeu o disparate do diálogo e a reação compreensível da moça de família vestida de princesa da Disney.

Consternada, foi atrás da sereia para se explicar.

- Ô, Ariel… Desculpa, não é nada disso que você está pensando – começou. – Queria que você fosse lá em casa para conversar com a minha filha, a Carol.

Resolveu explicar tudo, tintim por tintim.

- Número 1 a minha filha faz fácil, fácil. Já número 2 é a maior dificuldade. Prende até não aguentar mais.
- Sério mesmo que você está falando sobre número 1 e número 2 comigo?
- Estou. Pra você ver o grau do meu desespero – respondeu Lucia. – Já tentei de tudo. Falo que cocô é bom, que cocô é o máximo, que eu e o papai fazemos cocô todos os dias, assim como vovó e vovô e todos os priminhos. Não adianta. Botei até o Papai Noel pra falar com a Carol, mas ela não está nem aí para o Papai Noel.
- E onde entra a Pequena Sereia nessa história? O que a Pequena Sereia tem a ver com o cocô da sua filha?
- Preciso de um nome de peso, de alguém que faça a diferença na vida dela. E ela ama a Ariel. É sua princesa favorita.

Ariel olhava para minha amiga com olhos de interrogação.

- Eu só quero que você vá na minha casa fantasiada e converse com a minha filha.
- Sobre a importância do cocô?
- Exatamente! – vibrou. – Se a princesa que minha filha idolatra falar dos benefícios e das alegrias causadas pelo cocô, aposto que ela vai parar de prender.

Pequena Sereia estava cabreira. Provavelmente era a primeira vez que recebia uma proposta como aquela. Desconfiada, verbalizou:

- Não sei, não… Eu só tenho 20 anos, sou atriz, quero fazer novela, ficar famosa e ganhar dinheiro com publicidade, presença VIP, desfiles, quem sabe Playboy… Não sei se é bom ter no currículo um diálogo sobre cocô com uma criança.
- Imagina! Vai ser ótimo como experiência, vai testar sua capacidade de improvisação.
- O meu sonho é ser atriz, dona. Não nasci para ser psicóloga infantil. Aliás, não seria melhor chamar uma terapeuta pra conversar com a sua filha?
- Não… Queria tentar a Pequena Sereia primeiro. Poxa, Ariel… Quebra esse galho…

Diante da hesitação da princesa que sonhava ser atriz, Lucia apelou.

- Pago o valor da sua diária pra animar uma festinha como essa.

Ariel balançou, mas o dinheiro falou mais alto.

- Onde você mora?

Combinaram data e horário. Quando chegou o dia e a princesa adentrou sua casa, Carol mal podia acreditar no que viam seus olhos.

- Ariel! O que você está fazendo aqui? – perguntou, extasiada.
- Soube que você gosta muito de mim. Então resolvi fazer uma visita – disse a Pequena Sereia.

A menina voou na direção de sua princesa favorita e a abraçou com toda a força.

- Que emoção, né, filha? Não é todo dia que a gente recebe uma princesa. Ariel, você quer um café? Um bolinho de cenoura?

Deixou as duas sozinhas na sala por um tempo. Quando voltou, viu que a prosa tomava um rumo inusitado.

- Sei lá se peixe fecha o olho pra dormir. Como é que eu vou saber, garota?
- Você mora no fundo do mar, ué.

E então Lucia se viu na obrigação de intervir.

- Se quiser usar o banheiro depois do bolo, fica à vontade, Ariel.
- Obrigada, mas estou bem assim. Não gosto de usar o banheiro na casa dos outros.

A mãe de Carol arregalou os olhos, chocada e irritada.

- Jura? Porque bolo às vezes dá uma vontade enorme de ir ao banheiro.

Com a indireta, Ariel enfim percebeu que era chegada a hora. Meio sem jeito, deu início ao trabalho para o qual fora contratada.

- Ah, claro. Adoro ir ao banheiro.
- Também adoro – Lucia entrou no jogo. – E você faz de tudo lá, né, Ariel?
- Tudo o quê, mãe? – perguntou a menina.
- Xixi e cocô, filha.
- Cocô? – repetiu Carol, assustadíssima. – Você faz cocô, Ariel? – indagou, espantada.
- Claro. Todo mundo faz cocô e sabe os benefícios do cocô, filhota. Até a Ariel. Né, Ariel?
- Mas como você faz cocô? – insistiu a pequerrucha.

