Colcha de retalhos

08 junho 2012 | 2 comentários

Em alguns aspectos, meu pai era um personagem. Desses que encontramos em filmes e romances, não como protagonistas, mas como coadjuvantes que se destacam por suas peculiaridades.

Uma vez ele achou minha mãe pensativa e triste durante todo o almoço familiar.

– Você está quieta, suspirando o tempo todo. Aconteceu alguma coisa?
– Tive um sonho ruim — respondeu minha mãe. — Sonhei que você morria de repente e me deixava sozinha com as crianças. Acordei chorando, angustiada.
E meu pai, tocando suavemente a mão da minha mãe, tranquilizou-a com estas palavras de onipotência:
– Fique tranquila. Jamais farei isso com você.

***

Coleciono lembranças familiares, assim como outras, que vivi com amigos, namoradas, viagens, nascimentos e mortes. Uma espécie de colcha de retalhos. Existirá alguma coisa mais familiar, mais doméstica, do que uma colcha de retalhos, confeccionada pacientemente por uma mãe ou, melhor ainda, por uma avó, de preferência gorda, de óculos e com um coque no alto da cabeça?

***

Como todo mundo, tive duas avós, convivi com elas, foram de grande importância na minha vida. Mas não conheci os meus avôs. Um deles, Manoel, pai do meu pai, morreu um ano antes de eu nascer. No mesmo dia e quase na mesma hora. Meu pai então anunciou que me daria o mesmo nome. Era uma homenagem que ele fazia ao pai. Minha mãe, no entanto, delicadamente, argumentou que, juntando Manoel ao nosso sobrenome, eu ficaria excessivamente português. E, mais delicada ainda, disse que Manoel era um nome de velho. E por que pôr um nome de velho em alguém que acabava de nascer? E sugeriu que se agregasse o Carlos. Meu pai cedeu e assim foi feito. Muitos anos depois ela me contou que o Carlos do meu nome representava a primeira e última vez, em toda a vida, que meu pai concordara com ela. Senti que era um protesto tardio. E vi que ela tinha lágrimas nos olhos. Chorava sem ruído. Delicadamente, como sempre.

***

Meu primo Ary era um modelo de menino. Inteligente, estudioso, limpo, unhas cortadas, cabelos penteados e sempre bem-arrumado. Gentil com as meninas, respeitoso com os mais velhos. Enfim: um exemplo. Eu era exatamente o oposto. Tínhamos uma diferença de dois anos. Ninguém escondia na família a preferência que todos tinham por ele. E me perguntavam:
– Por que você não é igual ao Ary?

Eu não sabia o que responder. Meu primo tinha a caligrafia bonita e desenhava bem. Durante a II Guerra, a especialidade dele era desenhar aviões. As fortalezas voadoras B-29, da Força Aérea americana. Desenhava bombardeios, soldados feridos no chão, enfermeiras com uniforme da Cruz Vermelha. E também colocava no papel, com algum talento, as batalhas navais que se desenrolavam, com cruzadores, encouraçados e submarinos. Em 1944, eu fui para o internato de padres espanhóis, porque meus pais desistiram de me educar. Eu tinha 11 anos. Ary, com 13, já estava terminando o ginásio e fazendo planos para o futuro. A família inteira babava de amor por ele. Concordo que era um exemplo a ser seguido.

Em 1946, precisamente no dia 30 de maio, meu primo perfeito saltou do bonde diante da casa em que morava e foi atropelado e morto por um carro. Tinha 15 anos e era filho único. Pode-se imaginar a comoção que atingiu a família. E, para agravar a situação, era o dia do aniversário do meu tio, pai dele.

Pouco tempo depois, eu estava de férias e fui ao aniversário da minha avó, a família inteira reunida. Quando entrei, todos se voltaram, como as pessoas na plateia de um teatro voltam os olhos para um ator que entra no palco, inesperadamente. Houve um instante de silêncio. E eu percebi uma certa contrariedade no olhar que me dirigiam. Naquele momento a situação não me tocou tanto, mas alguns anos depois, revivendo na memória aquele curto instante de muda tensão, me ocorreu que alguns ali poderiam estar pensando que Deus fizera uma escolha injusta ao levar o bom Ary.

