Conheces o Tony Ramos?

07 maio 2012 | 11 comentários

Em 12 anos de carreira participei de inúmeras feiras literárias e como quase nunca usava a cadeira reservada aos autores (preferia ir à caça de leitores), vi muitas pessoas sentarem-se nela, em frente à mesa adornada com uma placa com o meu nome, sem a menor cerimônia, para descansar as pernas. Quando eu me aproximava e elas percebiam que estavam no meu lugar, puxavam papo para deixar a situação menos desconfortável.
No Brasil, já não passo por isso há alguns anos, mas na Feira do Livro de Lisboa, onde estive para autografar meu sétimo livro em terras lusas, coisas assim acontecem de vez em quando.
No último domingo, quase no fim da feira, quando já não se via mais adolescentes circulando, um homem de seus 50 anos e olhos profundamente azuis se aproximou do estande da minha editora, sentou-se ao meu lado e começou logo a falar.
- A senhora é autora, pois não?
- Sou.
- Brasileira?
- Isso.
- De que parte do Brasil?
- Do Rio.
- Olha só… A minha bisavó era de Curitiba. Curitiba é do Brasil.
- É… Fica na região Sul do país.
- Mas ela conheceu meu avô, que era português, aqui em Braga. Conheces Braga? – disse, ignorando solenemente minha explicação geográfica.
- Não, infelizmente.
- A Rainha Maria I foi ao Brasil, sabias?
- S-sabia.
- Não era do Brasil, era portuguesa, mas foi ao Brasil. E gostou, gostou imenso de lá, creio eu.
- Arrã…
- A senhora gosta de porra?
- Oi!?
- Porra. É da família dos churros, mas é um rolinho frito pequenino e sem recheio.
Ufa!
- Não conheço.
- Devias conhecer, é ótimo. E percebes?
- Não percebo… – respondi, sem perceber, quero dizer, entender.
- Não percebes o quê?
- Sei lá, foi o senhor que perguntou se eu percebia.
- Perguntei se já comeste percebes. É uma espécie de marisco. O aspecto é feio, mas é muito saboroso. E só existe cá em Portugal.
- Ah, não, não conheço, não sou muito chegada a mariscos.
- E jambo? Jambo é bom. Mas é do Brasil, pois não?
- É bom… E é… é do Brasil.
- Gostas?
- Gosto muito.
- Pois. E o Tony Ramos? Conheces o Tony Ramos?
- Da televisão.
- Gostas?
- G-g-gosto. Todo mundo gosta dele.
- Pois eu adoro o Tony Ramos. E ele é brasileiro como a senhora.
- Sim, é brasileiro como eu.
- Mas não escreve livros, faz novelas. A senhora podia estar nas novelas.
- Mas eu não sou atriz.
- Mas é gira. A senhora é muito gira, está de parabéns. Gira é bonita, a senhora sabe?
- Sei, sou praticamente portuguesa. — brinquei. — Muito obrigada.
- Podes me dar um autógrafo?
- Claro, com prazer!
- E este senhor? Ele é o que da senhora? É seu amigo, de certo. Só amigo, diga que ele é só amigo, só amigo.
- É meu marido.
- A sério?
- A muito sério…Estamos juntos há 15 anos.
- E gostas dele?
- Amo.
- A sério?
- A sério.
- Ah, pois. Parabéns pela sua esposa.
Carlos agradeceu.
- Posso tirar uma fotografia com ela? O senhor seu marido pode fazer a gentileza de tirar uma foto minha consigo?
- Claro que pode – respondi.
Tiramos a foto.
- Posso levar uns marcadores de livro, destes com a sua fotografia? Quero ter uma recordação da senhora.
- Pode levar quantos você quiser.
Pegou uns 70. Achou pouco e pegou mais uns 10. Sobraram outros 10 na mesa.
A sério.
- Então está bem. Boa sorte! E sucesso!
- Obrigada.
- Queres ficar com o meu email, para quando voltares a Portugal jantarmos juntos? Eu, a senhora e o seu marido?
- É… É…
- O meu email é tiago@… Ah, sim, nem me apresentei. O meu nome é Tiago Seixas, seu criado.
- Muito prazer, Tiago. Olha, é melhor você decorar o meu email, que é bem fácil: thalita@thalita.com.br
- Não posso acreditar! Estás mesmo a me dar seu endereço eletrônico? Muito obrigado, muito obrigado mesmo!
- De… de nada…
Tiago Seixas, feliz da vida, todo pimpão, pegou suas várias sacolas, cheias de marcadores de diversas editoras, seguiu seu caminho e me deixou a pensar em como existem pessoas carentes no mundo. E em como não custa nada dar um pouco do nosso tempo para elas — por mais inusitadas que sejam suas prosas.