Ariel ruborizou. Era evidente: a princesa não estava nada confortável naquele papel.

- Como todo mundo faz, ué – respondeu, constrangida.
- Mas você não tem bumbum!

Só então Lucia percebeu o motivo pelo qual a filha venerava a Pequena Sereia. Para Carol, ela não ia ao banheiro.

A tensão tomou conta da sala. A continuação do estranhíssimo diálogo seria decisiva para o futuro intestinal de Carol e minha amiga não estava lá muito confiante na atuação da princesa.

- Quem disse? Tenho bumbum sim, mas fica escondido – escapou Ariel.

Aliviada, Lucia, com medo da próxima pergunta da filha, resolveu encerrar o expediente da Pequena Sereia. Levantou-se e caminhou na direção da porta.

- Então é isso, querida. Amamos a sua visita. Volte sempre que quiser! Dá um beijinho nela, filha.

As duas se despediram. Quando o elevador chegou, a princesa foi surpreendida pela pergunta derradeira da criança:

- Você toma banho todo dia?

Depois de apertar o botão do térreo, Ariel respondeu:

- Claro que não. Não preciso – disse, saboreando cada palavra e dando uma piscadela sacana para sua contratante.

Pronto. Ariel tinha se vingado de todo o constrangimento daquela tarde. Enquanto a porta se fechava, sorriu cínica para Lucia, certa de que jamais faria algo parecido novamente. Lucia percebeu na hora: trocara um problema por outro.

- Ouviu, né mãe? Cocô, tudo bem. Mas banho… nem vem! Não tomo nunca mais!

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Doença FM

03 maio 2013 | 10 comentários

- Thalita, você está agasalhada? – perguntou minha avó ao telefone, numa noite em que eu jantava com amigos no Leblon.

- Está um calor senegalês! Casaco pra quê?

- Porque tem uma gripe por aí que vou te contar… Uma gripe muito da marota.

Adorei gripe marota.

- Como é uma gripe marota?

- Ah, minha filha, uma gripe que derruba as pessoas quando elas menos esperam. Tá todo mundo com essa gripe. Até o Bial pegou.

- Como você sabe?

- Deu no rádio.

- Ah, tá.

- E você não tem saído, não, né?

- Tenho, claro, quase todos os dias.

- Mas precisava gostar tanto de rua, meu Deus? Minha filha, olha a dengue, cuidado com a dengue, a dengue voltou com força total, a dengue veio pra ficar. Olha o Miguel!

- Que Miguel?

- Falabella, ué!

Minha avó adora falar dos famosos como se fossem amigos íntimos. “Tarcísio viajou com a Glória”, “ Ana Maria foi atropelada ao vivo”, e por aí vai.

- O que tem o Falabella?

- Pegou dengue, ficou arriado, sem gravar, coitadinho do Miguel.

- Como você sabe que ele teve dengue?

- Ouvi no rádio.

- Que rádio é essa que você ouve? Doenças FM?

- Uma rádio ótima, que prepara a gente pras surpresas medicinais da vida, como a tuberculose. Acredita que tem gente à beça morrendo de tuberculose, Thalita? Tuberculose tá que tá, menina, tá matando adoidado. Quando a gente pensa que essa doença horrível tinha ido embora no século passado, taí ela pra atazanar a vida da gente. Você não tá tossindo, não, né?

- Não, estou ótima.

- Graças a Deus! Mas já sabe, saiu sangue no catarro, corre pro médico.

- Pode deixar.

Concordar é sempre mais fácil que argumentar.

- Eu lembro bem do seu catarro, sempre foi bonitinho, branquinho, uma beleza.

Só para uma avó um catarro pode ser sinônimo de beleza.

- Ainda bem que você já teve rubéola e catapora. Rubéola e catapora estão vindo com tudo nesse inverno, sabia? Você tem que ficar em casa, bem protegida.

- Combinado!

- E vê se não viaja de novo!

- Por quê?

- Você viaja demais, quero que você fique quietinha em casa pra que eu tenha um pouco de paz. E se pudesse passar um tempo sem sair à noite seria perfeito. Aí, sim, eu ficaria sossegada.

Ah, então tá… A minha diversão, a minha carreira, a minha felicidade quando estou com marido e amigos… Nada disso importa.