***
Parafraseando Rousseau: só vejo bem o que relembro.

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Menino ou menina?

26 maio 2012 | 7 comentários

Antigamente as crianças nasciam com mãos e olhos fechados. Lembro-me de que uma vez, diante de um recém-nascido, meu tio Carlos, que se achava engraçado, encontrou uma resposta para as mãozinhas fechadas:

– Já se nasce pão-duro!

Em poucos dias, olhos e mãos iam-se abrindo para o mundo, propiciando comemorações familiares. Vivi esses momentos felizes com o nascimento dos meus dois primeiros filhos. Fui às lágrimas com minha mulher, de 17 anos no primeiro e 18 no segundo. E eu, respectivamente, com 19 e 20 anos.  Quanta saudade!

Hoje as crianças já nascem prontas, só faltando mesmo falar, o que não deve estar muito longe de acontecer. Vivemos tempos vorazes, que a natureza acaba acompanhando. Receio que um dia o iPhone seja mais lembrado do que a viagem à Lua!

Mas voltemos aos bebês e a uma historinha que a Priscila, namorada do meu afilhado Bruno, contou aqui em casa.

Uma amiga dela ficou grávida. Fez os ultras de praxe e tanto o marido como a família e alguns amigos ficaram sabendo o sexo do bebê, menos ela. Não quis.

– Quero ter a surpresa!

Um capricho? Pode ser. Mas, em questões sensíveis como essa, o direito de saber é tão legítimo quanto o de ignorar.
Para o quarto do bebê tudo já estava escolhido: cortinas, mobiliário e objetos de decoração permaneciam separados nas lojas especializadas, aguardando apenas a definição.
– Se menino, levo isto; se menina, levo aquilo.

Quanto à cor das paredes, a escolha de praxe: azul, se menino; se menina, rosa.

O marido, a família e as amigas argumentavam que ela não teria tempo de mandar pintar o quarto, se esperasse o bebê nascer. A decoração também correria risco, diziam. Ia acabar faltando alguma coisa, não ficando tão caprichado, etc. etc. Em meio a toda essa aflição foi que a melhor amiga da futura mamãe, já escolhida para comadre, encontrou a solução salvadora:

– Vamos combinar uma coisa. Eu vou ser a madrinha e já prometi que vou dar de presente o quarto do bebê, seja ele menino ou menina. Certo?
– Certo, mas e daí?
– Daí que então você me dá a chave do quarto e deixa tudo por minha conta.

Todos respiraram aliviados. E foi assim que foi feito. A madrinha combinou com o pintor a cor das paredes, buscou nas lojas o berço, a cortina, a roupa de cama e os objetos de decoração, tudo de acordo com o sexo do bebê. A operação toda se desenrolou com perfeição, sem correr riscos, já que a jovem grávida ficou na casa dos pais durante o último mês de gestação.

Tudo pronto, a inspirada madrinha trancou o quarto e deu a tarefa como terminada.

A história poderia acabar aqui, mas temos ainda dois dedos de prosa, como se dizia antigamente. Dois intrometidos dedos do acaso, digo eu.
Sentindo as dores do parto iminente, marido e mulher entraram no carro e rumaram para a casa de saúde, passando antes no apartamento em que moravam, distante uma quadra.

Cheios de pressa, temendo que o bebê nascesse no caminho, entraram pela porta dos fundos. Pois bem: bastou que dessem dois passos e os olhos da jovem grávida fixaram-se nas latas vazias de tinta, que o pintor do quarto deixara num canto da área de serviço.
Latas vazias de tinta… cor-de-rosa!

Pois é. Tanto cuidado e faltando tão pouco… Claro que algumas lágrimas rolaram, mas uma hora depois, no quarto da casa de saúde, rodeadas de flores, mãe e filha sorriam, felizes.

Para os que podem pensar ser essa uma obra de ficção,  Priscila — devidamente autorizada — revela os nomes verdadeiros dos que viveram essa história real:

MÃE………………….Flávia Letícia
PAI……………………Gustavo Gabriel
MADRINHA……..Viviane
BEBÊ………………..Letícia

Assim mesmo, como nos letreiros de filmes e de novelas de televisão.

