Um papo entre Porchat, Veras e Louchard (Parte 3)

21 abril 2013 | deixe seu comentário (0)

Na parte final do papo (confira a primeira parte aqui e a segunda aqui) entre Fábio Porchat, Marcos Veras e Gabriel Louchard, eles falam sobre piadas que não funcionam, stand-up comedy na TV, influências e o maior pecado entre os comediantes: roubar o texto alheio. Confira:

FÁBIO PORCHAT: Uma pergunta aos outros dois: o que te faz desistir de uma piada? Além, lógico, dela não estar funcionando…

MARCOS VERAS: O que me faz desistir de uma piada? Bom, se eu sentir que ofendi alguém, mesmo as pessoas rindo daquilo, eu tiro a piada. Sei que o humor sempre tem uma vítima, mas ofender, não. É claro que ofender é um limite em que eu avalio o que é ou não ofensa. Porque senão todos vão se sentir ofendidos com alguma coisa e aí acaba a peça. Teve uma época em que eu fazia uma piada com o (ator) Dado Dolabella. No final do show, veio um amigo dele muito educado, dizendo que amou o show, mas me pediu pra parar com aquela piada, pois o Dado estava passando por um momento muito difícil, conturbado, e que ele era muito amigo dele, e que isso podia reverberar e prejudicá-lo. Fui lá e, sem nenhum problema, parei de fazer a piada.

GABRIEL LOUCHARD: Desisto da piada se sentir que ofendeu, aí, não. Não tem por que forçar. Outro caso em que desisto é se a piada não fica tão verdadeira. Às vezes a piada é ótima, mas eu não me encaixo naquela situação, não acredito naquilo de verdade, aí é melhor desistir do que forçar uma barra.

MARCOS VERAS: Uma pegunta: vocês, como atores, não tem vontade de fazer teatro? Calma… com mais pessoas no elenco, cenários, figurinos, dramaturgia?

FÁBIO PORCHAT: Claro que sim. Não quero estar fadado à solidão pra sempre!

GABRIEL LOUCHARD: Tenho vontade de dividir o palco com outros atores, sim, é claro, mas não agora, pois estou 100% envolvido com o Como É que Pode? e o Zorra Total. Se bem que tempo se arruma, olha o Veras, não é mágico e arruma tempo para o Zorra, Encontro com Fátima, Atreva-se e Falando a Veras. Veras, não embaralha os textos não? Já deu aquele famoso branco no Atreva-se? No stand-up, esquecer o texto é mais tranquilo, passa batido, pois tudo para o público parece um pouco de improviso.

MARCOS VERAS: Em um solo de stand-up é muito difícil dar branco. O texto é seu, coloquial, a gente brinca, dá-se um jeito na hora. No caso do Atreva-se, que tem dramaturgia, uma história para contar, o branco se mostra diferente. Se você estiver concentrado, o branco dura pouco e você improvisa com coerência. Se estiver desconcentrado o riso vem na hora, a plateia sempre gosta de ver o ator se dando mal, e eu tenho riso frouxo. Sobre fazer tantas coisas ao mesmo tempo, eu também me pergunto como dá. Mas não vejo problema nisso. Calma aí, deixa eu perguntar pra minha esposa pra ver o que ela acha…

Vocês acham que stand-up funciona na TV? Já tive uma experiência no Fantástico e acho que foi legal.

GABRIEL LOUCHARD: Claro que pode dar certo na TV. O Jô Soares abre muito espaço para isso, tinha o quadro Humor da Caneca. O Altas Horas (programa do apresentador Serginho Groisman) também dá muito espaço, o Faustão agora com o quadro Saco de Risadas, o Paulo Gustavo bombando no Multishow. Dá certo, sim! Mas, é claro, no teatro flui mais, pois você tem a resposta imediata do público, acho que fica mais quente. Em TV, quando não é programa de auditório, não fica tão quente, mas funciona, sim!

FÁBIO PORCHAT: Acho que stand-up funciona na TV, sim. Mas é uma coisa um pouco esquemática. Tem que ser no teatro, com plateia reagindo na hora, é a risada que alimenta o humorista. Se não tiver ninguém rindo fica esquisito.

