Colcha de retalhos
08 junho 2012 | 2 comentários
Em alguns aspectos, meu pai era um personagem. Desses que encontramos em filmes e romances, não como protagonistas, mas como coadjuvantes que se destacam por suas peculiaridades.
Uma vez ele achou minha mãe pensativa e triste durante todo o almoço familiar.
– Você está quieta, suspirando o tempo todo. Aconteceu alguma coisa?
– Tive um sonho ruim — respondeu minha mãe. — Sonhei que você morria de repente e me deixava sozinha com as crianças. Acordei chorando, angustiada.
E meu pai, tocando suavemente a mão da minha mãe, tranquilizou-a com estas palavras de onipotência:
– Fique tranquila. Jamais farei isso com você.
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Coleciono lembranças familiares, assim como outras, que vivi com amigos, namoradas, viagens, nascimentos e mortes. Uma espécie de colcha de retalhos. Existirá alguma coisa mais familiar, mais doméstica, do que uma colcha de retalhos, confeccionada pacientemente por uma mãe ou, melhor ainda, por uma avó, de preferência gorda, de óculos e com um coque no alto da cabeça?
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Como todo mundo, tive duas avós, convivi com elas, foram de grande importância na minha vida. Mas não conheci os meus avôs. Um deles, Manoel, pai do meu pai, morreu um ano antes de eu nascer. No mesmo dia e quase na mesma hora. Meu pai então anunciou que me daria o mesmo nome. Era uma homenagem que ele fazia ao pai. Minha mãe, no entanto, delicadamente, argumentou que, juntando Manoel ao nosso sobrenome, eu ficaria excessivamente português. E, mais delicada ainda, disse que Manoel era um nome de velho. E por que pôr um nome de velho em alguém que acabava de nascer? E sugeriu que se agregasse o Carlos. Meu pai cedeu e assim foi feito. Muitos anos depois ela me contou que o Carlos do meu nome representava a primeira e última vez, em toda a vida, que meu pai concordara com ela. Senti que era um protesto tardio. E vi que ela tinha lágrimas nos olhos. Chorava sem ruído. Delicadamente, como sempre.
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Meu primo Ary era um modelo de menino. Inteligente, estudioso, limpo, unhas cortadas, cabelos penteados e sempre bem-arrumado. Gentil com as meninas, respeitoso com os mais velhos. Enfim: um exemplo. Eu era exatamente o oposto. Tínhamos uma diferença de dois anos. Ninguém escondia na família a preferência que todos tinham por ele. E me perguntavam:
– Por que você não é igual ao Ary?
Eu não sabia o que responder. Meu primo tinha a caligrafia bonita e desenhava bem. Durante a II Guerra, a especialidade dele era desenhar aviões. As fortalezas voadoras B-29, da Força Aérea americana. Desenhava bombardeios, soldados feridos no chão, enfermeiras com uniforme da Cruz Vermelha. E também colocava no papel, com algum talento, as batalhas navais que se desenrolavam, com cruzadores, encouraçados e submarinos. Em 1944, eu fui para o internato de padres espanhóis, porque meus pais desistiram de me educar. Eu tinha 11 anos. Ary, com 13, já estava terminando o ginásio e fazendo planos para o futuro. A família inteira babava de amor por ele. Concordo que era um exemplo a ser seguido.
Em 1946, precisamente no dia 30 de maio, meu primo perfeito saltou do bonde diante da casa em que morava e foi atropelado e morto por um carro. Tinha 15 anos e era filho único. Pode-se imaginar a comoção que atingiu a família. E, para agravar a situação, era o dia do aniversário do meu tio, pai dele.
Pouco tempo depois, eu estava de férias e fui ao aniversário da minha avó, a família inteira reunida. Quando entrei, todos se voltaram, como as pessoas na plateia de um teatro voltam os olhos para um ator que entra no palco, inesperadamente. Houve um instante de silêncio. E eu percebi uma certa contrariedade no olhar que me dirigiam. Naquele momento a situação não me tocou tanto, mas alguns anos depois, revivendo na memória aquele curto instante de muda tensão, me ocorreu que alguns ali poderiam estar pensando que Deus fizera uma escolha injusta ao levar o bom Ary.
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Parafraseando Rousseau: só vejo bem o que relembro.




