O celular da Fernandona – ou o da Fernandinha

30 setembro 2011 | 27 comentários

Sentada na praça de alimentação de um shopping, prestes a mergulhar uma batata frita no meu sundae de chocolate sem castanha, fui abordada por uma mulher de seus 45 anos.
— Posso sentar aqui?
— P-pode, claro… — respondi, olhando em volta e constatando que tinha um mar de mesas desocupadas por perto.
Mergulhei a batata na calda de chocolate e no exato momento em que comecei a mastigá-la…
— Você é a menina da Bienal, né?
Engoli às pressas.
— Obrigada pelo ‘menina’…
— Que coincidência te encontrar! Eu estava mesmo pra te escrever, sabia?
— Olha só…
— Tenho uma sugestão incrível pra você.
Até aí tudo bem. Muita gente, muita gente mesmo, tem sempre sugestões incríveis para escritores.
— Por que você não escreve pra meninos?
— Eu escrevo pra meninos e meninas que gostam de rir. Mas fiz pensando neles o Ela Disse, Ele Disse, com um menino protagonista.
— Mas é negócio de cotidiano, né?
— Arrã…
— Pois é. Esquece cotidiano.
— Mas os meus livros são todos sobre o cotidiano dos adolescentes, eu adoro escrever sobre o cotid…
— Es-que-ce! — aumentou consideravelmente o tom de voz. — O que eu tenho pra te dizer vai mudar a sua vida, e pra melhor.
— Arrã…
— Você tem que escrever um livro de capa e espada.
Oi?
Diante da minha cara de interrogação, ela continuou:
— Capa, espada e vampiro. Porque tem que ter vampiro.
­— Mas eu sou feliz escrevendo sobre o dia a dia dos adolescentes. E já existem muitos livros sobre vampiros pra eles.
­— Iiiih, escritor não tem visão de marketing, mesmo! Você ia lançar moda, boba! Ou você já viu algum livro de capa, espada e vampiro?
Agradeci e fiquei de pensar. Foi só morder mais uma batata que…
­— Cê pode me arrumar o celular da Fernandinha?
— Que Fernandinha?
— Torres, ué! É que eu preciso falar com a Fernandona, mas é melhor chegar nela pela filha. Mas tem que ser o celular, telefone de assessor é a mesma coisa que nada, eles nunca passam, acham sempre que é um maluco querendo incomodar.
Que injustiça, por que será, meu Deus?
— Eu não conheço a Fernanda Torres.
— Ah, Thalita… como diria você mesma: fala sério, né? Ela é sua colega de site! Eu sempre leio vocês lá.
— É verdade, mas eu nunca fui apresentada a ela.
— Poxa, quebra esse galho, vai! É um projeto bacana, tem a ver com Nietzsche, com Glauber, com contracultura! A Fernandona vai pirar!
Ô…
— Eu não sei como te ajudar. Realmente não tenho o telefone dela.
Em pensamento, completei: “E se tivesse não daria”.
— Caramba, também não precisa amarrar a cara.
— Eu não tô de cara amarrada. Tô só mastigando.
Pensa que ela foi embora? Nananina! Pegou o celular e ligou pra filha:
— Adivinha com quem eu tô lanchando? Tha-li-ta Re-bou-çaaas!
Lanchando comigo? Ela nem estava comendo!
— Cê fala com a minha filha rapidinho, Thalita? Ela te ama!
Falei com a menina, que foi uma fofa, devolvi o celular e levantei, decidida a deixar o sundae pela metade. Ela levantou junto.
— Thalita, na boa, me arruma o celular da Fernandinha! Ou o email pessoal, pode ser o email pessoal! Pela minha filha, vai!
— Eu realmente não tenho!
— Então me dá o celular do Maneco.
— Maneco? O Manoel Carlos?
— É, Maneco é para os íntimos.
— Pois é, como eu não sou íntima, para mim ele é o Manoel Carlos. E também não o conheço pessoalmente.
— Então pode ser o celular da filha dele, acho melhor chegar nele pela filha.
O celular dela tocou me salvando. Dei um tchauzinho e saí andando sem olhar para trás, pensando no sundae e nas batatas que tive que abandonar.

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Pérolas da minha caixa postal

22 setembro 2011 | 46 comentários

Antes da Bienal, eram cerca de 100. Depois dela, passaram a chegar uns 160 emails por dia. Embora eu não consiga responder, a leitura dessas mensagens sempre me encheu de alegria. Dá força receber tanto carinho, emociona saber como os meus livros mexem com as pessoas. Mas às vezes os emails me surpreendem e/ou me fazem rir. Abaixo, alguns trechos dessas pérolas.