VEJA RIO: Vocês já roubaram piada alheia? Mesmo que não tenha sido a piada inteira, mas pelo menos a ideia, devidamente adaptada? Se tivessem que escolher só uma, que piada vocês ouviram na boca de outro stand-up comedian e pensaram: “Putz, essa eu queria ter feito”?

GABRIEL LOUCHARD: Piada é sagrado! Eu já usei no show umas gags, piadas curtinhas, que o Hassum usava, claro que com a autorização dele. Mas textos, não, não tem como usar o um stand-up de um colega.

FÁBIO PORCHAT: Roubar texto é como roubar dinheiro. Devia dar cadeia, inclusive. Hahaha. Tem uma piada do Veras que eu acho ótima e que já me vi passando diversas vezes por ela: a da modelo que posa para uma foto, em que o fotógrafo fala “ajeita a mão, a perna, a cabeçaa, sorri, agora fica natural”.

GABRIEL LOUCHARD: Essa é ótima!!! Eu gostaria de ter escrito o texto do Hassum sobre religião, principalmente a parte em que ele imita uma macumbeira falando com ele, naquela linguagem de macumbês, e ele retruca “senhora, vai fazer uma fono, não to entendendo nada, a senhora lida com o público, vamos articular!” Porchat, seu texto sobre banheiro de mulher é demais também! Tô até pensando em fazer esta semana! Hahahaha!

MARCOS VERAS: Roubar piada é feio, é podre, é imundo, pena de morte. Não acho legal fazer isso. A matéria-prima do comediante é criar, sempre. O que pode acontecer, e acontece, é que cabeça de comediante pensa as mesmas besteiras às vezes, então pode ter algo parecido, mas nunca igual. Por exemplo, quantos comediantes falam de avião e aeroporto? Normal, porque passamos por isso sempre, então uma observação ou outra pode coincidir, mas com um detalhe ou ponto de vista diferentes. As piadas de viagens de férias do Porchat são incríveis porque você visualiza todo aquele momento e como ele passou por aquilo, tudo o que ele fala tem um propriedade incrível. Você acredita e ri junto. Não sei se tenho mais invejas das piadas ou das viagens, rsrrs.

GABRIEL LOUCHARD: Galera, para vocês quem são as referências no humor aqui no Brasil?

MARCOS VERAS: Referências de humor aqui no Brasil são várias. Citar um é impossível. Mas vamos lá: Chico, Jô, Golias, Agildo, Pedro Cardoso, Luiz Fernando Guimarães, Porchat (é verdade), eu (mentira).

FÁBIO PORCHAT: TV PirataOs Normais, Pedro Cardoso, Golias, Chico Anysio, Lúcio Mauro, Jorge Dória.

GABRIEL LOUCHARD: Jorge Dória, sensacional! Pedro Cardoso é unanimidade! Ah, e o Inri Cristo também! Hahaha. Já entre os programas, A Grande Família (Porchat, deve ser demais fazer!), Os TrapalhõesChavesTV PirataComédia da Vida Privada e, é claro, o horário eleitoral gratuito.

VEJA RIO: E as influências de fora?

FÁBIO PORCHAT: Monty Phyton.

MARCOS VERAS: Monty Phyton, Buster Keaton.

GABRIEL LOUCHARD: Gosto muito do Jim Carrey, Ramon Valdez, intérprete do Seu Madruga, Peter Sellers e Steve Martin!

MARCOS VERAS: Pergunta para Porchat e Gabriel: vocês têm vontade de fazer drama? Digo, como ator e não na vida a dois. Uiii.

GABRIEL LOUCHARD: Veras, estou agora dentro do avião, indo de Manaus pra São Paulo, num voo lotado e debaixo de um temporal!!! Quer drama maior? Falando sério, acho legal pela experiência. Acabei de filmar um curta do Maurício Rizzo, um drama, mas com pitadas de comédia. Mas vontade, vontade, no momento não sinto, não é algo que me desperta tanto interesse, pelo menos por agora, nesta fase da minha carreira.

