Censura, musa inspiradora, só que não

21 março 2014 | deixe seu comentário (0)
A Cia Velha em foto de Jorge Bispo:

A Cia Velha em foto de Jorge Bispo: música dos anos de chumbo sexta (28) e sábado (29), às 21h, no Oi Futuro Ipanema

 

Atração do projeto Paralelos, dedicado a músicos reunidos em trabalhos alternativos, a Cia. Velha apresenta, no Oi Futuro Ipanema, sexta (28) e sábado (29), o espetáculo Volume Zero. No repertório, o grupo formado por integrantes da banda Os Outros, além de Amora Pera e Pedro Rocha, das Chicas, e de Yuri (sax) e Janjão (trombone), passeia por composições de alguma forma inspiradas pela ditadura, submetidas à censura ou criadas durante o exílio de seus autores. Conversamos com o baixista Vitor Paiva sobre o show, programa bem oportuno nesse momento de lembrança do cinquentenário do golpe de 1964 – marco inicial das duas décadas de perseguições tacanhas nas artes, nos costumes e na política. Ah, o Vitor também deu uma dica deliciosa: o site Censura Musical, uma bem documentada fonte de pesquisas da turma, cujo link você encontra aqui.

 Fala Vitor

Esse projeto é um desenvolvimento daquele resgate anterior feito pela banda, dedicado ao repertório de 1969?

Em 2009, com Os Outros, exploramos as músicas mais tocadas no Brasil em 1969, era um repertório fabuloso. Em 2010 repetimos a dose com o ano de 1970. Foi muito legal, mas deu uma cansadinha. Íamos fazer o que em seguida? 1971? Paramos naturalmente, até porque esse era um projeto paralelo nosso. Depois, começamos a desenvolver o Volume Zero, um espetáculo de músicas caladas pela ditadura, censuradas ou compostas no exílio. Tínhamos a ideia há alguns anos, já, mas demorou a sair e, curiosamente, vamos nos apresentar às vésperas do aniversário de 50 anos do golpe. O show ganhou um novo sentido, em parte por essa coincidência, em parte porque a censura voltou a ser discutida nos últimos tempos.

Deve ter sido divertido pesquisar as músicas para a apresentação.

No show anterior tínhamos uma lista maravilhosa, a do final dos anos 60. Entre as músicas censuradas o repertório também é fantástico, mas trata-se de um apanhado de composições que não têm maior relação uma com a outra. Buscamos evitar o óbvio, aquele monte de obras do Chico (Buarque), que foi muito proibido, assim como Taiguara, Gonzaguinha. Procuramos abarcar um período muito rico e complicado, fazendo isso com humor, até porque algumas atitudes da censura eram inexplicáveis por um ponto de vista sério. Também revisitamos Milagre dos Peixes (disco de Milton Nascimento, de 1973), que foi praticamente todo censurado, o Milton trocou as letras proibidas por solfejos e fez um disco sensacional. A censura, instituição da qual ninguém tem saudade, foi quase uma parceria na produção do LP.

Você pode citar alguns achados na seleção que a banda vai tocar?

Temos Comportamento Geral, do Gonzaguinha, é meio evidente a razão da censura à letra, mas também vamos de Vaca Profana, do Caetano. Qual terá sido o problema? O verso que fala de “divinas tetas”? Vamos tocar ainda Samba do Arnesto, do Adoniran, encrencado por causa do português errado. Pra Aquietar, do Luiz Melodia, que eu adoro, está na lista. A música tem uma letra deliciosamente nonsense, que ele foi criando para substituir a original, cortada pelos censores. O próprio Melodia nem lembra dos versos anteriores e foi botando qualquer coisa no lugar para conseguir a liberação.

Assista à banda aqui interpretando London, London, canção de Caetano composta no exílio, também no programa do show

 

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