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Amiga de banheiro

24 abril 2012 | 12 comentários

A verdade é dura: se tem uma coisa que toda mulher entende é de homem que depois de uma noite maravilhosa pede o seu telefone e não liga no dia seguinte. Uns ligam três dias depois; outros nunca ligam, simplesmente evaporam e fazem você se sentir a pior mulher do planeta. Tenho um amigo que diz que sumir é a melhor maneira de terminar um relacionamento que está no começo. Critiquei, disse que ele era um covarde. E ele reagiu, com a maior naturalidade: “não sou covarde. Sou homem. E homens são assim”.

Isto posto, conto a história a seguir, que aconteceu em um bar movimentado da sempre movimentada Copacabana. Depois de encher a pança de petiscos deliciosamente engordativos com amigos queridos, resolvi ir ao banheiro antes de pegar o táxi de volta para a Barra. Lá, não pude deixar de ouvir a conversa de duas mulheres, uma que estava do lado de fora, já lavando as mãos, e outra que, como eu, estava de porta fechada, digamos, concentrada.

- Agora é oficial, Nádia. O Eduardo me deu um pé na bunda mesmo! – disse minha vizinha de sanitário.
- Não fala assim, Sofia… – disse a amiga, solidária.
- Falo, sim! O palhaço me chamou para conversar e veio com aquele papinho de que o problema não é comigo, é com ele. E pior! Teve a cara de pau de dizer que está num momento muito dele…
- Momento muito dele uma ova! – defendeu Nádia. – Não suporto esse texto! Os homens não têm a menor criatividade! Ele ficou em cima de você um tempão. Agora que você resolveu dar mole o cara desiste de você? Não entendo os homens!
- Pois é, nem eu. Ele parecia tão apaixonado…
- E eu não sei, Sofia?
- Até flores ele me deu…
- Pegou no canteiro da portaria do seu prédio!
- Mas deu!
- É… Deu…
- Sinal de afeto.
- Ou de sovinice… Mas tudo bem… O que vale é a intenção…
- Pois é! Sei que não devo ligar, mas eu estou morrendo de vontade de falar com ele de novo. O que você acha?
- Não sei…
- Ô, Nádia, ‘Não sei’ não é resposta. Me ajuda, amiga! Eu ligo ou não ligo?
- Não sei, ué!
- Vai que ele morreu!
- Vaso ruim não quebra!
- Nádia! – estrilou Sofia. Tadinha! – Sério, ligo ou não ligo? Vai que aconteceu alguma coisa?
- Não aconteceu nada, ele só não tá mais a fim de você, não viu Sex and the City? Em bom português, ele tá cagando pra você, Sofia.
- Pô, Nádia, pegou pesado agora…
- Desculpa.
- Não sei… Tô com um aperto no coração. Fiquei com ele quase dois meses…
- Um mês e 17 dias.
- Nádia! – Sofia gritou. – Eu acho que devo seguir meu sexto sentido e ligar pra tirar essa história a limpo. O que você acha?

Silêncio do outro lado. Ela insistiu:

- Conversar é sempre válido… Não é?

Mais silêncio.

- Nádia? Nádia! Nádiaaaaa!!!

Profundo silêncio.