MARCOS VERAS: Apesar de achar a comédia muito mais difícil, gosto de experimentar outras áreas. No Atreva-se, mesmo, além da comédia, um dos personagens que faço vive um drama.

FÁBIO PORCHAT: Eu sempre digo que gosto de boas histórias, comédia, drama, terror. Claro que eu tenho uma facilidade pra comédia, mas drama é um desafio que eu quero ter.

MARCOS VERAS: E o Marcos Feliciano representa vocês? Tô zuando, só pra gerar polêmica mesmo.

VEJA RIO: Para finalizar: com o que não se pode fazer piada?

GABRIEL LOUCHARD: Eu não faço piadas com a aparência das pessoas e nem com tragédias, acidentes ou assuntos que marcaram ou chocaram as pessoas com uma carga dramática forte. Fica grosseiro.

MARCOS VERAS: Não faço piada com tragédias recentes que chocaram a sociedade. Talvez, com o passar do tempo, seja permitido, mas uma favela pega fogo e o comediante vai para o Twitter ou para o palco fazer piada daquilo para mostrar que é antenado, que é atual, acho muito triste.

FÁBIO PORCHAT: Eu não faco piada com time de futebol, porque é a unica coisa que faz a plateia se irritar de verdade.

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Um papo entre Porchat, Veras e Louchard (Parte 2)

20 abril 2013 | deixe seu comentário (0)

Convidados por VEJA RIO para um papo sobre sua carreiras e comédia via Facebook, Fábio Porchat, Marcos Veras e Gabriel Louchard não economizaram. Nesta segunda parte da conversa (confira a primeira aqui), eles falam sobre renovação dos textos, diferença entre os públicos e preconceito da crítica.

MARCOS VERAS: Porchat, alguns textos do Fora do Normal você já fazia na época do Comédia em Pé (grupo pioneiro da comédia em pé no Brasil, que Porchat integrou). O público que te assiste lembra disso? Cobra renovação? Te pergunto isso porque eu sinto que tem textos que faço há cinco anos e até hoje funcionam e bem.

FÁBIO PORCHAT: Eu não vejo nenhum problema no fato de o meu show não mudar. Ninguém vai assistir a Romeu e Julieta duas vezes para ver se na segunda eles ficam juntos. As pessoas querem ver a piada que elas já conhecem. Elas levaram amigos pra ver aquela piada.

GABRIEL LOUCHARD: Eu sou um novato no stand-up, e desde que comecei a fazer vejo o Porchat e o Veras como destaques. Sempre escutei que stand-up está na moda, que é febre momentânea, que vai passar. O que vocês acham disso?

FÁBIO PORCHAT: Acho que o stand-up pegou mais em São Paulo porque lá é em barzinho. Aqui não rolou em bar, só em teatro. O stand-up se consolidou como gênero no Brasil todo, isso foi o mais importante. A gente não precisa mais explicar para as pessoas o que é.

MARCOS VERAS: Acho que houve um boom do stand-up. Muita gente fez por conta da moda e outros continuaram, montaram seus grupos, que estão cada vez mais escassos, outros montaram seus solos. Mas o fato é que o stand-up se firmou no mercado como opção de teatro, de humor. Nem todos se firmaram. Os bons que fazem stand-up, todos são atores, talvez aí esteja uma explicação de quem continua até hoje.

VEJA RIO: Lá atrás, falamos de piadas sobre o Acre. Algum de vocês já teve algum problema com alguém da plateia por conta de uma piada? Alguma vaia, algum protesto?

FÁBIO PORCHAT: Nunca durante o show aconteceu nada nesse sentido.

GABRIEL LOUCHARD: É verdade, Porchat, hoje as pessoas não falam mais “vou assistir a um show de comédia”, dizem “vou assistir um stand-up”.