- Ok, vou pensar com carinho. Agora preciso desligar, o meu prato está esfriando. E você não quer que eu caia de cama desnutrida, né?

- Deus me livre! E se alimenta direitinho pra vovó não ficar preocupada.

Desliguei, voltei ao meu nhoque com carne assada e enquanto mastigava me coloquei no lugar dela. Deve ser realmente difícil para a minha avó ver que a criança que ela criou com tanta dedicação e carinho cresceu sorrateiramente e, ainda por cima, acha graça dos seus conselhos.

Mas vó, a vida é injusta mesmo, viu?

Pode dormir tranquila, prometo que vou me cuidar.

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A louca dos óculos

18 abril 2013 | 9 comentários

Existem mulheres de todos os tipos. As que gostam de joias, as viciadas em sapatos, as loucas por bolsas, as que não sossegam enquanto não lotam o armário de vestidos. Eu sou diferente. O que me enlouquece mesmo é um bom e bonito par de óculos. Sou capaz de chorar quando encontro um que se encaixa perfeitamente em meu rosto. Ok, choro é exagero, mas me emociono. Ok, isso também é exagero, admiro óculos e ponto final. Tenho mais de 50 pares de óculos escuros, todos lindos.

Também existem pessoas que sofrem com vários tipos de TOC, o tão falado Transtorno Obsessivo Compulsivo. Há as que precisam ligar e desligar a luz várias vezes antes de dormir, as que sentem necessidade de checar se as portas estão trancadas repetidamente, as que não usam determinada cor nem sob tortura, e assim por diante.

O meu TOC é limpar óculos (escuros ou de grau, não importa). Limpo tão perfeitamente que não sobra pedra sobre pedra, nem um sinal de gordura, de dedo ou de poeira. Morro de orgulho da minha capacidade de limpar lentes. Devo ser uma das melhores do mundo nessa arte. Sim, porque é uma arte. Limpo devidamente, com o paninho apropriado, nada de esticar a camisa ou puxar a toalha da mesa, isso é um pecado. Quando dá tempo para lavar com água e sabonete neutro, então (álcool jamais! Danifica as lentes. Fica a dica)… aí é que fico feliz, rindo de orelha a orelha.

O problema é que não sou paranoica apenas com os meus óculos. Pelo contrário, os meus estão sempre limpíssimos, um primor. O problema são os dos outros. Quando estou com alguém cujos óculos estão com as lentes embaçadas, não importa quem é esse alguém, o meu cérebro, angustiado, não registra nada do que está sendo dito, apenas berra em looping: limpa, Thalita! Limpa, Thalita! Limpa, Thalitaaa!!!!! Assim mesmo, com várias vogais e exclamações.

Quando o cérebro berra e a pessoa que está na minha frente é amigo, ou até amigo de amigo, tudo bem. Peço pra limpar e fico aliviada depois da minha boa ação. A coisa piora mesmo quando o dono dos óculos sujos não tem intimidade comigo ou é simplesmente um ilustre desconhecido. Como no dia em que, depois de muito pensar, a angústia falou mais alto. Passei por cima da vergonha e do bom senso e pedi para limpar os óculos de um motorista de táxi, os mais embaçados que vi na vida. Rápida e eficiente, comecei o trabalho assim que o sinal fechou e consegui devolvê-los antes de ele abrir. E antes que o taxista agradecesse, disse, orgulhosa:

- De nada.

Confesso que minha obsessão não é recente. Implorei para dar uma geral nos óculos do meu primeiro chefe, quando ainda era estagiária. Quase perdi o estágio ali mesmo por não ter capacidade de focar no que estava sendo dito na reunião de pauta. Lembro também que quase fui expulsa num dia de vestibular, quando pedi para dar uma geral nos óculos de um desconhecido sentado ao meu lado durante a prova — acharam que eu queria colar.

Mais recentemente já perdi as contas de quantas vezes limpei os óculos dos três atores que interpretam os Slavabody Disco Disco Boys no musical “Tudo por um pop star“, antes de eles entrarem em cena. Se eu não fizesse isso não conseguiria acompanhar o espetáculo, ficaria apenas pensando “óculos, óculos, óculos”. Sem contar o meu marido e o meu empresário, cujos óculos de leitura estão sempre presos à camisa e lotados de impressões digitais por todos os lados. Ah! Leitores também não escapam. Interrompo qualquer tarde de autógrafos quando vejo uma lente suja e resolvo o assunto ali mesmo.

