Uma tarde vazia de verão

Leia na crônica de Manoel Carlos

Tínhamos uma vizinha de bairro, dona Alzira, que apanhava muito do marido. Às vezes gritava tanto que os vizinhos socorriam. Quando o marido morreu, depois de um período de luto e recolhimento dona Alzira reapareceu, suspirando. Minha mãe argumentou com certa impaciência:

— Bem, Alzira, imagino que você esteja sofrendo, mas… pense bem. Agora, pelo menos, você não apanha mais!

E ouvimos dona Alzira suspirar e dizer, as lágrimas reaparecendo:

— Sabe de uma coisa? A saudade está doendo mais do que as surras que eu levava.

***

Começo de um novo ano, assuntos esgotados: Natal, réveillon, votos gerais de boas festas. Enfim, os bordões habituais a essa época. Palavras de esperança, sempre ela, essa dama que nos atrai e nos repele, nos acarinha e nos maltrata, e que está sempre presente nos lábios, nos olhos e no coração de todos, mesmo aqueles que se declaram desesperançados.

— Principalmente esses — afirmou alguém.

E o assunto seguiu, sem que nenhum de nós tivesse ânimo de mudar o rumo da conversa.

— Repetindo vagamente um texto de Machado de Assis, perder a esperança não é perder, inevitavelmente, o desejo. Esse pode ser preservado.

Nesse momento, nossa querida Carla perguntou à queima­-roupa: de que adianta conservar o desejo sem esperança? E por que manter a esperança se o desejo já se foi?

Alguém protestou:

— Calma. Nada de começar o ano num clima deprê! Vamos achar que 2017 será melhor que 2016.

— E vamos acreditar também que Papai Noel existe.

— Ué, e ele não existe?

— O que sei é que aprendemos muito com a realidade.

— Aprendemos mais com a ficção.

— Pronto, lá vem você com suas frases de efeito.

E com isso começava uma discussão que só serenava quando abríamos outra garrafa de um branco servido muito frio, quase gelado, e que descia pela garganta como fios de seda.

***

Gostamos desse papo de café. Cortar a continuidade dos temas abordados com outros temas que logo serão substituídos, numa ronda sem fim. Assuntos variados e sem roteiro.

— Palavras, palavras, palavras… como dizia o pobre Hamlet.

— Pobre ou nobre?

— Pobre e nobre!

— Era sobre isso que falávamos no Café Severino.

— Sobre isso o quê?

— Sobre coisa nenhuma.

— Ah, bom.

Ah, muitas eram as tardes de verão que perdíamos nessas divagações sem fim.

— Perdíamos? Acho que ganhávamos.

— É, pode ser.

— Isso está parecendo conversa de bêbado.

— Ou de louco.

Estou me lembrando da reflexão de Chesterton sobre os dementes: o louco é aquele que perdeu tudo, menos o juízo.

— É, pode ser…

— É só isso que você vai dizer hoje?

— Por que não?

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