Sobre a pergunta, como o meu show é interativo, sempre conto com ajuda da platéia em dois números, mas não para fazer piada delas, e sim junto com elas. São minhas parceiras por um instante, pois quando mesclo humor com a mágica, a ajuda da platéia se torna fundamental. Neste tempo todo nunca tive reclamações ou problemas. Posso dizer que passei por umas situações diferentes. Uma vez, chamei ao palco um cara que estava com uma cara de doido para ajudar. Dá para ver pela cara a pessoa que não tem vergonha de brincar ou até de subir no palco, ela te encara no olho, não disfarça nem olha para baixo, tipo fingindo admirar o carpete da sala do teatro, como os tímidos fazem. Quando chamei, ele foi de primeira, mas ele era mudo, só fiquei sabendo já no palco, mas o número rolou superdescolado, e a caravana que foi com ele ia me ajudando, respondendo quando eu perguntava alguma coisa a ele. E uma vez subiu ao palco uma mulher que estava bêbada, cambaleando mesmo. Ela estava com duas amigas que disseram que beberam bem num bar antes da peça. Deu um pouco de trabalho, mas foi divertido.

MARCOS VERAS: Nunca fui vaiado ou perseguido por conta de uma piada.

VEJA RIO: Vocês já fizeram stand-up em horários diferentes e teatros em diferentes zonas da cidade, e até fora da cidade. Vocês sentem diferença entre os públicos?

FÁBIO PORCHAT: A diferença de público existe de uma sessão para a outra, que dirá de uma cidade pra outra. Mas não importa quem seja o público, todos riem nas mesmas piadas e nos mesmos momentos.

GABRIEL LOUCHARD: A maior diferença é na idade média da platéia. Às 23h, vão poucos idosos, a plateia é mais jovem. Agora, quanto à reação às piadas, não vejo muita diferença. A grande diferença que sinto é fora do Rrio, em outros estados. Acabei de chegar de Manaus, muitas piadas que fazem muito sucesso aqui, não fizeram tanto lá, mas em outras reação lá foi muito melhor.

MARCOS VERAS: Considero o meu show muito neutro nesse sentido. É claro que há uma diferença, às vezes, pequena de uma plateia para outra, mas no geral a receptividade é sempre boa. O riso contagia, então, com a casa cheia tudo vai funcionar mais. No Leblon, já faço há quatro anos e alguns amigos comediantes ficam meio desconfiados de se apresentarem ali por acharem um público mais elitista, mas eu nunca tive problema com isso. Talvez em cidades que não têm uma vida cultural tão agitada, quando chegamos a receptividade é em dobro. Já fiz Leblon, Niterói, e até Estados Unidos, para onde, aliás, me apresento em outubro deste ano pela segunda vez por lá.

VEJA RIO: Agora eu vou me colocar, como crítico de teatro, um pouco na fogueira: vocês acham que existe um preconceito da crítica com o stand-up, como se fosse um teatro menor? Vocês tiveram dificuldade de serem assistidos, demorou até que algum crítico fosse ver vocês?

FÁBIO PORCHAT: Acho que existe um preconceito, sim. Da classe artística, inclusive. Sendo que essas pessoas nunca foram a um show de stand-up. Eu decoro um texto, subo num palco, me apresento diante de uma plateia, tenho que fazer o mesmo texto toda noite como se estivesse dizendo pela primeira vez… Se isso não é teatro, eu não sei mais o que é.

MARCOS VERAS: Há preconceito, sim, os críticos não vão ao stand-up. Você, Rafael, foi o primeiro de um veículo de grande expressão em cinco anos de Falando a Veras que foi assistir e fez crítica. A classe também se acha superior quando monta uma peça com cenários, figurinos, e que muitas vezes pode ser um fiasco, ficar dois meses em cartaz. Já vi peças de teatro que não tinham cenário. É isso que acontece com o stand-up. Tem um ator, texto e, principalmente, público. Qual o objetivo do teatro? Fazer pensar, provocar, chorar, rir. Nós fazemos rir e ponto.