- Nádia, você tá aí?

Como diria Nelson Rodrigues, um silêncio ensurdecedor tomou conta do banheiro.

Nádia não respondeu. Vaca.
Eu, solidariedade em forma de pessoa, resolvi me meter:

- Nádia não tá, mas eu tô, Sofia! Eu tô aqui pra você, querida! E acho que Eduardo não presta! Não liga pra Eduardo! Eduardo é um idiota que não te merece! NÃO TE MERECE! – gritei exaltada, louca.

Só ouvi uma gargalhada. Gargalhada gigante, saborosa. Ri também e continuei.

- Desculpa, Sofia, mas precisei me meter. Eduardo é uma porcaria de homem, parte pra outra, tenho certeza de que você vai encontrar coisa melhor!

Mais risadas do outro lado e o barulho da descarga.

- Isso é maravilhoso! Morei nos Estados Unidos cinco anos e isso nunca aconteceu! Imagina se eu receberia conselho de alguma gringa num banheiro – comentou Sofia. – Sai daí, mulher, preciso ver sua cara e te dar um abraço.

Saí e dei de cara com ela e com a tal da Nádia, que estava chorando de rir encostada na pia.

- Fala sério, Nádia! Não acredito que você estava aqui o tempo todo! Deixou a coitada da Sofia falando sozinha! – bronqueei, rindo, enquanto estendia os braços para dar na Sofia, minha nova melhor amiga de infância (e de banheiro), um abraço apertado.
- Ela é uma palhaça, não merece minha amizade, agora minha amiga é você. Qual o seu nome? – perguntou Sofia, toda simpática.
- Thalita.
- Você ouviu tudo, é?
- Absolutamente tudo. Desculpa, eu sou escritora, tenho esse pretexto para escutar conversas alheias – expliquei. – Promete que não vai ligar pro Eduardo?
- Prometo. Você acha que ele não presta mesmo?
- Claro. Resolveu fazer jogo duro agora só porque você está a fim dele. Deixa o cara sentir sua falta, ter saudade de você. Ele que tem que te ligar! Se não ligar… dane-se ele!
- Certíssima! – exclamou Nádia.
- Agora você fala, né, Nádia? – implicou Sofia.
- Valeu, gente, tenho que ir. Muito bom conhecer vocês.
- Não, espera, Thalita. Você tá no Face? Posso te adicionar?

Viramos amigas de Face, trocamos emails, tiramos foto com nossos celulares e passamos a nos corresponder com frequência. Sofia não ligou para Eduardo. Eduardo, depois de duas semanas, ligou para Sofia. Ela, bonita e no salto, dispensou Eduardo.

Eduardo eu não sei que fim levou, mas Sofia logo depois do nosso encontro banheirístico engatou um namoro com um cara alto, sarado, bonito, educado, gentil, cheiroso, bem-sucedido e gente boa. Apaixonada, chegou até a me chamar para ser madrinha do casamento depois do terceiro encontro. O homem da minha vida, dizia ela. Na terceira semana descobriu que ele era casado e o namoro, claro, desandou.

Meses depois, Sofia, arrasada por não ter muita sorte com homens, conheceu o Daniel numa casa noturna vazia, em plena quarta-feira chuvosa. Estava à procura de diversão, desiludida com a ala masculina da Humanidade, mas achou um namorado. Estão viajando pela Europa para comemorar seu primeiro ano juntos. E são um casal muito fofo. Sei pelo Facebook. Nunca mais nos vimos pessoalmente, mas a gente se fala de vez em quando pelo chat da rede social. Mundo moderno.

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Bonitona, não!

05 abril 2012 | 22 comentários

Faz uns 10 anos que levei uma bela bronca da mãe de uma amiga quando lhe fiz um elogio. Explico: ela, linda e reluzente do alto de seus cinquenta e poucos anos, chegou a uma festa e eu não consegui dizer outra coisa a não ser:

- Nossa! Tá bonitona, hein, tia?