“Thalita, tenho que fazer um trabalho pra escola, valendo nota, do Fala Sério, Amor!. Você pode me ajudar? Você só precisa escrever um perfil curto de cada personagem (máx. 7 linhas) e depois um resumo da história (máx 20 linhas). Se eu copiar resumo da Internet a prof vai perceber, vou tirar zero e ainda vou levar esporro. Não demora, por favor! Tenho que entregar daqui a 2 dias. Valeu!!!!!!”

Que tal? E eu que achava que EU era cara de pau… Tsc, tsc, tsc.

“Thalita, atachado vai um livro que escrevi sobre física quântica e sua relação com astrologia. Parece complexo, mas não é. Foram anos de estudos. Leia, revise, escreva o prefácio e o encaminhe à sua editora com uma carta de recomendação. Você não vai se arrepender. Espero uma resposta rápida, ok? Não me decepcione. Pela atenção, obrigado.”

Detalhe: o livro tinha 1200 páginas.

“Querida Thalita, é com júbilo maior que lhe escrevo esta missiva eletrônica. Sou um escritor cujo sonho é publicar um livro e me lançar nessa carreira que lhe abraçou tão intensamente. Escrevi um livro, um dos melhores que já li, modéstia à parte, e gostaria, com a sua ajuda, de publicá-lo. Você não precisa nem ler a minha obra. Eu lhe garanto: ela é excelente. A única coisa que peço é que você assine o livro comigo. Com o seu nome ao lado do meu, garanto a minha entrada no mundo das letras. Os direitos autorais serão, evidentemente, divididos em percentuais que podemos negociar. Que tal? Proposta irrecusável, não?”

Recusei a proposta irrecusável e recebi de volta um email indignado, com mil desaforos raivosos e palavrões impublicáveis. Tadinha de mim.

“Thalita, tenho 12 anos e 7 meses e tô pronta pra beijar. Minha mãe não acha isso, mas eu acho. Por isso, vim te pedir ajuda. Me ensina a beijar? Onde boto a língua? O que faço com ela? Posso treinar na tela do computador?”

Mensagens desse tipo eu recebo aos montes (com algumas variações). E, não, não acredito que ninguém, em tempo algum, seja capaz de ensinar a beijar via email.

“Thalita, adoru seu geito expontanio. kero iscreve un livro, mais num sei pur onde comessa. Td mundu diz que nassi p issu. Mi ajuda?”

Esse eu não resisti e respondi: “Comece lendo muito. Muito mesmo. Só assim você vai ganhar intimidade com a nossa língua para depois pensar em escrever um livro. Boa sorte!”

“Thalita, trabalho como DJ há muito tempo. Mando bem, boto geral pra dançar. Mas preciso virar um DJ-celebridade pra ganhar mais dinheiro. Você deve conhecer todos os DJs-celebridades. Me dá o email deles? Aí eles podem me passar as festas que eles não quiserem fazer. PS: Tenho 13 anos, nunca li nenhum livro seu, mas te adoro. Minha vizinha leu todos. Se você me ajudar prometo fazer sua próxima festa de graça.”

Hum… É… Assim… DJ-celebridade? Por que ele acha que eu conheço “todos os DJs-celebridades”? Quem são os DJs-celebridades? Tive vontade de dizer: inscreva-se no próximo BBB. Mas ele tem só 13 anos.

Viram como é divertido? Vou pegar emprestado o bordão do meu vizinho de blog, Bruno Chateaubriand: “é cada uma que parece duas”. Ou três. :-)

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Um aperitivo de Fala Sério, Filha!

16 setembro 2011 | 68 comentários

Depois da maratona na Bienal do Livro do RJ, nada melhor do que férias! Só não podia ter deixado meu querido blog assim, tão esquecido. Tsc, tsc, tsc. Má blogueira! Má blogueira! Para compensar os dias de ausência, aí vai uma crônica do livro Fala Sério, Filha! — A Vingança dos Pais, que só sai em novembro, pela editora Rocco. Divirtam-se!