GABRIEL LOUCHARD: Eu concordo, acho que há, sim, preconceito, uma impressão de que stand-up não é teatro, mas por que não? Porque não tem cenário, trabalho de iluminação? Muitos já tem, sim, outros não, agora o que importa realmente é que temos um ator/comediante no palco, que domina inteiramente a plateia com os casos que comenta e as histórias que conta. Realmente, a crítica não costuma ir em stand-up, acho engraçado. Meu irmão (o ator Gustavo Rodrigues) está em cartaz com Billdog, um monólogo sensacional onde interpreta vários personagens, sem apoio de figurinos nem cenários, e a crítica sobre a peça foi fantástica. Ele ganhou prêmio de melhor ator, realmente merecido, belo trabalho, mas não entendo por que os stand-ups não são assistidos pela crítica. Outro monólogo fantástico, Os Ignorantes, onde o Pedro Cardoso contava uma história para plateia, interpretando os personagens, era incrível!!! Mas não vejo uma distância grande entre estes tipos de monólogos e um stand-up.

VEJA RIO: Uma pergunta um pouco mais complexa: como avaliar um espetáculo que prescinde de cenário, figurinos e outros elementos que têm que estar presentes em uma peça “normal”? Como comparar um stand-up com uma peça como Atreva-se, em que o Veras atua, por exemplo?

FÁBIO PORCHAT: Como avaliar um monólogo? Interpretação do ator e texto. Se ele esta vestido de Bozo ou nu, é a mesma coisa. Enquanto tiver público eu tô feliz. Domingos Oliveira me disse um dia: não dê para a plateia o que ela quer, dê o que você quiser dar. Não podemos ficar reféns da plateia, ela é que veio nos ver no teatro.

VEJA RIO: O mais difícil, às vezes, não é avaliar, mas comparar um stand-up com uma peça grande e dizer qual é melhor.

FÁBIO PORCHAT: Como comparar Rock in Rio — O Musical (superprodução com dezenas de atores, músicos, figurinos e cenários) com A Alma Imoral (monólogo intimista com a atriz Clarice Niskier)? Acho que o grau de entretenimento atingido, a qualidade da entrega do ator, o domínio que a pessoa tem sobre aquele produto, tudo isso é igual pra todo mundo. Mas eu entendo que é dificil avaliar, e que você foi o primeiro a colocar tudo no mesmo saco. Se arriscou, até.

MARCOS VERAS: Eu, que estou no momento fazendo dois espetáculos diferentes, sinto isso na pele. As pessoas que me conhecem do Falando a Veras quando vão ver Atreva-se (comédia “convencional”, com cenários, na qual Veras divide o palco com outros atores)  ficam às vezes decepcionadas, porque ali eu faço outro tipo de humor, outro tipo de interpretação. E algumas pessoas pensam “ué, ele não vai imitar ninguém? Não vai cantar? ” O humor do Atreva-se não é um humor entregue de bandeja como é o humor de stand-up, onde a cada tringa segundos você pode ter uma piada.

GABRIEL LOUCHARD: No meu caso, sofri preconceito do público, no início, mas não por fazer stand-up, que é um gênero querido da plateia, mas pelo fato do show ter mágica. As pessoas imaginavam de cara aquela coisa cafona do mágico antigo, ou achavam que era algo infantil. Não imaginavam que poderia dar certo juntando com um gênero de estilo moderno, jovem, como é o stand-up. Mas com o tempo de peça e o boca-a-boca consegui reverter o jogo.

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Um papo entre Porchat, Veras e Louchard (Parte 1)

19 abril 2013 | deixe seu comentário (0)

Três feras do stand-up comedy, Fábio Porchat, Marcos Veras e Gabriel Louchard estão atualmente em cartaz na cidade, cada um com seu solo. O primeiro está no Teatro Miguel Falabella com o sucesso Fora do Normal, em cartaz há quase três anos. Responsável pelos quadros humorísticos do programa Encontro com Fátima Bernardes, Veras é a estrela de Falando a Veras, no qual mistura comédia em pé com impagáveis números musicais, no Teatro do Leblon. Já o Teatro das Artes recebe o mais inusitado dos três stand-ups, Como É que Pode?, no qual Louchard mistura humor com mágica. A convite de VEJA RIO, os três bateram um longo papo via Facebook, mediados por mim. A primeira parte dessa conversa, com direito a vários momentos divertidos, claro, você lê a seguir. A segunda e a terceira, você confere neste mesmo blog amanhã e domingo, respectivamente.