Sim, eu não consigo perder o hábito de chamar de tia as mães das minhas amigas, aquelas que eu conheço desde pirralha. Mas não foi isso que a incomodou.

- Ah, não, Thalita! Não me venha com esse negócio de bonitona!
- Por quê? Já sei, tá mais que bonitona! Tá lindona!
- PelamordeDeus, Thalita, para com isso! Nem bonitona, nem lindona! Muito menos gostosona, faça-me o favor!

Percebendo a minha cara de interrogação, ela esclareceu:

- Querida, quando a gente fica velha ninguém mais elogia a gente direito. Comecei a perceber isso quando fiz 50. Bonita, linda, gostosa… Esquece! Agora só ganho adjetivos terminados em ona. E isso me lembra vovozona, velhona, matrona… Sei lá. Eu acho que estou simplesmente bonita. Não acha?

Poin! Poin! Poin! Vinte martelos de brinquedo bateram ao mesmo tempo dentro do meu cérebro. Ela estava certa, certíssima! E hoje, aos 37 anos (37 anos!!!) eu mesma já percebo que o passar do tempo traz com ele elogios… hummm… diferentes, digamos assim.

Uns meses atrás, no Twitter, um garoto escreveu:

“Essa @thalitareboucas é a maior coroa enxuta. Pegava fácil”.

Eu… Coroa! COROA! C-O-R-O-A!!! Para o mundo que eu quero descer!

Sou do tempo em que coroas eram as amigas das nossas mães quando a gente tinha 13, 14 anos. Ok, fui ver o perfil do menino e ele devia ter pouco mais que isso. Mas coroa… Eu confesso que não estava preparada.

Além do bonitona, que já vetei do meu vocabulário, e do coroa enxuta (as duas palavras são, sozinhas, abomináveis, juntas equivalem praticamente a um crime hediondo!), a idade traz outros elogios pouco elogiosos.

- Nossa, mas a fulana tá muito bem, né?
- Bem tô eu! A Fulana tá ótima!

Por que a fulana está muito bem? Ou ótima? O que está implícito é o terrível fim da frase: “para a sua idade“.

Por que a fulana não pode estar simplesmente bonita, como bem frisou a mãe da minha amiga? Eu tenho ouvido muito isso. “Você tá ótima” pra lá, “Tá com tudo em cima” pra cá…

Povo! Homens, principalmente!, vamos parar com esse negócio de falar que a mulherada está bem! A Deborah Bloch, a Luiza Brunet, a Xuxa e tantas outras mulheres maravilhosas continuam lindas. Deslumbrantes. Assim como a Gloria Maria, a Natália do Valle e a Christiane Torloni! E tantas outras anônimas que existem por aí, com corpo incrível (não “com tudo em cima”), pele viçosa e alegria de viver (nada de “impressionante como ela ainda é animada”), entre outros predicados.

Os 50 são os novos 40, os 40 os novos 30 e os 30 os novos 20. Combinado? Sendo assim, tenho 27, com corpinho de 26, ok?

E, garoto do Twitter, antes que eu me esqueça, coroa enxuta é a sua avó! Ou melhor, bisavó! Se ela não se ofender, é claro. ☺

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Uma tarde em Veneza com jovens nerds e Paulo Coelho

22 março 2012 | 14 comentários

Viajar é sempre uma delícia, uma das coisas que mais gosto de fazer na vida. Viajar com direito a uma megafesta em um castelo lindo em Bassano del Grappa, na Itália, recepcionada por ninguém menos que Paulo Coelho, é melhor ainda, né? Através do Wiled, um amigo em comum, tive a chance de ser convidada para a festa que o escritor promove há 25 anos em homenagem a São José. Este ano, a comemoração ainda celebrou o lançamento da caneta Alchemist, da marca Montegrappa. Foi uma noite animada, repleta de sorrisos, gente bacana e emoção. Sim, fez chorar o momento em que orações a São José foram rezadas em várias línguas por convidados do mundo todo.