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Mãe é mãe

12 maio 2012 | 3 comentários

Quem tem mãe tem tudo — é frase que ouvimos desde criança. E não há quem não a reverencie, tenha sido ela boa ou má. Mas existirá alguma mãe que possa ser designada como má?

Naquela tarde, no Café Severino, propusemos o tema. Que cada um falasse sobre a própria mãe. Principalmente, do que mais lhe devia como gratidão.

— Com a minha mãe aprendi a ser paciente, a saber esperar — disse o Chico. — Devo isso a ela.

— Com a minha, o amor pelas viagens — declarou a Suzana.

— A minha me incentivou a ler. Fazia sugestões. Colocava um livro na minha mão e dizia: “Leia este, é bom, você vai gostar” —
garantiu a Carla.

E assim foram se sucedendo as virtudes que cada um de nós destacava e louvava em sua própria mãe.
Quanto a mim, sempre admirei na minha mãe a tolerância, a piedade, a misericórdia. Ela não acreditava no mal. Por isso, não acreditava no inferno. Dizia sempre:

— Ah, Deus se compadece de todos! Não há de condenar ninguém ao fogo eterno!

Gostaria de ter seguido seus passos, exercitado com mais fervor essas virtudes que nela eram naturais, como se nem virtudes fossem.
As mães são um assunto inesgotável. Não há, entre os seres humanos, nenhum que tenha deixado de sentir — ainda que por um segundo — o calor dos braços de uma mãe. Ou sofrido com a ausência deles. E a frase mais definitiva, aquela que encerra todas as discussões, é a que diz apenas: mãe é mãe.

E todos citaram também as imagens maternais que guardavam na memória e que representavam um gesto de extrema bondade. E lembrou-se de tudo, muitas vezes com emoção e sempre com saudade. Para mim, o gesto maternal mais comovente é o da mãe que vai à cama do filho, quando a noite esfria, para ver se ele está agasalhado, protegido. E ajeita a coberta sobre ele, ternamente.
Foi nesse momento que chegou o Raul.

— Do que é que vocês estão falando? — quis ele saber.

— Falamos de mães — informou o Gabriel.

— A favor ou contra?

Então ouvimos uma voz perguntar:

— Posso participar?

Nós nos entreolhamos, surpresos. Não conhecíamos aquele homem que aparentava uns 60 anos e nos olhava da mesa vizinha. Sem esperar a resposta, ele aproximou uma cadeira, sem deixar a mesa que ocupava:

— Só quero dizer a vocês que o que eu mais lembro e louvo em minha mãe, que já morreu há muitos anos, foi uma surra de vassoura que ela me deu.

Novamente nos entreolhamos, surpresos e divertidos. Ele continuou:

— Acreditem. Uma surra de vassoura. Melhor: com o cabo de uma vassoura!

— Pode-se saber a razão da surra? — perguntou a Carla, escancarando os olhos, como sempre.

— Porque fui reprovado na escola — respondeu o desconhecido. — Éramos pobres, órfãos de pai, e com muito trabalho minha mãe pagava uma escola particular, que era a melhor da cidade em que morávamos. Ela me batia e dizia, enquanto eu gritava: “Você não tem o direito de ser reprovado e com isso me obrigar a pagar um ano a mais de escola! A viver um ano a mais de sacrifício!”.

E concluiu, levantando-se:

— Não pensem que ela era cruel. Não. Ela me dava também muitos beijos e me contava histórias na hora de dormir. Mas sabia dividir seu amor entre o carinho e o cabo de uma vassoura. Não me esqueci nem de um, nem de outro. Aos dois eu devo a minha formação. Desculpem a intromissão. Boa tarde para todos.

E ele partiu. Foi o nosso momento de descontração naquela linda tarde de outono. A reunião acabou depois de um brinde que fizemos a todas as mães, vivas e mortas. Àquelas que nos ensinaram com beijos e com cabos de vassoura.
Mais tarde, caminhando no Leblon, as luzes das ruas já acesas, como a me protegerem — maternais — da escuridão da noite, repeti para mim mesmo: mãe é mãe.
* * *
O pensador francês Roland Barthes (1915-1980), em seu Diário de Luto, conta que deixou de temer a própria morte depois que a mãe morreu. Descobriu que o que temia, na verdade, era pensar no sofrimento que causaria caso morresse antes dela.
Vale repetir: mãe é mãe. E está dito tudo.