VEJA RIO: Para começar, queria perguntar o seguinte: há quanto tempo cada um de vocês está com o stand-up em cartaz? Nesse tempo, vocês fizeram algum tipo de ajuste, alguma modificação, inseriram novas piadas, para atrair novos espectadores?

GABRIEL LOUCHARD: Vamos que vamos!!! Estou em cartaz com Como É que Pode? há um ano e meio direto. Primeiro fiz na Barra, depois Gávea, Niterói e retornei à Gávea. Acho que o Porchat e o Veras estão há mais tempo, lembro de ter assistido a Falando a Veras no Leblon, antes mesmo de começar a produzir o meu espetáculo. Neste tempo em cartaz, o espetáculo amadureceu muito, acho que é normal. Nós sempre deixamos aquilo que é tiro certo, funciona mais, e vamos trocando o que achamos que ainda pode ser melhor. Meu show tem um roteiro rigoroso, pois envolve alguns números de mágica, por isso é necessário estar tudo afiado com som, luz e cenário. Estes números não são modificados. O que mudo, às vezes, são os textos de stand-up que costuram o show entre um esquete e outro. Nesses textos, sim, consigo encaixar assuntos do momento, tipo Marco Feliciano, preço do tomate…. Agora, o que faz mesmo cada apresentação ser única, diferente da outra, é o fato de ter alguns números interativos com a plateia. Cada dia é uma pessoa diferente, com estilos e reações diferentes também. Isso proporciona uma boa dose de improviso e espontaneidade ao show.

FÁBIO PORCHAT: Eu estou em cartaz há três anos com a peça. Pouca coisa mudou de texto. O que foi acontecendo é que, com o domínio maior do espetáculo, os tempos foram se transformando. Eu passei a brincar mais fazendo. Pausas, intenções, respiração, voz, eu vou tentando refinar cada ação física para encontrar a forma perfeita daquela piada. Eu evito colocar no show coisas muito factuais ou regionais. Então, o show acaba tendo uma dimensão mais universal. Fiz esse show em Londres, Japão, Acre, e não mudei uma vírgula. Eu hoje sei em que momento pegar ar, em que parte engolir, quanto tempo de pausa dar entre uma risada e outra. O risco é deixar cair no mecânico. Para isso eu aplico uns golpes em mim mesmo. Durante o show, eu às vezes mudo uma informação que eu sempre dou pra ver se eu tô atento.

VEJA RIO: Você fez esse show no Acre, Porchat? Mas não tem uma parte em que você faz piada com o Acre?

FÁBIO PORCHAT: Fiz o show no Acre, sim. E tenho uma piada sobre o Acre. Eu fiz lá, mas adaptando a piada, claro.

MARCOS VERAS: Em julho, completo cinco anos com Falando a Veras. O show que fazia em 2008 é completamente diferente do que faço hoje, mas a essência é a mesma. Já fiz personagens junto com o stand-up, misturava essas linguagens. De dois anos para cá, passei a fazer só a parte do stand-up e os números musicais. Percebi que, com os personagens, o show estava se tornando longo demais. E com os personagens eu tinha um outro espetáculo, que pretendo montar em breve. Rir também cansa. É melhor ficar o gostinho de quero mais do que o de não aguento mais. Porchat me ajudou a diminuir o show, a enxugar. A gente fica muito apegado a piada, porque ela é boa, fica com pena de tirar. Mas hoje faço só o filé. Faço uma hora e quinze minutos de show sem nenhum buraco, nenhuma barriga. E, assim como Porchat citou, hoje tenho controle do que digo, da maneira que solto a piada, sei exatamente o que funciona. E, assim como ele, evito colocar coisas atuais. Meu show é neutro, universal. Faço em qualquer lugar. Em teatro, em empresa e já fiz até nos Estados Unidos, para onde volto agora em outubro para fazer mais para os brasileiros que moram lá. Gosto de falar de música misturada a humor. Acho essa dupla infalível.