Depois de Bassano Del Grappa… Veneza. Saindo de um restaurante onde comi o melhor Espaguete à Carbonara da minha vida, dei de cara com Paulo e sua mulher, a simpaticíssima artista plástica Cristina Oiticica, em plena Praça São Marco. Gentil, o autor de “O Aleph” nos convidou para um passeio pela noite veneziana. Vida dura, muito dura… Flanamos e falamos da vida, de literatura, da Itália, de comida, de viagens… Uma delícia ouvir as muitas histórias do escritor numa das cidades mais lindas do mundo.

No manhã seguinte, de novo esbarramos com eles – dessa vez no lobby do hotel – e fomos dar uma volta para ver Veneza sob a luz do dia. E foi então que conheci um outro lado do Paulo Coelho. Um Paulo Coelho que, apesar dos milhões de livros vendidos ao redor do globo, ainda tem alma de escritor iniciante.

Ao entrar em uma pequena livraria, bem escondidinha, ele apresentou-se assim, em italiano:

- Olá, eu sou o Paulo Coelho. Tudo bem?

A cara das duas mulheres, provavelmente as donas do lugar, foi impagável. Elas não sabiam se riam ou se choravam, se ligavam para os amigos para contar quem estava à sua frente ou se pegavam a câmera fotográfica. Estavam chocadas, embevecidas. Foi emocionante ver o impacto que causou nelas o gesto simples do escritor. Sem ação e sem muitas palavras, elas ficaram ainda mais boquiabertas com o que ele disse a seguir:

- Querem que eu autografe algum livro pra vocês?

Rapidamente elas trouxeram todos e ele autografou um a um.

Um dos autores mais vendidos de todos os tempos, consagrado em todo o mundo, ainda age como eu sempre digo nas minhas palestras que um autor iniciante deve agir: visitando livrarias, conversando com vendedores, gerentes, livreiros.

Saímos dali e fomos em direção à praça. Enquanto caminhávamos, ele foi abordado algumas vezes por fãs e era sempre muito atencioso, fossem eles brasileiros, americanos, italianos ou iranianos. Achei lindo.

Quando o Paulo começava a me contar sua história com o pessoal do site Jovem Nerd, ele parou no meio da rua e gritou bem alto:

- Lambda! Lambda! Lambda!

Levei um susto…

É uma espécie de grito de guerra dos nerds do site Jovem Nerd, que estavam na Itália por conta da festa e de uma interessantíssima conexão com o escritor (vejam aqui). Eles estavam na nossa frente.

Fomos todos tomar um cappuccino no Florian, o café mais antigo de Veneza, e eles contaram, tintim por tintim, como começou sua relação com Paulo. Essa história é ótima, mas mais não conto. Só conto uma coisa: ainda tem Silvester Stallone no meio. Só indo no site deles pra matar a curiosidade. Vale a pena.

Respeito a opinião de quem não gosta dos livros de Paulo Coelho, assim como respeito quem não gosta dos meus. Mas sua importância para a divulgação da literatura brasileira no mundo é inegável. Ninguém fez mais do que ele, os números não mentem. As portas que o escritor abriu para outros autores brasileiros continuam lá. Quem quiser que corra atrás.

Abaixo, dois momentos desse encontro especial:


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Um Erasmo pra chamar de seu

13 março 2012 | 13 comentários

Adoro vir para Lisboa. Portugal é a minha segunda casa. Aqui tenho amigos de verdade, garçons que conheço pelo nome e até uma manicure pra chamar de minha, a Grazi. Mas Grazi estava de folga e minhas unhas berravam por um alicate e uma lixa. Precisei trair a fofa. Droga! Odeio trair profissionais de beleza. Perguntei se tinha outra brasileira no salão. Tinha. Juliana era o nome dela.
- Thalita?
- Sim, sou eu.
- Daqui a um bocadinho eu pego a senhora, está bem? Já estou a terminar aqui.
Na hora concluí que Juliana não tinha ido, porque aquela ali era portuguesa com certeza. Ok, vamos ver como são as manicures daqui na arte de cutucar espigões (porque manicure boa é manicure que cutuca. E as brasileiras são craques nisso), pensei enquanto esperava a minha vez.
Sentei-me para fazer a unha.
- Tu te importas de colocar a mão na água fria? O esquentador d’água hoje não está a esquentar… – disse ela, sotaque carregado.
- Claro que não…
- Vive cá há muito tempo?
- Não vivo cá… Vivo no Brasil e venho pelo menos duas vezes por ano, pra trabalhar e passear também. E você?
- Vivo cá há muuuito tempo.
- Mas de que região de Portugal você é?
- Não sou de Portugal. Sou de Petrolina.
Pausa! Petrolina! Petrolina, Pernambuco! E ela não disse Pé-trolina. Disse Ptrolina, com p mudo, como se tivesse dito… pterodátilo. Comeu a vogal da primeira sílaba, tal qual os portugueses. Era uma portuguesa perfeita!
- Menina, mas eu podia jurar que você é daqui! Você é a Juliana, então.
- Sim, sou Juliana. Estou cá há 16 anos. E nesse tempo só fui ao Brasil uma vez.
- Olha só… E você mora aqui perto?
- Não, mas estou a buscar um sítio nessa região. Gosto muito do Chiado. O problema é que preciso encontrar alguém para dividir o aluguer. Sozinha não é possível.
- Ah, tenho certeza de que você vai conseguir.
- Tu conheces algum Erasmo?
- Oi?
Repetiu bem devagar:
- C-o-n-h-e-c-e-s a-l-g-u-m E-r-a-s-m-o?
- Só o Carlos.
- Mas o Carlos é erasmo?
- É. Erasmo Carlos!
- Ai, que maravilha! E é boa gente?
- Todo mundo ama.
- Todo mundo ama? Não percebo… Faz o tipo popular, é isso?
- Suuuuperpopular. Todo mundo conhece o Erasmo.
- Hum… Então não sei… Não quero minha casa cheia de gente todo o tempo…
Casa cheia de gente? Foi a minha vez de não perceber… Ou, como se diz no Brasil, de não entender…
- Diga-me lá, ele é Erasmo de faculdade, de mestrado ou de doutorado?
- Erasmo da música!
- Faculdade de música?
- Não! Em matéria de música ele é pós-graduado há anos! É ídolo!
- Não estou a perceber…
- O Erasmo Carlos… Uma brasa, mora? – brinquei. – Impossível você não conhecer o Erasmo! Jovem Guarda, Wanderléa, Roberto!
- Claro que conheço! Adoro as músicas dele!
- Então! Você perguntou se eu conhecia um Erasmo e eu só conheço esse.
Ela explodiu numa gargalhada.
- Nããão! – exclamou, rindo com o corpo todo. – Não digas disparates, menina Thalita! Estou a falar dos erasmos, estudantes estrangeiros que vêm fazer em Portugal o último período, seja de faculdade, de mestrado ou de doutorado!
- Aaaaaaaah! Jura que isso se chama erasmo? É tipo o contrário de calouro?
- Justamente. Calouro é uma coisa, erasmo é outra.
- Puxa vida… então eu não conheço nenhum erasmo… Como é que se acha um erasmo por aqui?
- As pessoas anunciam no jornal, na net… Uma hora eu encontro. Mas quero um erasmo de mestrado ou de doutorado. Não tenho paciência para os erasmos de faculdade. Muito imaturos, agem como uns miúdos.
Concordei com ela que dividir apartamento com alguém de 20, 22 anos não deve ser tarefa fácil.
Mudamos de assunto e voltamos a falar do quanto amamos Lisboa, sua gente, seus restaurantes, suas paisagens, sua música, sua luz.
Saí do salão embevecida com o céu cinematográfico do entardecer lisboeta, pensando em como eu amo a língua portuguesa e como me divirto aprendendo, de bocadinho em bocadinho, o português falado aqui. É muito fixe!

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