Portanto, se um dia você estiver conversando comigo e notar que estou olhando fixamente para você sem falar nada, a boca meio aberta, a respiração irregular, só há uma solução. Para facilitar a minha vida e acabar com a minha angústia, tire os seus óculos e me deixe limpá-los.

Você os receberá de volta como novos e ainda fará de mim uma pessoa muito mais feliz.

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É cada taxista que me aparece – 5

27 março 2013 | 18 comentários

- Vou te contar… É cada uma que acontece com a gente, sabe?

Era muita sorte! Nesse dia eu me encontrava interessadíssima numa boa prosa, estava realmente disposta a levar uma conversa frouxa. E o taxista que me pegou no Leblon soltou a pérola assim que dei o itinerário.

Os que me acompanham aqui no blog sabem que normalmente estou cansada ou ocupada quando me deparo com um taxista tagarela. Não naquela tarde chuvosa. Eu era toda ouvidos. E quase respondi “Ô, se sei! Criei uma série justamente com esse título para meus diálogos com taxistas”. Mas não disse muito. Apenas o bastante para que o papo seguisse solto.

- Sei. Impressionante, né? Dá um exemplo? – pedi, louca pra saber o que tanto acontecia com ele por essas andanças da vida.

- Não sei mais o que fazer com meu vizinho. O meu vizinho… ele não é brincadeira, não.

Opa! Histórias de vizinhos são ótimas!

- Por quê? O que ele faz?

- Sabe festa de piscina? Em que as mulheres ficam de fio dental se lambuzando com blondor nas pernas e nos pelinhos das partes íntimas?

Não. Eu não sabia. E se soubesse teria medo. Mas, como narrei no primeiro parágrafo, estava supersimpática.

- Sei, claro.

- Precisava ver. Música alta, cerveja gelada, churrasco de primeira, jiló mergulhado na mostarda de belisquete, o povo fazendo tchibum na piscina, dançando funk coreografado, tudo correndo na mais perfeita ordem até que a gente ouve um grito. Depois outro. E mais outro. Três gritos. Aí deu polícia e… taquiupa!

Taquiupa o quê? Taquiupa o quê? Fiquei tensa. Foram todos pro xilindró? Ou os policiais se juntaram aos convidados para dançar funk coreografado? Mergulharam o jiló na mostarda? Ou teve crime? Sangue? Morte?

- Pior mesmo só a festa de formatura da amiguinha da minha filha!

Não! Ele ia me deixar sem resposta! Logo naquele dia, que eu estava toda conversada, o motorista resolveu me deixar no vácuo no melhor da história.

- O pai dela fechou uma casa de festas, botou segurança na porta, contratou a Gaiola das Neuzudas…

- Neuzudas?

- É mistura de Neuza com popozuda.

Ah, tá.

Continuou, sem respirar:

- Daí chegaram uns jogadores de futebol e um povo do pagode. Um dos jogadores parece que quis ficar de saliência com a menina, o pai se enervou, rolou bate-boca, confusão, gente correndo sem sapato, mas quando chegou o avô da menina… taquiupa!

Taquiupa não! Continua! Quem eram os jogadores de futebol? Tinha algum famoso? Alguém se feriu na correria sem sapato? Correria sem sapato é óóótimo, pensei. Mas e a amiguinha da filha dele? Pegou o tal jogador que queria saliência? QUEM ERA O JOGADOR?! E qual o problema com o avô? Avôs são tão fofos!

- Moço, por favor, o senhor precisa dar mais detalh… – tentei.

- A minha vida é uma comédia, a senhora sabe?

Ok, entendi. Ele não era do tipo que dialoga. Era do tipo que monologa. Cabia ao passageiro ansioso por um bate-papo se contentar em ficar no mais profundo silêncio. Droga! Justo naquele dia que eu exalava bom humor!

- Ontem mesmo teve o negócio do frango assado.

Frango assado? Essa parecia boa. Até como nome de crônica: “O negócio do frango assado”.

- Sabe frango de padaria, né? Tenho um outro vizinho que é dono de umas padarias lá no bairro. O cara tem grana, se dá bem com a rapaziada da vizinhança mas é um cara que… como é que eu vou explicar? Melhor não discordar dele, a senhora entende?

- Entendo, claro! – respondi, empolgada com as cenas dos próximos capítulos.

Aquele caso, sim, prometia!