O fim num bilhete

Na última semana de aula ⎯ aula de recuperação, o que é pior ⎯ fiquei com o Sapo, um garoto da minha sala feio-feio-feio, mas supergente boa. Confesso que não me empolguei nada com ele, nosso beijo não encaixou. Para mim, íamos continuar a ser amigos. Amigos que se beijaram, mas apenas amigos. E não se falaria mais no assunto “ficada”. Mas o inusitado aconteceu.
“Eu cinto muito, mais meu amor pur vc acabo. Acabo geral. Fui”.
Essas foram as… hum… frases escritas numa gaivota de papel que me atingiu em cheio na nuca no meio da aula de Matemática. Fiquei muito injuriada. Fala sério! Como assim um bilhete para terminar uma ficada? Como assim esse bilhete chegou na forma de uma gaivota de papel? E “amor”? Quem foi que falou em amor? Fiquei só duas vezes com o cara! A segunda para dar uma chance, que fique claro. Queria ver se não encaixávamos mesmo, poxa.
O pior não foi isso! Não bastasse viver a bizarra cena de ser atingida na sala de aula por uma gaivota idiota, a gaivota estava suuuupermal escrita! Que língua era aquela? Como é que eu pude ficar com uma pessoa que escreve “cinto” em vez de “sinto”, “pur” e “acabo” sem o “u”?! Que é que é isso?! Sem contar o “mais”, que para ele é a mesma coisa que “mas”. Eu sou uma otária, mesmo! Fiquei com um jegue! Que vergonha!, lamentei.
⎯ Eu ligaria pra ele pra tirar essa história a limpo! Como assim “amor”? Não teve tempo pra amor! ⎯ opinou Alice.
⎯ Não dá pra amar um cara que beija daquele jeito, com língua de manivela.
⎯ Além de feio, o Sapo beija mal, Malu? Sério?! ⎯ perguntou Nanda, chocada.
⎯ A língua dele não parava de rodar, parecia querer brigar com a minha, sabe? Um horror!
De repente, no meio desse assunto importantíssimo, aparece no meu quarto minha mãe, telefone sem fio na mão. Passou o recado entre os dentes, o ódio em estado bruto no seu semblante:
⎯ É o palhaço burro e sem coração que terminou com você com uma gaivota de papel, Maria de Lourdes! Vê se não vai se derreter pra ele! Você tem que se valorizar! ⎯ rosnou, antes de bater a porta e sair.
Do outro lado da linha, a voz do palhaço burro e sem coração parecia embargada.
⎯ Pô, aí, foi mal, Malu… Tô arrependidão… Cê é mó gente boa, desculpa terminar com você daquele jeito ⎯ ele disse.
⎯ A gente não tinha nada pra terminar! A gente ficou uma vez na festa da Carol e outro dia, depois da escola. Mas nem considero aquilo um beijo, foi praticamente uma lambida, de tão rápido.
⎯ Eu sei… é que eu não tô mais a fim de você, na boa…
⎯ Sapo, entende, EU não estou a fim de você! Nunca estive! Você beija mal, é zero bonito, zero charme, zero veneno…
Nesse minuto, um pedaço de papel surgiu por baixo da porta. Fiquei intrigada, as meninas idem. Era um bilhete. O segundo daquele dia. Dizia ele: “E zero inteligência, zero conhecimento da alma feminina e zero noção da língua portuguesa! Você é um asno, meu filho! Um semi-analfabeto, não acredito que está na mesma sala que eu! Assinado: Mamãe”.
Abri a porta e até tentei dar uma bronca na dona Angela Cristina pela falta de educação de ouvir minha conversa atrás da porta. Mas quem disse que consegui? Olhei pra ela e caí numa gargalhada silenciosa enquanto ele despejava erros de português no meu ouvido. Fechei a porta e acabei dizendo quase tudo o que ela escreveu.
Fiquei com peninha de chamar o coitado de asno, mas minha dileta progenitora mandou outro bilhete: “ASNO! ASNO! ASNO! Fala sério, filha! Trata de obedecer à mamãe!”.
Eu sucumbi ao apelo materno.
Não adiantou nada. Ele não sabia o que era asno.

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Fotógrafo de celebridades

05 setembro 2011 | 12 comentários

Em tempos de correria por conta da Bienal do Livro, onde vou bater o ponto mais cinco dias (agenda completa aqui: http://thalita.com/site/agenda-.html), não consegui parar para escrever um post como os anteriores, mas achei que valia a pena deixar registrado um diálogo que aconteceu na festa da Bienal, no Parque Lage.

A festa, aliás, foi ótima. Comida de primeira, pessoas interessantes e um cenário encantador. Encontrei amigos, tietei o Ziraldo, fiquei com vergonha de tietar o Verissimo e conversei um tempão com a Maria Paula, que vai lançar seu primeiro livro na Bienal. Ela é um doce. Mas o melhor momento da noite foi o que narro a seguir.

Amigo fotógrafo, que há anos trabalha fazendo fotos para revistas e sites de celebridades, se aproxima de mim e pede, desespero no rosto:

— Tha, me ajuda, por favor! Fica perto de mim e me diz quem é quem?
— Oi?
— Sério! Eu não conheço absolutamente ninguém aqui!
— Imagina! Tem vários escritores conhecidos na festa, tenho certeza de que você conhece a cara deles.
— Não, amiga, não conheço. Você esqueceu que eu só trabalho com celebridades e subcelebridades?
— E daí?
— E daí que só conheço quem não vale a pena, ué.

Deu peninha. Mas adorei a frase. :-)

Eu e o Ziraldo na festa da Bienal do Livro

Eu e o Ziraldo na festa da Bienal do Livro

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