VEJA RIO: Veras, como o Porchat colaborou com o seu espetáculo?

MARCOS VERAS: Sempre quis trabalhar com o Porchat, aí fomos nos aproximando, nos identificando com o humor em comum, casamos, tivemos dois filhos… Rsrs. Chamei ele para dirigir uma nova versão do Falando a Veras. Como a peça já estava havia um bom tempo em cartaz, ele entrou como um supervisor e me ajudou na escaleta da peça, e a cortar algumas coisas. Ele foi assistir duas vezes a peça, assistimos ao DVD juntos e fomos anotando coisas, corta ali, tira ali, muda aqui, pausa aqui. E aí consegui diminuir, e me desapegar de alguns números musicais que estavam sobrando.

O legal é perceber como o humor é rico. Aqui temos três comediantes que fazem solos completamente diferentes. Um é um stand- up tradicional, outro tem música e imitação, outro tem mágica. Isso é muito legal.

Gabriel, o que veio primeiro? O humor ou a mágica? E como você se classifica? Comediante mágico? Mágico comediante? Mister M do Humor?

GABRIEL LOUCHARD: Interessante o que Porchat falou no início, é impressionante como com a prática e o tempo vamos vendo que pequenos detalhes ajudam a melhorar muito a piada. Às vezes, uma mudança no tempo da respiração ou na entonação podem mudar completamente a reação da plateia. Mas eu também sou adepto de não mudar muito o show, não. Realmente, as pessoas querem ver de novo aquilo de que gostaram. Como um show de um cantor, se ele não cantar os grandes sucessos as pessoas reclamam. Tem um conhecido que foi assistir a minha peça sete vezes, cada vez levava alguém. Numa dessas eu fiz um teste mudando o início da peça, quis experimentar outro texto. No final, ele reclamou muito que a abertura tinha mudado, ele queria ver pela sétima vez a mesma piada!

Para responder à sua pergunta, Veras, eu comecei aos 10 anos de idade fazendo curso de mágicas e de teatro ao mesmo tempo. Uma coisa sempre andou paralela à outra. Mas aos poucos fui ganhando mais destaque com a mágica, natural, porque um garoto de 13, 14, 15 anos, fazendo show de mágicas não era tão comum. Com isso, fiquei um pouco mais afastado do teatro, e quando percebi era o “Mágico Gabriel”. Durante um tempo, achei legal, mas depois vi que não era o que eu queria, não queria ser rotulado como mágico. Eu sempre gostei de fazer mágicas, mas ainda mais de atuar e fazer humor. Eu já fazia mágicas de uma forma engraçada, com uma proposta diferente, nova. O pulo do gato foi há uns cinco anos, quando conheci o (comediante) Leandro Hassum. Ficamos amigos e comecei a fazer participações no Nós na Fita (espetáculo que Hassum fazia com Marcius Melhem) e no Lente de Aumento (stand-up de Hassum). A partir daí, pude experimentar o stand-up, e o meu desafio era fazer humor, apenas o texto, sem o apoio das mágicas. Pratiquei bem, estudei, fiz o curso do Porchat lá na CAL. Finalmente consegui, vi que deu resultado, daí me senti à vontade para montar um espetáculo onde eu fizesse as coisas que eu mais gosto: mágica e humor, sendo que em alguns momentos eu faço apenas textos de stand-up e, em outros, números de mágicas cômicos. Portanto, me considero um humorista que faz mágicas também.

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Crítica: Como É que Pode?

04 abril 2013 | deixe seu comentário (0)

✪✪✪ COMO É QUE PODE?, de Gabriel Louchard e Mauricio Rizzo. Estrelado por Louchard, é um exemplo de stand-up comedy que foge inteiramente do comum. O espetáculo mistura com notável habilidade quadros de comédia em pé e truques de mágica. Entre divertidas histórias, como a que fala de um mágico de festinhas infantis, Louchard vai interagindo com a plateia em números surpreendentes. Direção de Leandro Hassum.

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