- O frango assado dele tem fama boa, mas um dia o dono da granja onde ele compra as galinhas foi lá comer e reclamou do sabor, achou gorduroso, disse que cheirava a lixo, a lixo!, que as galinhas dele não tinham morrido praquilo, que aquilo não era comida, que não era coisa de Deus. Me-ni-na! A senhora precisava ver! O meu vizinho ficou pau da vida, tirou o frango assado da mão do dono da granja e… taquiupa!

Taquiupa? De novo o taquiupa me atrapalhando bem no clímax? No auge? Que ódio!

- Tá de saca! – soltei, já que ele era chegado a uma abreviação.

- Tô nada! – devolveu, já encostando o carro.

Havíamos chegado ao meu destino. Mas eu queria vingança.

- O senhor não sabe, agora mesmo vou jantar com um casal famosérrimo de atores. Os dois estão pra se separar. Teve um barraco que o senhor não faz ideia. Bafão!

- Quem é o casal? Qual foi o barraco? – quis saber, todo curioso.

Respirei fundo e enchi a boca pra responder:

- Soube não? Taquiupa!

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A Lista de Frankfurt

18 março 2013 | 3 comentários

De férias, flanando pelas ruelas do Porto num dia chuvoso, toca o telefone e meu amigo do outro lado da linha dispara, sem nem dizer alô:

- Posso saber por que você não está nesse diacho dessa lista? Como é que você não vai para a Feira de Frankfurt?

Claro que vou a Frankfurt, logo tratei de explicar. Publico meus livros em Portugal há alguns anos, recentemente fechei contrato para lançar dois deles na América Latina e meu maior sonho é vê-los espalhados por livrarias de vários países. Assim sendo, ir à feira de Frankfurt, para mim, não é um passeio, é um investimento, é negócio. Ainda mais com o Brasil homenageado. Imagina se eu perderia essa oportunidade!

Angustiado por conta da divulgação da lista de escritores que vão à feira representando o país, o meu querido amigo não se deu por satisfeito.

- Por que você não vai como convidada oficial? – quis saber.

Respondi que listas e polêmicas andam de mãos dadas há muito tempo e que se coubesse a mim a escolha dos escritores para Frankfurt, eu certamente receberia inúmeras críticas assim que divulgasse os nomes. Qualquer lista receberia.

- O importante é que nossa literatura infantojuvenil está muito bem representada.

- Mas acho que estar numa lista dessas é como um prêmio, e por mim você merecia ganhar, você não ganha nunca! – reclamou.

Ah! Amigos… Esses seres tão parciais e especiais. Desconfio que torcem tanto para que eu ganhe um prêmio só para termos um pretexto para abrir um bom vinho e festejar com muitas risadas, eles sabem que sou festeira.

O fato é que a frase “Não ganha nunca” ecoou na minha cabeça. Realmente não ganhei grandes prêmios literários, nem sequer fui indicada a eles. Mas dizer que não ganhei prêmios nos meus 13 anos de carreira seria uma mentira deslavada. Se prêmios são reconhecimento, homenagens que rendem momentos de emoção e alegria, já ganhei inúmeros. Uma avó que me diz, com a voz trêmula, “você ensinou minhas três netas a gostar de ler” é um exemplo de prêmio. Lágrimas, abraços apertados e agradecimentos sussurrados de leitores e seus pais também têm o poder de me fazer caminhar nas nuvens. Ou seja, a cada evento que faço me sinto premiada.

- Isso é bacana e tal, mas e o reconhecimento dos escritores? – insistiu meu amigo, ainda injuriado.

Não posso dizer que meu trabalho não é reconhecido. Tenho muito orgulho de ter ouvido elogios de nomes como Ziraldo, Pedro Bandeira e Mauricio de Sousa, ídolos desde que me entendo por gente. O pai da Mônica, inclusive, me convidou para escrever um livro com ele. Quer reconhecimento maior do que esse?

- Tá bem, entendo. Mas eu, se fosse você, reclamava dessa seleção. Botava a boca no trombone – instigou.

Vou reclamar de quê, gente?

Não, não tenho nada a reclamar da lista. Ela é ótima e o Brasil vai fazer bonito na Alemanha. O importante é divulgar a nossa literatura mundo afora e estimular o hábito de ler. O resto é detalhe.

Mas, aqui entre nós, que eu trocaria uns nomes, ah… eu trocaria.

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