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De médico e de louco…

28 abril 2012 | 4 comentários

 

Marcamos no Café Severino a comemoração pelo retorno do Gustavo ao nosso grupo. Nosso amigo de muito tempo, Tavinho andou arredio, devido a um turbulento divórcio que enfrentou por mais de um ano e que o deixou deprimido. Com isso, afastou-se de tudo e de todos, indo morar um largo tempo em Petrópolis. Agora, dissipadas as negras nuvens da turbulência e já vivendo novamente em paz, eis que ele retornava a nós e ao nosso reino. Não é a primeira vez que um divórcio penaliza algum membro do nosso grupo. Afinal, todos nós já cruzamos a faixa dos 60 anos e contabilizamos mais de um casamento, à exceção de alguns poucos, como Carla e Gabriel, ambos na casa dos 30. Eles fazem parte da nova geração de frequentadores da nossa roda de vinho e grana padano. Gosto dessa presença jovial, pois impede que as reuniões fiquem lacrimosas, cheias de recordações, e que os assuntos mais frequentes sejam os incômodos na lombar e na cervical, além do medo do diabetes e a comparação entre os níveis de colesterol e glicose. Com a mocidade, fala-se da vida, não de doença e morte.

Mas nessa tarde, mesmo com a presença deles, o assunto perigoso voltou a imperar, enquanto nós cinco esperávamos a chegada da turma toda, inclusive do festejado Gustavo.

— Minha glicose está em 105 — anunciou o Raul.

— É alta. Você já está diabético — sentenciou Alfredo, que é um assumido hipocondríaco.

— Pré-diabético — corrigiu Raul, já um pouco irritado.

— Acima de 99… — tentou argumentar o Alfredo, com um sorriso maldoso.

Raul cortou:

— Ah, não vai atacar de médico, que você, até onde eu sei, é funcionário aposentado da Caixa Econômica.

E tentou encerrar a discussão:

— O importante é a saúde como um todo. O fundamental é sentir-se saudável. E é como eu me sinto. Caramba! Você só sabe falar em doença!

Alfredo contra-atacou:

— Só me diz uma coisa: o seu colesterol quanto está?

Olhei o Raul e percebi que ele estava a ponto de apelar. Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, o Alfredo puxou da carteira os resultados do seu último hemograma, propondo um sinistro desafio:

— Vamos comparar os nossos hemogramas! Você tem o seu aí?

— Claro que não. Não sou louco como você!

— Pelo menos sabe de cor os principais índices?

E enumerou alguns:

— Eritrócitos, hemoglobina, leucócitos e plaquetas. Vai, me diz. Aposto que você está anêmico!

Raul saltou da cadeira. Houve uma inquietação no café, já se prevendo uma luta de moleques entre homens da terceira idade, o que seria, no mínimo, ridículo.

— Chega — bradou ele, batendo com a palma da mão na mesa.

— Calma — disse eu. — Estamos aqui para festejar. Daqui a pouco chega todo mundo e vocês…

Mas Raul emendou, virando-se para o Alfredo, o indicador quase encostando no rosto do amigo:

— Que você seja hipocon­dría­co, não tenho nada com isso. Que veja em você todas as doenças, imaginárias ou não, o problema é seu. Mas colocar doenças nos outros, aí não está certo!

E voltou a sentar-se, bufando. Um tempo de silêncio. Olhei o casal jovem. Gabriel passava os olhos num jornal, indiferente à contenda, e Carla olhava a cena, sorrisinho maroto nos lábios. Percebendo que a reunião estava agonizando por sua culpa, Alfredo amenizou:

— Me desculpem. Acho que exagerei. Vou embora. Vou ver um carro para comprar, que o meu já está num bagaço de dar pena. Rateando. Como um coração a ponto de enfartar. Quem é que tem uma sugestão para me dar? Pensei numa Pajero esporte…

Foi quando Carla, sempre tão tímida e até um pouco cerimoniosa, cortou em cima, numa voz suave e com os olhos brilhando:

— Por que você não compra uma ambulância?

A gargalhada foi geral, contaminando o Raul e o próprio Alfredo. Nesse mesmo momento, começaram a chegar os velhos amigos, com Gustavo à frente, sorridente, feliz.

E fez-se a paz no reino do Café Severino.

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Horário nobre

14 abril 2012 | 5 comentários

Alguns anos atrás, considerava-se nobre na televisão o horário que começava às 19 e se estendia até as 22 horas. Hoje, todos sabem, esse tempo é medido das 18 horas à meia-noite. É quando o espaço comercial é mais caro e, consequentemente, os programas considerados mais importantes são apresentados. É também onde se encontra o nicho que abriga a teledramaturgia, principalmente as novelas e, no caso da TV Globo, o Jornal Nacional. A classificação é absolutamente comercial, já que o Programa do Jô, que às vezes entra depois da meia-noite, faz dessa hora tardia uma hora nobre. Assim também o Altas Horas, do Serginho Groisman, e as entrevistas da Marília Gabriela, para citar mais dois exemplos, entre os poucos casos que podem ser lembrados. E, ampliando a classificação para as emissoras a cabo, vamos encontrar o Estúdio I, da Maria Beltrão, e o Sarau, do Chico Pinheiro. Dois programas imperdíveis, apresentados na Globo News.

Era esse — o do horário chamado nobre na TV — o assunto abordado naquela tarde, no Café Severino, enquanto degustávamos um bom tinto californiano que o Raul trouxera de casa. E, a cada gole que bebíamos, ele perguntava com ansiedade:

— Não é mesmo maravilhoso? Safra 2007, a melhor dos últimos vinte anos!

E tínhamos de concordar com ele, já que o precioso líquido descia pela garganta como uma fita rubra de veludo.

Ah, como são bons esses encontros de amigos, em que todos se manifestam sem egoísmo, dando e recebendo informações que enriquecem generosamente a relação de amizade, diria mesmo de amor! E essa exclamação de alegria quase juvenil me leva novamente a mencionar o Estúdio I, com sua pauta variada, na qual convivem, democraticamente, esporte, saúde, economia, literatura, tecnologia, cultura, comportamento… Tudo passa por ali, despretensiosamente, como em nossos encontros no Café Severino. Só não temos, entre nós, uma Flávia de Oliveira, um João Paulo Cuenca e um Artur Xexéo, para citar apenas três entre os muitos nomes estrelados do programa da Maria Beltrão. Mas no Severino, como no Estúdio I, todos ensinam, todos aprendem, sem que ninguém tenha a pretensão de saber mais do que o seu parceiro de roda.

Da mesma maneira, o tema me levou ao Sarau, no qual Chico Pinheiro faz um trabalho que emissora nenhuma de televisão está fazendo: o de exibir o talento, a força, a vitalidade permanente da música brasileira. Vejo o programa duas vezes, pois não perco as reprises.

Bato palmas para os dois: Maria e Chico, que reinam, gloriosos, com seus programas, fazendo da hora em que se apresentam dois exemplos do verdadeiro horário nobre da televisão. Só levamos uma vantagem sobre eles: a degustação de bons vinhos durante nossos encontros.

Já no finzinho da tarde, a garrafa vazia e os primeiros frequentadores da noite chegando, o Raul fazia graça com o tema da reunião:

– Fora da TV, o exemplo também pode ser aplicado. Querem encontros mais nobres do que esses que fazemos durante a tarde?

Falar sobre televisão não está entre meus assuntos favoritos, ainda que eu viva de escrever e dirigir programas há mais de meio século. Talvez porque no Brasil a TV seja um tema dominante, que excede. Não apenas nas conversas familiares, e nem restrita às colunas especializadas, aos cadernos de entretenimento. Não. A TV reina em toda a mídia. Pode até ser bom para nós, que trabalhamos nessa área e vemos assim a valorização do nosso ofício, mas e o leitor de jornais e revistas? Não é empobrecedor, sem nobreza, encontrar numa primeira página de jornal a informação de que uma atriz trocou de namorado? E, na mesma semana, ver estampada nas revistas essa mesma notícia, com a foto da atriz na capa? Muitas vezes, a mesma foto?

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